RELATO 15 - O RECADO DA VOVÓ

Autor: Pablo de Salamanca


        Era o final do ano de 1996. Eu havia feito três concursos públicos, todos dentro da minha área de atuação profissional. Estava bem preparado e confiava que passaria em pelo menos uma dessas provas. No entanto, o meu sonho era ser pesquisador científico e tinha esperança de ser chamado por ao menos uma das duas instituições de pesquisa governamentais, para as quais eu prestara concurso. Por outro lado, não desejava muito trabalhar num órgão público, para o qual também fizera prova, mas que não era da área científico-tecnológica.
        Com o pensamento voltado para esse assunto, dirigi-me ao centro espiritualista do qual eu fazia parte à época. Após o início dos trabalhos, minha mente já estava fixada nas atividades mediúnicas, as quais eu sempre dei grande valor. A sessão transcorria bem, como de praxe, e alcançávamos o momento destinado às comunicações diretas das entidades de Umbanda.
        Então, próximo a mim, manifestou-se uma preta velha através de uma senhora amiga. Era a Vovó Maria Conga do Cruzeiro. Não demorou muito e ela me chamou, no intuito de me passar uma informação. Ela disse: “Meu filho, você vai ter uma boa notícia. Você vai ser chamado para trabalhar. Mas, não é aquilo que você muito quer.” Ouvi em silêncio o recado, compreendendo que a vovó referia-se aos concursos públicos que eu havia feito. Como eu nada comentei, a preta-velha indagou: “Você entendeu meu filho?” Em seguida, respondi: “Sim, senhora.” E ela reforçou a orientação: “Você vai ter o seu trabalho, mas não é o que você mais deseja.”
      Na sequência, agradeci à entidade, tornando-me pensativo. Poucos minutos depois, eu chegava à conclusão de que eu seria aprovado, mas não nas instituições ligadas à investigação científica. Restava-me aguardar os acontecimentos.
        Em breve semanas, fui convocado para assumir o cargo público que ocupo até hoje, já fazendo quase 20 anos. Quanto aos outros dois concursos para área científico-tecnológica, fui aprovado em segundo e terceiro lugar, mas nunca fui chamado para trabalhar naquelas instituições, que só convocaram os primeiros colocados. Vovó Maria Conga estava certa! Ela conhecia o meu caminho futuro. E ela me prevenira, para que eu não me decepcionasse. Agradeço a ela por isso.
        Bem, mas este relato de vivência não termina aqui. Gostaria de enfatizar algo sobre a médium daquela preta-velha, que, por questão de respeito a sua identidade, vou chamar apenas de senhora M. Hoje, esta médium é idosa e se encontra adoecida. Pude estar com ela por vários anos no citado centro espiritualista, até que me afastei daquele terreiro. Por laços de amizade, às vezes a visito ou converso por telefone. Assim, conheço pormenores da caminhada da senhora M., sentindo que devo colocar neste relato um resumo de seus percalços na vida, pois podem ser úteis a outros médiuns. A senhora M., como já brevemente demonstrado, possuía uma mediunidade de grande qualidade. Contudo, ela se deixou levar por problemas de ordem pessoal e familiar, tornando-se uma pessoa um tanto amarga. Às vezes, por motivos de certa forma fúteis, se rebelava contra a Espiritualidade, deixando de exercer suas funções no centro, por semanas e até meses. Ela sempre foi pessoa com rigidez excessiva de caráter, se aborrecendo por questões menos importantes. Nesse contexto, ela deixou de ser útil por inúmeras vezes.
        Há poucos dias estive pessoalmente com ela, e a própria me confessou que tem se esforçado para ajudar nas sessões de seu terreiro. Contudo, é evidente que seu corpo físico não suporta mais muitas atividades tipicamente umbandistas. Notei que, hoje, ela tem mais boa vontade em trabalhar com a sua mediunidade. Porém, é nítido que o seu tempo já passou. Ela desperdiçou boa parte de sua vida, alimentando discórdias. As maiores oportunidades já foram perdidas. Por isso, deixo este relato aos irmãos médiuns, de maneira que possam aproveitar suas chances para bem cumprir suas missões, enquanto possuem força e saúde. Deixemos de lado as dificuldades e limitações humanas, buscando exercitar e reforçar as melhores qualidades da alma.

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