ARTIGO 1 - O TROTE ESCOLAR

Autor: Pablo de Salamanca

Escrito em 16 de janeiro de 2012.

Há muito tempo venho querendo escrever sobre o trote praticado em escolas, universidades e instituições similares, porque esta prática me causa algum espanto, pelo fato de persistir, ainda, nos dias de hoje. Porém, antes que eu discorra sobre o assunto, deixo uma definição clássica do que é o trote, através do velho companheiro Aurélio(1): “zombaria a que veteranos das escolas sujeitam os calouros; vaia, flauteio”. Bem, observando-se este conceito de dicionário, é fácil notar a inocência da definição, que, pelas ocorrências na mídia, apresenta-se ultrapassada. Sim, ultrapassada, porque já nas últimas décadas a violência que caracteriza os trotes superou, em muito, as “zombarias” e “vaias” de outrora. Atualmente, não raras vezes, o trote é marcado por humilhações profundas, assédio sexual, agressões físicas e até a morte.

Quanto a minha experiência pessoal com o trote, posso dizer que tive sorte. Lembro-me apenas de uma vez que cheguei em casa, na época do meu 2o grau, com o rosto todo rabiscado. Nos meus tempos de universidade, posso dizer que passei praticamente “impune”. Portanto, entendo que não foi nenhum “trauma pessoal” que me leva a escrever sobre o trote, mas sim, um sentimento de indignação pelos sofrimentos físicos e/ou psicológicos impostos aos chamados “calouros”. E o que me deixa, sinceramente, pasmo, é o fato de que grande parte dos “calouros” que foram agredidos no passado, logo tornam-se agressores no ano seguinte. Assim, o círculo vicioso se perpetua, fazendo a “instituição trote” continuar...

Então, me pergunto o que leva aos agredidos se tornarem agressores. Logo encontro respostas na psicanálise e em outras correntes psicológicas, mas não quero enveredar por esses caminhos. Essas explicações são plausíveis, mas recuso-me a esmiuçar a questão por este ângulo e, logo em seguida, aceitar a(s) justificativa(s), acomodando-me com esta realidade. Prefiro chamar a atenção daqueles que propagam o trote, e daqueles que são coniventes com o fato, para uma simples reflexão: por quê fazer aos outros aquilo que não gostaria de receber? Bem, pelo menos foi isso que pratiquei na minha longa vida acadêmica. Nunca fiz ou estimulei o trote! Essa simples atitude, se tomada por cada um de nós, quebrará este ciclo de violência psicológica e física que tem ocorrido, no País, nas últimas décadas. É claro que o papel dos pais é fundamental quanto a essa questão, orientando seus filhos quanto ao respeito ao semelhante, bem como a atuação dos educadores institucionais. A tarefa é de todos nós. E, por favor, que não se levante o argumento de que o trote é uma prática de socialização! Por fim, concluo dizendo que a escola, em seus diversos níveis, é um lugar com finalidades educacionais, considerando os múltiplos aspectos do desenvolvimento humano. Por isso, trote não combina com escola!


Fontes bibliográficas consultadas:

(1) Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, Editora Nova Fronteira, 2a edição, de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, 1986, 1838 p.

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