RELATO 12 - A MULHER CIUMENTA E O EXU

Autor: Pablo de Salamanca

        Em 1994, ainda no início do meu desenvolvimento mediúnico, eu rapidamente fui colocado para trabalhar com Exu. Naquele terreiro, cujo corpo mediúnico era formado em sua maioria por senhoras com mais de 60 anos de idade, acabei me tornando uma “peça” razoavelmente relevante, pois os casos mais difíceis de descarrego eram passados para mim. Naquela situação, eu tinha como aspecto positivo a juventude e o vigor físico, me recuperando rapidamente dos desgastes bioenergéticos. Além disso, com os meus apenas 26 anos, havia uma certa inocência de minha parte, o que me permitia ignorar a habilidade e negatividade dos obsessores, também denominados “eguns” ou “quiumbas” por algumas pessoas. Isso causou-me alguns percalços posteriores, o que poderei contar em outros relatos.

        Além dos descarregos que realizava, também confiaram na minha mediunidade para dar consultas, embora eu ainda fosse inexperiente. Por isso, colocaram um cambono antigo da casa, o Mário, para me auxiliar durante os trabalhos e fazer as devidas anotações aos consulentes.

        Numa determinada noite, surgiu a primeira consulente de minha missão mediúnica. Ela conversou com o Sr. Sete Encruzilhadas, um Exu com o qual eu atuaria intensivamente por um pouco mais de 10 anos de minha jornada. Hoje trabalho com outro Exu, mas o Sr. Sete ainda aparece de vez em quando nas giras atuais. Voltando a primeira consulta em si, o cambono Mário, ao final da sessão, passou-me alguns detalhes interessantes sobre o diálogo do meu Guardião com a consulente. Disse-me que a mulher era muito ciumenta e que desconfiava de muitas atitudes de seu marido. Ela queria saber “a verdade”, isto é, se o marido dela estava fazendo alguma traição. Mário comentou que o Sr. Sete tinha boa “psicologia”, tentando mostrar à consulente que boa parte das suas aflições só existia dentro da mente dela. No entanto, o cambono assinalou que a mulher era muito insistente com a sua paranoia de traição, a tal ponto que o Exu foi mais incisivo e falou: “Se você continuar com esse ciúme, sua casa vai ficar toda quebrada”.  Em seguida, Mário salientou que a consulente calou-se e, após instantes de silêncio, e com os olhos arregalados, disse: “É verdade! O senhor tem razão! Ontem, mesmo, eu atirei um prato no meu marido".

        Na sequência, o cambono comentou que se afastou um pouco mais, tentando dar maior privacidade à conversa do meu Guardião com a senhora ciumenta. E em resumo, arrematou dizendo que a mulher pareceu aceitar melhor as orientações do Sr. Sete Encruzilhadas, após este ter revelado que a sua casa ficaria "toda quebrada".

        Nas sessões seguintes em que haveria consulta com os exus, aquela ainda jovem senhora sempre retornava para conversar com o Sr. Sete. Segundo o Mário,  o teor geral das preocupações dela ficavam no entorno do marido, com o qual ela tinha um filho pequeno. Ela era teimosa em suas dúvidas, mas, com o tempo, foi ficando mais sossegada.

        Enquanto eu estive naquele terreiro, por pouco mais de um ano, recordo de visualizar aquela mulher sentada com frequência no setor destinado aos consulentes. Hoje me pergunto que rumo sua vida deve ter tomado. E faço uma reflexão sobre o trabalho quase “invisível” que os exus e pombo giras realizam, durante suas consultas particulares. Quantas pessoas os verdadeiros guardiões de Umbanda ajudam em assuntos íntimos, atuando não raras vezes como conselheiros ou "psicólogos"? É isso mesmo! Os exus frequentemente são como psicólogos, orientando sobre problemas familiares de seus consulentes, quiçá, até mesmo, evitando grandes confusões ou tragédias. Ao contrário do que se pensa e se fala sobre os guardiões, eles são entidades com o equilíbrio e a firmeza necessários para ajudar em situações melindrosas. Contudo, para abordar esse tipo de situação, é fundamental a presença do verdadeiro exu, com as devidas autorizações superiores de trabalho, mas também o médium deve ter um equilíbrio necessário para as tarefas mais delicadas. Não é nada fácil ser um razoável médium para os guardiões da Umbanda. Até hoje me julgo ainda em treinamento, buscando me aperfeiçoar constantemente, pois em qualquer manifestação mediúnica, o resultado do trabalho é um somatório dos esforços da entidade e do médium. E num trabalho com a corrente vibratória dos exus, em especial, os casos que surgem geralmente são urgentes e complicados. Então, a dedicação é fundamental...

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