ARTIGO 2 - UMBANDA E ESPIRITUALISMO UNIVERSALISTA

Autor: Pablo de Salamanca

Escrito em 28 de setembro de 2011.


INTRODUÇÃO


A Umbanda é uma religião brasileira, que reflete o próprio país em suas origens e quanto à formação de uma identidade nacional. Há elementos facilmente perceptíveis, na Umbanda, da cultura religiosa dos povos que constituem o Brasil, estendendo-se desde os indígenas que aqui habitavam antes da chegada de Cabral, passando pelos europeus colonizadores, e chegando aos africanos, que para cá vieram originalmente como escravos. Assim, tanto nos primórdios do Estado brasileiro, como na formação da cultura nacional e também no surgimento da Umbanda, a diversidade é a base. E esta diversidade, em todos os sentidos, é propícia à constituição de uma mentalidade mais universalista, embora seja patente a natural resistência humana às mudanças de paradigmas. Hoje, no cenário nacional, sem dúvida a Umbanda é uma força significativa que impulsiona o movimento espiritualista universalista. Desta forma, neste artigo, falaremos um pouco sobre a Corrente Astral da Umbanda e sua conexão com o Espiritualismo Universalista.


PILARES DA UMBANDA


Entendemos ser importante mencionar, neste momento, o que compreendemos como pilares de sustentação da Umbanda, enquanto religião atuante. É claro que considerando somente os três aspectos que iremos apontar, não deixa de haver, em certo nível, uma redução do que é a Umbanda. Mas, ainda assim os assinalaremos, pois são pilares bastante relevantes para o bom funcionamento das sessões umbandistas. Inicialmente, destacamos as entidades espirituais que formam a egrégora da Umbanda, ou seja, os chamados guias e trabalhadores auxiliares. Todos esses espíritos, obviamente, são parte fundamental da Corrente Astral da Umbanda, que se manifesta, no plano terreno, através de seus médiuns. Estes, os médiuns, por extensão natural, também compõem a egrégora umbandista. Portanto, se tem como parte fundamental do primeiro pilar dessa religião brasileira as entidades espirituais, que apresentam-se nas sessões de forma bastante diversificada. Por exemplo, podemos citar as manifestações no estilo de “preto-velho”, refletindo a sabedoria que os escravos adquiriram, após encarnações difíceis de trabalho e burilamento em terras brasileiras. Também podemos destacar as manifestações mediúnicas no estilo “caboclo”, onde o guia/mentor apresenta-se como índio, trazendo suas orientações e experiências particulares, associando-as, frequentemente, ao uso de ervas com fins específicos. Portanto, considerando os “pretos-velhos”, “caboclos” e outras formas típicas de manifestação na Umbanda, nota-se que esta diversidade de entidades comunicantes é universalista em si, consistindo num segundo pilar desta nossa legítima religião. A partir desse entendimento, chegamos ao que consideramos um terceiro pilar umbandista, que é a identificação de boa parcela da população espiritualista com um ou mais estilos de manifestação das entidades. Ou seja, esta identificação é um pilar de caráter psicológico, já que os adeptos e simpatizantes da Umbanda, acabam por se verem refletidos, de certa maneira, nas entidades comunicantes.

Portanto, tendo-se em mente estes três pilares que ajudam a sustentar os cultos umbandistas, nas suas diversas variantes, podemos afirmar que a Umbanda é uma religião de integração, pois abarca uma série de culturas e matizes de espiritualidade. Em outras palavras, a Umbanda essencialmente é universalista. Mas, como este artigo pode comprovar o universalismo desta religião, aos que nunca puderam frequentar/conhecer sessões umbandistas? Bem, isto não é tarefa trivial, mas compreendemos que os chamados “pontos cantados” podem trazer mais evidências de que a Umbanda é primordialmente universalista.


OS PONTOS CANTADOS


Os “pontos cantados” são cânticos entoados nas sessões umbandistas com algumas funções, dentre as quais assinalamos a melhoria de concentração dos médiuns nos trabalhos, a facilitação do transe mediúnico e a invocação de determinada corrente espiritual. As letras dos “pontos cantados” podem revelar a diversidade/universalismo que pertence à Umbanda. É isto que vamos examinar agora, através de alguns exemplos.


1o PONTO

Caboclo da mata trabalha

Com São Cipriano e Jacó.

Caboclo da mata trabalha

Com São Cipriano e Jacó.

Trabalha com a chuva e o vento.

Trabalha com a lua e o sol.


Comentário – Este cântico integra o indígena (“caboclo da mata”) a uma referência do Catolicismo (“São Cipriano”), bem como a uma figura do Judaísmo, “Jacó”, que foi o terceiro patriarca da Bíblia. É destacável, também, que há indicações diretas do uso de elementos da natureza, como a chuva e o vento, o que revela uma conexão ao Xamanismo.


2o PONTO

No mar, ele é remador.

Na mata, ele é caçador.

No mar, ele é remador.

Na mata, ele é caçador.

Quem ele é?

Quem ele é?

Ele é Ubirajara de Jesus de Nazaré.


Comentário – Neste ponto cantado, encontra-se uma clara menção de vínculo de uma entidade indígena (Ubirajara) a Jesus de Nazaré, figura central do Cristianismo, que abarca as modalidades de Catolicismo e as diversas correntes protestantes.


3o PONTO

Eu vi um clarão na mata.

Eu pensava que era dia.

Eu vi um clarão na mata.

Eu pensava que era dia.

Ô eram as Almas!

Ô eram as Almas!

Ô eram as Almas do Rosário de Maria.


Comentário – Neste cântico há três referências distintas. Quando se fala em “mata”, obviamente é possível assinalar o campo vibratório do elemento indígena. Quando se aponta “as Almas”, nos cultos umbandistas, está se referindo à chamada “Linha das Almas”, que é constituída principalmente pelos “pretos-velhos” (a cultura/elemento africano). Já o termo “Almas do Rosário de Maria” é uma menção ao fato dos escravos, na época do Brasil Colonial, terem assimilado o Catolicismo vigente.


4o PONTO

A balança do céu

Tem um peso fiel.

Quem pesa esta balança

É Deus e Miguel.


Comentário – Este ponto cantado mostra que a Umbanda tem, como referências importantes, o Judaísmo e o Cristianismo como um todo, pois cita a figura de Miguel, o arcanjo. O “mundo angélico”, com todas as suas hierarquias e poderes, está fundamentado no Judaísmo, que emprestou esta visão às diversas correntes cristãs e também ao Islamismo (no Alcorão, o anjo Gabriel é figura proeminente).


5o PONTO

Noé! Noé! Noé, a barca vem!

Noé! Noé! Noé, a barca vem!

Carregada de caboclos,

Oxóssi e mais ninguém.


Comentário – Este cântico mostra, mais uma vez, que a Umbanda busca elementos no Judaísmo, que constam na Bíblia (neste caso a história de Noé e sua embarcação). Este ponto cantado insere a figura dos caboclos (corrente espiritual formada basicamente por indígenas), que são alocados na dimensão vibratória de Oxóssi, orixá africano que simboliza o caçador, o senhor da floresta e a fartura.


6o PONTO

Estrela que ilumina o firmamento,

Clareia o mundo porque é ordem de Zambi.

Estrela vai buscar seu Pena Verde na Aruanda,

Dizendo a ele que aqui é a sua banda.


Comentário – Neste cântico assinala-se Zambi, que é o Deus supremo nos candomblés de Nação Angola. Constata-se outro elemento africano, a palavra “Aruanda”, que, dentre os significados atribuídos, pode-se destacar como o “céu” ou como o “Mundo Espiritual” dos orixás e entidades associadas. O ponto cantado ainda agrega um elemento indígena, o caboclo “Pena Verde”, integrando aspectos diferenciados da Espiritualidade.


7o PONTO

Bate forte o tambor!

Nagô! Nagô!

Viva Deus e Nossa Senhora!

Nagô! Nagô!


Comentário – Neste ponto cantado há uma referência direta ao grupo Nagô, que eram os negros escravizados que falavam o Iorubá. Além do elemento africano, menciona-se Nossa Senhora (Catolicismo), demonstrando-se a fusão de culturas na Umbanda.


8o PONTO

Dei uma volta ao mundo,

Outra no mundo de Deus.

Dei uma volta ao mundo,

Outra no mundo de Deus.

Que hora tão sublime,

Que o indiano desceu.


Comentário – Este cântico mostra que a Umbanda, na questão de sua diversidade/universalismo, vai além dos três grandes grupos formadores da cultura brasileira (europeus, africanos e indígenas), pois, aqui, claramente se tem uma louvação ao chamado “Povo do Oriente”, na figura do indiano que, em certos centros umbandistas, “incorpora” em determinados médiuns.


9o PONTO

O Oriente é uma terra quente,

Aonde nasce o sol.

O Oriente é uma terra quente,

Aonde nasce o sol.

É do Oriente!

É no romper da Aurora!

É na mesa de Umbanda,

Que vovó Catarina chora.


Comentário – Neste ponto cantado, integra-se a dimensão espiritual do Oriente com a corrente vibratória dos “pretos-velhos”, através da entidade “Vovó Catarina”. E quando se fala da “mesa de Umbanda”, é porque alude-se à forma de trabalho “kardecista” (Espiritismo), cujas atividades comumente ocorrem com os médiuns sentados a uma mesa. Na Umbanda típica, os trabalhos se dão num amplo espaço denominado “terreiro”, onde os médiuns atuam de pé. Porém, há centros umbandistas que também têm atividades semelhantes ao Espiritismo, trabalhando-se à mesa, e dando oportunidade ao desenvolvimento de estudos do Evangelho e sobre mediunidade no geral.


PALAVRAS FINAIS


Com tudo o que foi apresentado, não é difícil concluir que a Umbanda é um efetivo exemplo de integração entre religiões/visões da Espiritualidade. No entanto, isto não significa que todos os umbandistas são, de fato, universalistas, pois em qualquer religião há indivíduos exclusivistas/sectaristas. No entanto, pelo que foi exposto, evidencia-se que a Umbanda é um terreno fértil para o bom exercício do Espiritualismo Universalista.


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