RELATO 18 - A FOFOQUEIRA E O ERÊ

Autor: Pablo de Salamanca

        A senhora N. era uma pessoa que gostava muito de falar sobre a vida dos outros. Buscava informações aqui e ali, disseminando-as sem critério. Não importavam se eram fatos verdadeiros ou pura especulação. Não eram importantes os resultados nefastos que as maledicências poderiam provocar, na vida alheia.
        A senhora N. era sogra da médium S., que ia ao terreiro que eu frequentava à época, próximo ao ano 2000. A médium S. comentara comigo que sua sogra andava mal. Havia cerca de um mês que a senhora N. não dormia direito. Além disso, vinha tendo crises de labirintite e o seu quadro geral a levava a não ter vontade de se alimentar. A senhora N., inclusive, já dizia que “sua hora estava chegando”. Acreditava que iria morrer.
        Num dia em que eu resolvera passar na casa da médium S., um pouco antes de uma sessão de mesa de Umbanda, a sogra da médium pediu-nos para ir conosco ao centro espiritualista. Então, levamos a senhora N., embora soubéssemos que não seria conveniente ela ser tratada por nenhum de nós dois, que conhecíamos bem o seu caso. Se algum guia viesse por intermédio de mim, ou da médium S., a senhora N. iria desconfiar da nossa mediunidade, caso o guia apontasse que ela devia cuidar menos da vida dos outros e mais da dela própria.
        Contudo, não tínhamos muita escolha. Era um dever de caridade. Não podíamos ignorar seu pedido de socorro, embora nós mesmos pudéssemos nos tornar alvo de suas maledicências no futuro.
        Uma vez no centro, ela foi direcionada para o setor de consulentes. Já estava “em cima da hora” e mal pudemos cumprimentar os demais médiuns. Eu e a médium S. sentamos nas nossas cadeiras da mesa de Umbanda e logo o dirigente fazia a oração de abertura dos trabalhos.
        Após o período de estudos do livro “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, chegou o momento das atividades mediúnicas. Não demorou muito e se manifestou o Erê Joãozinho, através da médium Bianca. Ele cumprimentou ao dirigente da casa e pediu permissão para chamar uma pessoa que estava entre os consulentes. A permissão foi dada e o Erê apontou para a senhora N. Ela se aproximou lentamente, até posicionar-se atrás da médium incorporada, que se mantinha sentada, conforme as regras da casa para aquele tipo de sessão. Então, o Joãozinho falou para a senhora N., que tinha uma fisionomia bastante abatida, para colocar uma mão em cada ombro de seu “aparelho”.
          Feito isso, a criança espiritual começou a falar o que se passava na vida da senhora N. Disse que ela era muito fofoqueira e que as últimas coisas que havia dito prejudicaram bastante outras pessoas. E por isso, salientou a entidade, ela havia absorvido uma carga bastante negativa.
         Naquele momento, observei o rosto da senhora N. Ela estava espantada com o que o Joãozinho falara e um tanto envergonhada. No entanto, a criança voltou a apontar alguns erros da senhora N., sempre no campo da fofoca. Parecia que o Erê estava dando uma lição nela, demonstrando como era desagradável ter sua própria vida desnudada, perante o semelhante.
         Em seguida, Joãozinho disse que iria ajudá-la, embora ela não merecesse muito. Acrescentou que não era para ela voltar a cuidar da vida dos outros, senão voltaria a adoecer. O que pudemos observar, a seguir, foi a médium se tremer toda. Algum processo bioenergético estava acontecendo. Depois o Erê desincorporou e o dirigente disse à senhora N. para sentar-se novamente em sua cadeira, lá no setor destinado aos consulentes.
         Ao final da sessão, eu e a médium S. levamos a senhora N. de volta para a sua casa. Ela se queixou a nós quanto ao tratamento que o guia da Bianca havia lhe dado. Ficamos quietos, mas percebemos que o rosto da senhora N. já estava menos abatido.
         Nos dias que seguiram, soubemos que todos os sintomas negativos da senhora N. haviam sumido. Voltara a dormir bem. Não havia tonteiras no seu dia-a-dia e se alimentava normalmente. A senhora N. é viva até hoje e já está com mais de 80 anos de idade.
        Fechando este caso, saliento que a médium Bianca não conhecia a senhora N. Isto nos permitiu concluir que havia uma ótima conexão mediúnica entre Bianca e sua entidade, o que proporcionou o acerto na consulta e o bom resultado na transformação das energias densas. Além disso, é importante destacar que, às vezes, algumas entidades da Umbanda são incisivas. E fazem isso por real necessidade, quando estão lidando com pessoas que erram sistematicamente e que não possuem qualquer autocrítica. Ou seja, nessas situações pode haver um tipo de “tratamento de choque” para promover um despertamento do consulente.

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