RELATO 20 - ENCONTRO INESQUECÍVEL COM ZÉ PELINTRA

Autor: Pablo de Salamanca

        Até 1990 eu nunca tinha ido a uma sessão de Umbanda. Na minha infância, na década de 70, minha mãe me levava para consultas e passes com uma entidade, na residência de uma velha senhora, que tinha um cômodo com um gongá. Ela trabalhava sem a presença de outros médiuns. Esta situação foi apresentada no relato “Previsões do caboclo”. Assim, ao longo do tempo, o meu interesse pelo espiritualismo só foi reaceso novamente na adolescência, quando comecei a ler muitas obras kardecistas. A Umbanda estava praticamente esquecida. Minha visão do Mundo Espiritual era baseada fundamentalmente no Espiritismo Cristão.
        Porém em 1991, nos meus tempos de universidade, conheci o professor Saulo, que era umbandista. Ele foi meu orientador acadêmico e, depois que cultivamos bons laços de amizade, ele me convidou para assistir a uma sessão de Umbanda, de um terreiro que seria inaugurado em breve. Aceitei o convite mais por curiosidade, porque até então Allan Kardec e Chico Xavier preenchiam a minha mente, fornecendo explicações bastante concisas sobre a vida e a morte. No entanto, me instigava saber como funcionava a Umbanda.
Na véspera da sessão de inauguração do centro umbandista, que ficava em região serrana do Estado do Rio de Janeiro, eu me perguntava várias questões. Caminhava à noite, sozinho, no campus universitário, pelas suas ruas bem arborizadas, fazendo mentalmente várias perguntas. Eu seria médium realmente, como haviam me dito no passado? Neste caso, qual seria minha missão mediúnica? Estas eram questões importantes, mas muitas outras eu ia disparando, conforme transcorria aquela caminhada noturna.
        No dia seguinte, também à noite, lá estava eu e o Saulo adentrando aquele terreiro de Umbanda. A casa estava vazia. Fomos os primeiros a chegar. Sentamos em um longo banco de madeira, dentre outros destinados ao público. Ficamos ali silenciosamente, até que, por um corredor comprido, apareceu uma pessoa vestida de branco. O homem veio nos avisar que a mãe de santo, a senhora Y., nos dava boas vindas e nos convidava a sentar ao lado dos atabaques, dentro do terreiro. Saulo se adiantou e agradeceu. Assim, fomos para o local destinado e ele me segredou que aquilo era um tipo de honraria que nos foi dada. Aquela situação me incomodou um pouco, porque eu era muito tímido e, na verdade, eu preferiria ficar num canto qualquer, observando atentamente como funcionavam as incorporações e a sessão como um todo. Eu e Saulo ficamos um tanto espantados com a percepção da mãe de santo. Ninguém estava no salão quando o adentramos, mas ela soube que havíamos chegado e mandara o recado para nós, através daquele cambono. A Espiritualidade estava presente e a senhora Y. era uma “poderosa antena”.
        Quando começou a sessão, a casa estava lotada. O som dos atabaques invadia a minha alma. Era difícil ser um espectador neutro, embora eu me esforçasse para ter um olhar investigativo sobre tudo o que ocorria. Os pontos cantados, ao ritmo dos tambores, eram contagiantes. Contudo, observei cuidadosamente as manifestações das várias linhas de trabalho que se sucediam. Eu tentava entender os espíritos que estavam por trás dos processos incorporativos. Por exemplo, me era um pouco difícil, naquela época, entender o porquê os pretos-velhos tinham que se apresentar como pessoas ainda tão idosas. Essa questão, bem como outras, fui entendendo só com o passar do tempo...
       Mais à frente, já em plena madrugada, era chegada a hora dos Exus. Fiquei espantado com os guardiões, mas eles aguçaram ainda mais a minha vontade de entender as entidades da Umbanda. Num dado momento, aproximou-se de mim a mãe de santo incorporada. Era o seu Zé Pelintra. Ele liderava os trabalhos e, após algumas tarefas, voltou para conversar comigo. Ele me chamava de “doutorzinho” e disse para eu observar bem a tudo e estudar cada detalhe. Senti-me desnudado, pois essa era mesma a minha intenção. Então, sem que eu perguntasse nada, ele começou a responder a todas às questões que eu havia indagado mentalmente no dia anterior, enquanto caminhava dentro da universidade. Ali, naquele momento, encontrava as devidas e precisas respostas. Além disso, a entidade fez algumas previsões sobre o meu futuro. Todas se concretizaram, para minha surpresa, ao longo dos anos.
        Perto do final da sessão, o Sr. Zé Pelintra parecia querer me provar que eu era um médium, embora eu nunca tivesse sentido nada de muito evidente até aquele ponto da minha vida, aos 23 anos de idade. Ele me chamou e também a um médium da casa, para ajudar uma senhora idosa que estava doente. Disse para eu colocar minha mão direita no ombro da senhora, enquanto o médium deveria pôr sua mão no outro ombro da idosa. A entidade puxou um ponto e concentrei-me em ser útil àquela pessoa adoecida, de alguma forma. Conforme o cântico prosseguia, senti minhas energias sendo carreadas para a senhora, ao ponto de perceber minhas pernas fraquejarem. Num dado instante, o seu Zé mandou parar o ponto e disse que já estava bom. Agradeceu a minha intenção de caridade e ao outro médium. Quando fui andar de volta ao meu lugar, próximo aos atabaques, senti meus joelhos muito fracos, quase se dobrando. Naquele dia, entendi que eu era um médium. Quase dois anos depois, em outro centro, próximo de minha residência, eu iniciaria minha jornada mediúnica. Sou muito grato ao Sr. Zé Pelintra, que se manifestou com perfeição através da excelente senhora Y. Salve suas forças “Seu Zé” e muita luz no seu caminho!

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