RELATO 9 - O "HERÓI DO DIA" NO TERREIRO

Autor: Pablo de Salamanca

Por volta de 1994, no início do meu desenvolvimento mediúnico, eu ainda "estagiava" no meu primeiro terreiro de Umbanda. Naquela casa, toda abertura de trabalhos era coordenada pelo Ogum da dirigente espiritual. Ele incorporava em sua médium e fazia uma oração para, em seguida, realizar uma breve preleção com orientações às pessoas presentes. Aquele guia era muito sério e disciplinador, não aceitando desatenções e brincadeiras fora de hora. Assim, os integrantes do centro respeitavam muito aquela entidade.

Num determinado início de noite, quando a gira começava normalmente, o Ogum já estava se manifestando através da "mãe de santo". Ele fazia uma oração de abertura e nós, os médiuns, estávamos ajoelhados naquele momento, como de praxe. No entanto, na minha direita, observei que a tampa de um ralo havia quebrado e, por uma fenda, já surgiam algumas baratas. Ao meu lado esquerdo, a "mãe pequena" logo apontou os insetos e ameaçou entrar em desespero. Eu fiz um sinal para que se acalmasse. Eu tentaria "dar um jeito", mas eu estava preocupado em não fazer barulho, de modo a não chamar a atenção do Sr. Ogum, que orava de frente ao altar, olhando fixamente para este. Se eu fizesse alguma bobagem, eu seria o alvo da bronca. De outra forma, se me omitisse, haveria uma bagunça, pois a grande maioria do quadro mediúnico da casa era feminino e, a maior parte delas, anteriormente, já havia comentado sobre o terror às baratas.

Então, outra médium viu os insetos e soltou um "Ai!". Ia acontecer um caos e, por isso, venci a repulsa pelas baratas, matando duas com minha mão direita, esmagando-as no piso. Em ato contínuo, peguei um vaso de flores e espremi uma terceira sob a base do objeto, fazendo certo barulho. A entidade incorporada olhou rapidamente para o meu lado e mantive-me quieto como se nada tivesse acontecido. O Ogum voltou à oração, olhando para a frente. Em seguida, peguei o vaso de flores e tampei a fenda no ralo. Foi um alívio geral, pois mais duas ou três médiuns viram que as baratas estavam por ali.

A sessão teve sequência e depois puxaram pontos da Linha de Oxossi, pois era dia dos caboclos darem consulta. Alguns já estavam "em terra" e o guia da "mãe pequena" me abordou e falou: "Que vergonha do meu aparelho! Tanto medo por causa desses bichinhos! E você, cambono, já lavou as suas mãos?" E respondi: "Não senhor!" Então a entidade me orientou: "Filho, a disciplina é importante, mas você pode sair do terreiro se necessário. É só pedir licença. Vá lavar as mãos!"

Então, fui ao banheiro fazer a devida higiene, para poder retornar a minha função de cambono no terreiro. Ao final da sessão, algumas médiuns vieram agradecer a minha atitude e uma delas disse que eu havia sido o "herói do dia". Achei a situação engraçada e nunca mais a esqueci.

Hoje, enquanto finalizo este relato, posso entender o que não compreendia bem naquela época, quanto à necessidade de forte disciplina, que caracteriza os bons terreiros de Umbanda. Ao longo do tempo, fui notando que os consulentes que procuram o Umbandismo, muitas das vezes estão em desespero, em situações realmente críticas. E nesse contexto, não havendo disciplina, o templo umbandista pode se transformar num palco de manifestações de espíritos mistificadores ou zombeteiros, ao invés dos legítimos guias dessa tão importante corrente espiritualista.



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