RELATO 49 - O ALERTA DE EXU-MIRIM

Autor: Pablo de Salamanca


Cerca de sete anos atrás, numa sexta-feira, antevéspera de Domingo de Páscoa, eu acabava de entrar num ônibus tipo “frescão”, rumo a minha residência. A viagem demoraria algo em torno de uma hora e meia, como de costume. Eu levava uma mochila, com objetos pessoais, e uma grande sacola plástica com várias caixas de bombom, para distribuir entre os mais novos da família. 

Sentei junto a uma janela, colocando a mochila aos meus pés. Na cadeira ao lado, pus a sacola com chocolates, porque sabia que, naquele horário, aquele ônibus sempre trafegava mais vazio. Então, fechei os olhos e relaxei, de modo a realizar um método de meditação, que vinha praticando há alguns meses.

Não demorou muito e ocorreu uma inesperada vidência. A minha direita, no corredor do ônibus, surgiu um garoto aparentando ter uns 12 anos. Ele simplesmente abriu a sacola com as caixas de bombons e começou a mexer no interior dela, como se fosse furtar algo. Fiquei surpreso com a vidência e abri os olhos, interrompendo o processo meditativo.

Examinei a sacola e ela estava intacta. Não havia nenhum garoto no coletivo. Apenas era possível notar seis ou sete passageiros, mais à frente de onde eu estava, e um senhor atrás de mim, quase na última poltrona do ônibus. O menino que tinha surgido no meu campo visual mediúnico apresentava a pele clara e cabelos negros. Estava meio sujinho, assemelhando-se a um garoto de rua. Desconfiei que ele me alertava sobre algo negativo e, desta forma, resolvi não fechar mais os olhos. Naquela viagem, eu não entraria novamente em meditação.

O ônibus, então, atingiu a Avenida Presidente Vargas, no Centro do Rio de Janeiro. Na altura da Central, entraram dois rapazes, sendo que um deles portava uma mochila. Ambos foram para o fundo do veículo. Poucos minutos depois, um deles atravessou o coletivo, indo na direção do motorista com um revólver em punho, anunciando um assalto. O outro rapaz, logo em seguida, também foi à frente do ônibus, avisando que era para não reagir e colocar dinheiro e pertences de valor na sua mochila.

Naquele momento, recordei que eu estava com cerca de 1.500 reais no bolso da camisa. Era um valor alto, porque eu precisava pagar um pedreiro, que realizava uma obra na residência. No entanto, mantive o sangue-frio. Como os dois delinquentes estavam lá na frente do veículo, retirei sutilmente o dinheiro do bolso e o guardei na cintura, por dentro da cueca. Na sequência, planejei o que ia dar ao ladrão, que vinha se aproximando. Eu tinha cerca de 80 reais no bolso direito da calça e um celular de qualidade apenas razoável. Era isso o que eu ia entregar, de modo a que ele pudesse ficar satisfeito.

O rapaz chegou e logo passei estes pertences. Mostrei o interior de minha mochila, que só continha roupas sujas. Ele ficou feliz com a minha “colaboração”, seguindo adiante sem ter me ameaçado, o que acabou fazendo com um homem alto e forte, bem como com um rapaz que tinha um laptop guardado numa bolsa. 

Em certo trecho da Avenida Brasil, os dois ladrões saltaram próximo a uma área de favela. O motorista, muito nervoso, perguntou aos passageiros se desejavam ir até a uma delegacia. Nós, que éramos poucos no coletivo, dissemos para ele seguir viagem. O rapaz que quase foi agredido, e que inclusive foi ameaçado de morte, lamentava não ter  um único centavo para pagar outro ônibus, no trajeto seguinte que seria necessário para ele chegar até a sua casa. Então, retirei parte do dinheiro que eu havia escondido e dei dez reais ao jovem, para ele não ficar a pé.

É relevante ressaltar que consegui manter uma calma anormal em todo o evento, o que reputo à presença da Espiritualidade, em meu amparo e inspiração. Não fui agredido. Não fui ameaçado verbalmente ou por gestos. A sacola cheia de bombons não foi tocada pelos ladrões, que ao revistarem alguns passageiros, fizeram uma verdadeira bagunça com suas bolsas, mochilas e sacolas. 

Assinalo que o espírito que me apareceu na vidência, no início deste relato, pertence à Falange de Exu-mirim. Assim, aproveito a oportunidade para fazer umas breves considerações sobre esta linhagem de exus. No meio umbandista, existem variadas versões sobre exu-mirim. Essas versões ou visões sobre este agrupamento de trabalhadores espirituais são respeitáveis, mas não posso ignorar a minha experiência pessoal com estes guardiões. Deste modo, coloco que já me encontrei com vários exus desta falange no Plano Astral, através de meus desdobramentos espirituais ou projeções da consciência. Nestes encontros diretos, ou seja, sem intermediários, pude interagir com eles e vê-los em ação por diversas vezes. Constatei que são espíritos que se manifestam com a aparência de garotos, de adolescentes e até de rapazes. A idade aparente gira em torno de 11 a 18 anos. Boa parte deles se apresentou como se fossem meninos de rua, mas não todos. A maioria demonstrou inteligência e esperteza. Poucos se mostraram com alguma timidez.

Por outro lado, aqui no Mundo Terreno, durante trabalhos mediúnicos, pude conversar com entidades desta falange, incorporadas em seus médiuns. Posso atestar que conhecem profundamente magia, manipulando como mestres as bioenergias disponíveis. Não são exatamente garotos ou jovens, pois detêm raciocínio maduro. Não podemos esquecer que cada espírito já reencarnou muitas vezes e, no inconsciente de cada um, estão armazenadas suas experiências e habilidades, que podem ser acessadas e externadas, quando há preparo para isso.

As entidades que labutam dentro da linhagem de Exu-mirim apenas se apresentam de um jeito brincalhão, meio malandro ou meio infantil, porque isso faz parte de seu método de trabalho. Por exemplo, eles têm me comunicado que usam formas e modos infanto-juvenis no Astral, porque assim podem enganar seres obscuros, verdadeiros quiumbas (obsessores), que não lhes dão valor, justamente por se mostrarem como garotos ou meninos. Então, neste contexto, Exu-mirim desfaz magias negativas, atua em atividades de limpeza difíceis e “desata nós” bastante complicados…

Naquele dia, no ônibus, fui ajudado por Exu-mirim. Fui alertado pelo que estava por acontecer, evitando ficar passivo no veículo, à mercê dos ladrões. De outra forma, eu seria pego de surpresa. Laroiê Exu-mirim! Exu-mirim é mojubá!


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