RELATO 10 - IANSÃ E A FORÇA DOS VENTOS

Autor: Pablo de Salamanca

            A Umbanda é uma religião com grande diversidade, e na minha caminhada neste meio, tive experiências e aprendizados de vários tipos. Participei de um terreiro que basicamente só usava velas e copos d'água nas sessões, enquanto que em um outro haviam oferendas ritualísticas mais tradicionais. Também atuei na chamada “mesa de Umbanda”, onde ocorriam estudos de base espírita (Allan Kardec), associados a trabalhos desobsessivos com entidades da corrente umbandista.

            Numa de minhas fases de aprendizado, num determinado centro, comemorava-se a data referente à Santa Bárbara. Ali realizavam-se oferendas aos orixás e Iansã seria homenageada. A ideia era colocar o alimento preparado no quintal do terreiro, diretamente no tempo, mas dentro dos limites da casa espiritualista, que era toda cercada por muros. O calor de dezembro era intenso, como quase sempre o é aqui no Rio de Janeiro. Era um dia bem abafado, no horário da tarde, com o sol ainda alto no céu. Não corria nem a mais branda brisa, para aliviar o nosso pequeno grupo de sete ou oito médiuns, presentes àquele ritual de firmeza da casa.

            Já do lado de fora, o dirigente do centro passou-me a travessa de louça com a oferenda. Alguém puxou um ponto cantado de Iansã e eu aproximei-me do local preparado, para colocar o alimento. No entanto, no último momento, tive a intuição de erguer a oferenda para o céu, antes de pousá-la no gramado. Fiz isso, esticando os braços sobre a minha cabeça, oferecendo à "Senhora das Tempestades" e pedindo mentalmente ajuda para todos do terreiro. Instantaneamente, assim que meus braços se esticaram ao máximo, surgiu uma rajada de vento muito forte. O grande portão de ferro da casa sacudiu com violência e três médiuns mulheres receberam entidades da corrente de Iansã. Mantive-me com os braços esticados no alto, enquanto meu corpo todo se tremia, pois eu recebia uma descarga vibratória muito intensa. Uma ventania varria o quintal, levantando poeira, enquanto o portão continuava se sacudindo com estrondo. As janelas abriam e fechavam com força.

            Deitei a oferenda no nível do solo e o vento começou a abrandar. Após o término da manifestação das entidades pelas médiuns, a ventania acabou. Todo esse movimento ocorreu por cerca de cinco minutos e logo o abafamento voltou a predominar, como se nada tivesse acontecido.

            Depois do fechamento da sessão, nós e o dirigente comentamos a conexão entre a nossa atividade e a ocorrência da súbita ventania, justamente no momento da entrega da oferenda. Além disso, houve uma correspondência exata do erguimento do alimento com a chegada das entidades. Pareceu-nos que elas teriam trazido toda aquela movimentação inesperada e repentina da atmosfera. Teria sido mera coincidência? Na realidade, isso não nos importava muito. Para nós, ali houve uma típica manifestação do “Orixá das Ventanias e Tempestades”. E os pedidos realizados, naquele dia, à “Santa Guerreira”, foram todos concretizados. Salve Santa Bárbara! Salve Iansã! Eparrei Oyá!



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