RELATO 19 - UM INICIANTE NA PORTEIRA

Autor: Pablo de Salamanca

        Estávamos ainda no início de uma sessão de mesa de Umbanda. Após a oração de abertura, não havia sido possível começarmos a fase de estudos, pois a médium Tetê Souza dava sinais de incorporação.
        Nélson, o dirigente, disse-lhe para dar passagem à entidade, de modo que entendêssemos melhor qual a necessidade do momento. A este consentimento, a médium permitiu a manifestação do espírito.
        Logo que ele pôde falar, demonstrou estar nervoso com o que estava acontecendo lá fora, na porteira do terreiro. Disse que havia muitos lá e que estava sendo difícil impedir a invasão deles em nossa casa espiritualista. E passou a repetir algumas vezes a seguinte frase: “São muitos! São muitos! São...”
       Na realidade, a entidade estava quase em desespero, porque temia a entrada indevida de obsessores, também chamados “quiumbas” no meio umbandista. Eu confesso que fiquei surpreso com aquela manifestação, pois sabia que existia ótima firmeza em nosso centro. Olhei para o dirigente e houve uma espécie de comunicação mental entre nós. Nélson, então, basicamente falou à entidade o que eu estava pensando: “Irmão, não se preocupe, porque aqui só entram espíritos com a devida permissão.” No entanto, a entidade respondeu: “Mas eles são muitos! Não vamos conseguir segurar por muito tempo!” Nélson, na sequência, disse para ele se tranquilizar e passou a cantar um ponto da Linha dos Exus. Os médiuns e consulentes acompanharam o dirigente no cântico. Logo se manifestaram guardiões por alguns médiuns, enquanto o ponto cantado prosseguia. Depois de poucos minutos, Nélson finalizou a corrente vibratória dos exus. Todos que haviam incorporado já tinham subido. A própria entidade que se manifestara através de Tetê Souza também havia retornado para o Astral. Então, o dirigente perguntou aos presentes se estavam se sentindo bem. Todos sinalizaram que sim.
       A sessão prosseguiu normalmente e foram realizados os estudos programados. Quando chegou o período destinado às consultas, manifestou-se o Caboclo Pena Verde na médium Tetê Souza. Ele vinha trazendo informações bem interessantes. Colocou que aquela primeira entidade a se manifestar na sessão era de fato um trabalhador espiritual da casa. Contudo, esclareceu que ele e mais alguns que estavam de vigia na porteira, naquele dia, eram de um mesmo grupo que havia sido aceito recentemente para colaborar com o nosso terreiro. Há alguns meses atrás, eles estavam entre os seres que tentavam perturbar as nossas sessões. Porém, há pouco tempo, perceberam que nós não éramos inimigos e aceitaram trabalhar de uma forma construtiva. Assim, receberam como incumbência a proteção da entrada do centro.
      Os guias maiores da casa, sabendo que aqueles espíritos tinham ainda pouca experiência naquele ofício, deixaram entidades mais graduadas de tocaia, aguardando os acontecimentos. Já era sabido que haveria uma forte pressão negativa sobre a nossa porteira, naquele dia. Então se permitiu o susto aos espíritos iniciantes que tinham a tarefa de guardar a entrada, de modo que refletissem no que faziam antes de se juntar a nós. Essa situação era bom ensinamento para eles que, na realidade, eram ainda apenas aprendizes. Ou seja, não eram ainda considerados exus, mas sim auxiliares dessa linha de trabalhadores espirituais.
        Nunca esqueci aquela sessão. Houve um aprendizado para aqueles novos amigos espirituais, que almejavam trabalhar como guardiões, e também nós, encarnados, pudemos entender que a vida não dá grandes saltos. Habilidades e sabedoria só se adquirem com o tempo...

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