RELATO 46 - O ANIVERSÁRIO DO TERREIRO

Autor: Pablo de Salamanca


Aquele era um dia festivo no terreiro de Umbanda. A casa completava pouco mais de 40 anos de existência. A sessão, naquela data, seria composta pela abertura tradicional, por um trabalho de passes com os guias, mas sem consultas, finalizando com uma confraternização entre médiuns e consulentes.

Ali não era estimulado um contato mais próximo entre médiuns e consulentes, no dia-a-dia dos trabalhos. Porém, naquela data comemorativa, se fazia uma exceção. 

Então, ao final da atividade mediúnica, os médiuns foram chamados ao pátio interno da instituição, onde se encontrava um grande bolo, bem como os consulentes que desejaram permanecer na casa, para cantar o “parabéns” e interagir.

Enquanto o dirigente do centro fazia uma oração de agradecimento, permaneci junto aos demais médiuns, em expectativa. A seguir, as velas do bolo foram acesas e cantou-se o “parabéns”. No momento de distribuição das fatias do bolo, preferi ficar num canto, conversando com Amanda, uma tarefeira da casa, como eu. Contudo, percebi que, a certa distância, uma senhora olhava para mim sorridente. Seu rosto não me era estranho, mas não recordava de onde poderia conhecê-la. Preferi deixar isso de lado e focar minha atenção em Amanda. 

Num dado instante, a nossa conversa foi interrompida gentilmente pela senhora mencionada, que disse: “Bom dia, o senhor não me conhece, mas eu precisava falar... Eu precisava agradecer ao senhor.” Eu e Amanda nos calamos, aguardando o que ela diria a mais. E ela continuou: “As suas entidades me ajudaram muito! O senhor nem imagina! Eu não dormia direito. Quase nada o meu estômago digeria. Eu vivia dando trabalho para o meu marido, um homem tão bom! Preocupava os meus filhos. Eu só vivia doente, me sentindo imprestável. Eu tinha até vergonha do meu estado! Os médicos não davam jeito na minha situação. Eu tinha muita vergonha de não ter forças para nada!”

Então, lembrei-me daquela senhora, ainda que um tanto vagamente. Durante os transes mediúnicos do caboclo, do preto-velho e do exu, seu rosto havia sido registrado em minha mente. Até os assuntos que ela vinha apontando, em agradecimento, passaram a ter alguma lógica para mim. Aquela senhora era um dos consulentes mais frequentes para as entidades que trabalhavam através da minha coroa. Nas memórias esparsas da semiconsciência de minhas atividades mediúnicas, realmente constava a presença daquela pessoa.

Ela, agora, passava a falar detalhes de sua melhora, exaltando sua alegria e satisfação, até que se emocionou e foi às lágrimas. Nesse contexto, intervi e disse que eu estava muito feliz por ela ter recuperado sua saúde, e que deveríamos agradecer a Deus. Ela me perguntou se poderia me dar um abraço e eu a abracei. Em seguida, ela se desculpou por estar tão expansiva, mas comentou que precisava ter vindo me agradecer pessoalmente. Então, afastou-se.

Amanda, que acompanhou a nossa conversa, também estava emocionada. A médium me falou: “Isso já aconteceu uma vez comigo! É tão bom, não é mesmo?” Respondi que sim e acrescentei que esta é a verdadeira recompensa do médium.

Ao final deste relato, necessito salientar que, num centro umbandista, nem sempre há irmandade suficiente. Às vezes, alguns médiuns preferem estimular sentimentos menos nobres, como o ciúme e a inveja. Preferem também praticar a maledicência e a fofoca, bem como outras atitudes destrutivas. Não é raro, nos terreiros, “filhos-de-santo” atuarem negativamente contra o dirigente espiritual da casa, mas também o próprio não ser muito equilibrado ou justo. Bem, mas isso tudo não é privilégio da Umbanda. Em todas agremiações religiosas está o elemento humano e, desta forma, ali reside a imperfeição. Mas, porque estou colocando estes aspectos agora? Já respondo. Quero salientar que devemos trabalhar fundamentalmente pela nossa própria melhoria, dando oportunidade também às entidades para evoluírem e uma chance aos consulentes que, verdadeiramente, sofrem. O restante não importa! Naquele dia do aniversário do terreiro, quem recebeu um presente fui eu. Salve Umbanda!

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