RELATO 34 - O MENINO E AS POMBA-GIRAS

Autor: Pablo de Salamanca


Em 1994, eu atuava especificamente como cambono, no primeiro terreiro ao qual me integrei. Naquela época, já sentia as vibrações das entidades, mas era algo sutil. A incorporação só viria depois...

Eu era cambono da Senhora Maria Padilha, a pomba-gira da mãe pequena do centro. O trabalho era intensivo, mas me permitia observar também outras entidades do terreiro. Assim, com o tempo, passei a admirar o trabalho de uma Senhora Cigana e da Senhora Rosa Caveira, através de outras duas médiuns experientes da casa.

Então, em cada gira de exus, era bastante interessante assistir a atuação das três entidades citadas. Ali, naquela época, aprendi muito, até que chegou um período de suspensão das atividades do centro. Isso coincidiu com as minhas férias na universidade e recebi um convite para uma viagem ao Espírito Santo, para a região de Guarapari. Quem havia me chamado, o professor-orientador Saulo, era umbandista. Ele havia, anteriormente, me levado a uma sessão de Umbanda pela primeira vez, o que havia sido um ponto crucial da minha vida. Ele foi muito importante na minha jornada profissional e também espiritual. Aceitei a proposta de viagem, que seria realizada com o professor Saulo, sua esposa e seu filho João, que contava com apenas cinco anos à época.

Levei em minha bagagem uma caixa de velas brancas e fósforos. Eu planejava, interiormente, acender uma vela para cada uma daquelas pomba-giras que eu admirava, na beira de uma praia de Guarapari, se fosse possível. Minha ideia era agradecer a elas pelo belo trabalho que vinham realizando no terreiro, bem como eu pediria mais luz para o caminho delas. Eu desejava, de coração, que elas evoluíssem mais e mais...

Quando chegamos ao hotel e nos instalamos, o professor Saulo propôs um passeio numa praia próxima. Então, eu disse a ele que gostaria de acender três velas, embora não tenha lhe explicado com que propósito. Saulo logo concordou e disse que ele levaria o seu filho João.

Era o início da noite e a temperatura estava agradável. Uma brisa bem perceptível corria na praia. Caminhávamos, conversando sobre coisas da vida, com os pés na areia macia, até que chegamos a um local com poucas pessoas. Ali seria adequado acender as velas e fazer uma oração para cada entidade. Desta forma, ajoelhei-me e passei a fazer três buracos, aonde colocaria cada vela, ao abrigo do vento.

Depois que as velas já estavam acesas, fiquei em silêncio, orando mentalmente em intenção de cada pomba-gira em sequência, pedindo ao Pai Maior que lhes amparassem em seus trabalhos. Então, de repente, fui interrompido pelo menino João. O garoto, influenciado por uma força invisível, tinha acabado de se jogar em frente a uma vela, de joelhos na areia, apoiando-se com as mãos no solo e dando uma estranha gargalhada. Tomei um susto com a situação e, logo em seguida, Saulo pegou no braço de seu filho, repreendendo-o com vigor. Ergueu o menino e o sacudiu, dizendo a ele que não era hora de brincadeiras, pois o Pablo estava rezando.

Saí do meu estado de espanto e disse ao Saulo que estava tudo bem. Falei para ele não brigar com a criança, pois o João somente havia captado para quem eu estava oferecendo as velas. O garoto ficou um pouco chateado com o pai, mas foi algo passageiro. No caminho de volta até o hotel, expliquei ao Saulo que eu havia acendido as velas em intenção de três pomba-giras. O menino João, com seus cinco anos de idade, nada sabia de Umbanda e das suas entidades. Seu pai nunca havia lhe falado nada sobre religião, pois entendia que ele deveria crescer e decidir, no futuro, aquilo que desejasse seguir.

Mais tarde, em minha cama no hotel, fiquei meditando sobre o acontecimento inesperado. A Espiritualidade havia se manifestado, através da criança, de modo a me dar um retorno visível quanto a minha intenção. Ali, naquela praia, realmente alguém estava presente para ouvir e receber as velas e as preces. Fiquei muito feliz com o acontecimento. Lá eu nada pedia para mim e, talvez por isso, uma das entidades fez questão de se fazer notar, através de uma criança inocente. Aliás, naquela oportunidade eu tivera uma prova contundente da sensibilidade natural das crianças aos espíritos. O garoto havia entrado num transe rápido, mas típico de um médium umbandista que recebe uma pomba-gira.

Semanas depois, de volta às atividades do meu terreiro, à época, nunca comentei às pomba-giras sobre o acontecimento. Eu simplesmente já sabia que minhas orações tinham chegado ao seu destino.

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