RELATO 6 - O CAMBONO E A PRETA-VELHA

Autor: Pablo de Salamanca

Era o final do ano de 1993. Eu estava no início do meu desenvolvimento mediúnico, e apenas sentia as vibrações, mas ainda não incorporava. Então, naquele centro no qual permaneci por cerca de um ano, colocaram-me na função de cambono. A minha tarefa era auxiliar às entidades que se manifestavam através da "mãe pequena" do terreiro. Ela trabalhava muito bem com um caboclo, com uma pomba-gira e com uma preta-velha, que davam consultas em diferentes dias.

No curto período em que permaneci naquele centro, aconteceram experiências interessantes, e dentre elas, uma em que eu cambonava a preta-velha Tia Maria. Essa entidade, que atuava através da mãe pequena, explicava que ela não era "Vovó Maria", pois não havia sido mãe em vida e, assim, era chamada "Tia Maria".

Bem, a mãe pequena tinha certo receio de trabalhar com a sua preta-velha, pois às vezes ela se sentia mal durante ou após as atividades. Naquela noite, tudo corria bem e a Tia Maria já havia atendido entre oito e dez consulentes. Entretanto, num dado momento, a entidade disse que ia subir, para seu aparelho se recuperar do desgaste. A Tia Maria subiu, mas a mãe pequena estava enjoada. De repente, sem que eu pudesse fazer nada, a médium correu para o banheiro. Alguém então me disse: "Vá atrás, pois você é o cambono dela". E eu fui até o banheiro, cuja porta ficara aberta, onde ela estava curvada vomitando no vaso sanitário. Fiquei ao seu lado e tive compaixão dela, pois, afinal de contas, ela estava fazendo um serviço inteiramente gratuito, com o sacrifício de suas próprias forças. Com este sentimento, pensei fortemente em emitir uma parte de minhas bioenergias, para que ela se recuperasse. Logo em seguida, senti uma forte pressão na minha testa e, da região entre os meus olhos (o chacra frontal), partiu um forte fluxo bioenergético em direção à cabeça da mãe pequena, que terminava de vomitar, com o rosto voltado para baixo. Fiquei meio tonto, após este procedimento, mas logo me recuperei. Então, aquela senhora ergueu-se e amparei-a por um braço. Ela me disse que estava tudo bem e que iria se lavar, arrematando que eu poderia voltar ao terreiro.

Poucos minutos depois ela estava sentada novamente no banquinho da preta-velha. A entidade retornou e mandou chamar os consulentes que faltavam. Eram mais duas senhoras, que foram atendidas adequadamente, sem pressa, pela Tia Maria.

Ao final da gira, a preta-velha, antes de ir embora, fez um sinal para eu me aproximar mais. Fiquei de cócoras, ao seu lado, e ela falou ao meu ouvido: "Cambono, muito agradecida pela vibração que você fez pelo meu aparelho lá no banheiro, enquanto ela estava vomitando. Eu vi. Deus pague a sua caridade."

                   Fiquei muito surpreso com as palavras da Tia Maria, pois notei que a entidade estivera presente no banheiro, momentos antes, e ela percebera que eu havia enviado um parcela de minhas bioenergias para a sua médium. Eu não havia comentado nada à mãe pequena, e, na realidade, com ninguém. Ali eu tive uma pequena comprovação pessoal da presença da Espiritualidade entre nós. Além disso, concluí que a função de um cambono não é apenas atender aos pedidos da entidade incorporada, nem só fazer as devidas anotações de recomendações aos consulentes, mas também fornecer um suporte energético aos trabalhos em andamento. Muitos cambonos, pelos terreiros de Umbanda de nosso País, não compreendem bem o seu papel numa gira. Alguns até sentem-se diminuídos em seu valor pessoal, pois acham mais importante o trabalho de consulta ou descarrego que os médiuns incorporantes realizam. No entanto, uma gira de Umbanda só transcorre bem, pela atuação segura e dedicada dos cambonos. O médium  incorporado, sem o auxílio adequado de um cambono, pouco ou nada pode fazer, até mesmo porque é muito comum, em sessões mais densas vibratoriamente, tanto o médium incorporante como o seu cambono terminarem a gira com um significativo grau de exaustão. E porque isso acontece também com os cambonos? Por que os cambonos, ainda que não percebam, são doadores de ectoplasma (bioenergias) para as tarefas em execução, ou seja, atuam inconscientemente também como médiuns de sustentação da casa espiritualista. Portanto, a Umbanda precisa de bons médiuns incorporantes, com equilíbrio emocional e uma índole amorosa, mas também cambonos bem preparados, dedicados e com muito amor pelo que fazem. Esta união de fatores é fundamental para que os melhores resultados sejam atingidos.


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