RELATO 31 - SABEDORIA DE ERÊ

Autor: Pablo de Salamanca


No início de minha jornada mediúnica, na década de 90, eu era um sujeito voluntarioso. A juventude e o vigor físico ajudavam-me a crer que, junto com as entidades de Umbanda, pudesse realizar trabalhos de descarrego e similares, de forma sistemática, sem que eu adoecesse ou absorvesse energias negativas. Com o tempo, fui percebendo que não era bem assim. Porém, o início do meu despertar se deu através da sabedoria simples de um erê, dentro de uma vivência, que conto a seguir.

Por oito anos, participei de um grupo que realizava sessões de mesa de Umbanda. Sempre, após o período de estudos, vinham os chamados “irmãos sofredores” que, na realidade, consistiam em espíritos variados, desde desencarnados perdidos até quiumbas (obsessores) perigosos. Mas, naquelas semanas, sessão após sessão, estavam se manifestando principalmente entidades muito agressivas, ligadas à magia negra. Isto estava assustando à médium S. que, junto comigo, éramos os mais preparados para a incorporação dessa classe de espíritos, tão densos vibratoriamente. Ela estava resistindo a dar passagem a esses quiumbas, que precisavam ter esse contato com o aparato mediúnico, bem como conversar com o dirigente do centro, que cumpria relevante papel de esclarecimento.

Nas reuniões, notando uma certa aflição da médium S., durante a aproximação dos obsessores, passei a segurar em uma de suas mãos, com o intuito de “puxar” as entidades para mim. O processo funcionava e, nesse contexto, passei a realizar muitas incorporações em cada sessão. Contudo, em determinada reunião, após o trabalho desobsessivo, senti-me desgastado. Meu corpo tremia, não se estabilizava, enquanto o suor escorria pelo meu rosto com abundância. Sofria náuseas também.

 Na sequência, a médium S. recebeu o Erê Crispim, que logo se dirigiu a mim. Ele ajudou-me bioenergeticamente e falou: “Tiozinho, não adianta você querer fazer a tarefa do meu aparelho! Você não vai aguentar tudo sozinho! Ela é que tem que fazer a parte dela, porque cada um tem a sua cruz.” Ao ouvir o que a criança espiritual me transmitiu, compreendi que eu estava passando do meu limite e também impedindo que a médium S. se libertasse do seu temor e cumprisse sua missão espiritual.

Aquela sessão transcorreu normalmente e pude assistir as atividades orientadoras do Crispim aos consulentes da casa. Eu, de minha parte, como estava um tanto combalido, praticamente não pude dar passagem ao meu erê, que veio apenas rapidamente, mais na intenção de me reequilibrar. Eu estava recebendo as consequências de minhas atitudes voluntariosas, que vinham acontecendo já há várias reuniões.

Bem, que lições pude aprender naquele período de minha vida e também ao longo do tempo, quanto ao equilíbrio na ação mediúnica? Percebi que existe uma programação espiritual um tanto rígida, quanto ao que cabe a cada médium. Se este, por qualquer motivo, deseja fazer algo a mais, acaba por se desgastar bioenergeticamente. E se insiste neste posicionamento, pode ficar doente, até de forma crônica, sendo a recuperação muito lenta.

Também aprendi que, em grande parte das vezes, o médium que vai além da sua programação mediúnica, assim o faz por ilusões que alimenta. E a base dessas ilusões é a vaidade! Muitos se acreditam como “supermédiuns” ou imaginam que suas entidades vão os livrar de tudo.

Primeiramente, não há exatamente “supermédiuns”, pois cada um tem sua própria carga de ectoplasma (bioenergias) e um determinado tipo de reposição. Onde há gasto em excesso de ectoplasma, sem o descanso necessário e recuperação dessas bioenergias, haverá uma queda, seja orgânica e/ou psíquica.

Em segundo lugar, os protetores e guias de Umbanda não vão livrar seu médium de todos os obstáculos. São as pedras do caminho que fazem o umbandista crescer e amadurecer. E sobretudo quando os problemas são criados pelo próprio médium, este é deixado dentro do “caldeirão de sofrimento” que produziu, até que haja um despertar do trabalhador encarnado. Na Umbanda, seriedade e humildade são bases fundamentais.

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