RELATO 29 - ENTIDADE NÃO AUTORIZADA

Autor: Pablo de Salamanca


Eu tinha acabado de subir num ônibus, para uma viagem curta, até a residência da senhora Divina. Ela fazia sessões de mesa de Umbanda, na garagem de sua bela casa, com um reduzido grupo de pessoas. Eu era um médium inexperiente naquela época, por volta de 1995. Ali eu vinha sendo útil aos trabalhos e, ao mesmo tempo, estava aprendendo bastante.

Como dizia, eu havia subido no ônibus, mas não procurei lugar para sentar, pois a viagem seria breve. Fiquei de pé, segurando uma barra metálica no alto do veículo, com minhas duas mãos. Eu já estava me concentrando para as atividades mediúnicas, procurando ficar alheio ao barulho e à movimentação ambiente. Fechei os olhos e, enquanto o coletivo rodava pelo asfalto, senti uma presença ao meu lado, a cerca de um metro de distância. Pela vidência, que não é muito frequente comigo, ali estava uma entidade de aparência estranha, mas, de alguma forma, familiar. O ser masculino tinha pele morena, como a dos indianos. Era muito magro e, como se apresentava sem camisa, sobressaíam suas costelas. Tinha estatura mediana, como eu, mas seus volumosos cabelos negros e lisos eram compridos, indo até o meio de suas costas. Possuía dedos finos e as unhas eram compridas.

Ele não me amedrontou, pois como coloquei antes, havia algo de familiar nele. Suas vibrações repercutiram em mim, traduzindo que ele tinha uma vontade forte e persistente, mas também certa frieza. Porém, apesar desta minha sensação, ouvi a entidade dizer, com satisfação contida: “Finalmente te encontrei! Procurei você por muito tempo! Vamos voltar a trabalhar juntos.”

Após essa breve comunicação, voltei a focar no ambiente exterior, porque tinha em mente que o percurso até a casa da senhora Divina era curto. Passaram cerca de cinco minutos e o ônibus chegou ao meu ponto de desembarque. Caminhei da estrada para o condomínio, onde a dirigente daquele grupo espiritualista morava, por sete minutos no máximo. Ainda sentia as vibrações daquela estranha entidade, mas não pude mais ouvi-la nem vê-la. Bati palmas no portão, alvoroçando os vários cachorros de dona Divina. O esposo dela veio me receber, sorridente.

A sessão não demorou a começar. Todos do grupo estavam presentes e apenas deu tempo de nos cumprimentarmos. Não falei nada a ninguém, sobre a experiência com a estranha entidade, que tinha ocorrido há pouco. Os cães, curiosamente, sempre que fazíamos reunião, se posicionavam em volta da mesa, onde ficavam os médiuns. E ficavam em silêncio, deitados.

A sessão transcorria normalmente, tendo se realizado a parte dos estudos e também o atendimento aos desencarnados em sofrimento. No período destinado às instruções das entidades de Umbanda, algo diferente aconteceu. A senhora Divina comentou que estava sentindo vibrações desconhecidas e se sentindo incomodada. Mantive-me quieto, observando-a. Ela parecia assustada. E estava mesmo, pois, ao olhar para mim, confessou que não desejava receber a entidade presente, dizendo: “Pablo, esse espírito tem ligação contigo. É pesado. Vou passá-lo para você receber!” Fiquei um pouco frustrado, pois eu queria conversar com ele, de modo a saber o que queria comigo. No entanto, não podia exigir isso da senhora Divina. Então, estiquei minhas mãos, segurando nas mãos da dirigente do grupo, que estava ansiosa por se livrar daquela situação.

 Logo a seguir, incorporei o espírito. Para a surpresa de todos os presentes, ele se comunicou numa língua estranha. Ninguém entendia seu idioma, que não se parecia com nada que conhecíamos. A entidade não ficou muito tempo. Não me prejudicou e pareceu até mesmo tentar me ajudar. Após a incorporação, mantive-me bem. Ficou na minha mente que aquele espírito tinha sido um amigo, numa vida passada, quando compartilhamos atividades de magia, com fins egoísticos. Havíamos praticado magia negra juntos.

 Conversando com uma pessoa mais experiente, à época, pude concluir que a Espiritualidade havia permitido aquela aproximação, de modo a dar uma oportunidade àquela entidade de seguir um novo caminho. Aquele espírito era uma entidade não autorizada pela Lei de Umbanda. Não estava esclarecido o suficiente para trabalhar na corrente umbandista. Também havia sido um teste para mim, pois eu poderia novamente enveredar pelo desejo de poder, como no passado.

Agora, enquanto finalizo este relato (31 de maio de 2016), um guardião amigo se aproxima e me revela que aquele espírito hoje já trabalha como exu, participando ocultamente da minha corrente de proteção. Fico muito feliz com esta revelação, ou seja, 21 anos depois daquele reencontro, o meu amigo do passado transformou-se o suficiente para tornar-se um guardião da Umbanda. Desejo a ele muita luz em sua jornada.

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