RELATO 29 - APRENDIZAGEM ASSISTENCIAL

Autor: Júlio Cesar de Oliveira

02 de março de 2013

Estava sonhando... Olhava alguma coisa como uma grande borboleta debatendo-se no chão, como que ferida. Estava sentado e estiquei o braço para tocá-la. Ao esticar o braço, estiquei também o corpo inteiro no movimento em direção à borboleta. Nesse momento percebi que estava na verdade deitado em minha cama esticando-me inconscientemente para fora do corpo. Fiquei, então, instantaneamente lúcido e continuei meu movimento, agora na direção da parede. Assim que a atravessei, fui parar num lugar campestre, mato, colinas, sem habitações aparentes. Estava pairando a baixa altura e meus movimentos estavam meio lentos e difíceis. Pude perceber também que a "definição de imagem" de minhas percepções não estava 100%. Mesmo assim estiquei a para-mão direita até a nuca para sentir o cordão de prata. Lá estava ele: a sensação ao toque era de um feixe de finíssimos fios que saíam de diversos pontos em torno à nuca e se uniam num único filamento estendendo-se lá pro rumo de onde eu vinha. Satisfeito, olhei para mim mesmo para ver como estava meu corpo astral e pude constatar que estava vestido com a mesma roupa com que tinha ido me deitar. Lá estavam minhas pernas compridas, meus braços compridos, meu corpo magrelo e comprido, e meu tradicional mal gosto para roupas, como se fosse o meu corpo físico mesmo, só que agora solto no ar, pairando, livre naquele lugar desconhecido, que, agora eu estava realmente convencido, era algum lugar do plano astral. Não pude deixar de dar um pequeno grito de satisfação: yuhuuuu! Mas logo me policiei para não perder o controle das emoções, caindo em onirismos ou voltando prematuramente pro físico etc. Então pensei: ok, ok, estou projetado, e agora, o que faço? Pensei em fazer alguma coisa útil, sei lá! Prestei mais atenção para ver se sentia a presença de algum amparador ou qualquer outra alma viva (ops!), mas nada. Então, não sei porque cargas d'água, resolvi estender para o lado minha mão direita pensando: se tiver alguém aí, vai pegar a minha mão. Não sei se foi uma boa ideia e, no fundo, eu não estava acreditando muito que fosse funcionar, mas, para minha surpresa, funcionou. Senti que alguém tocava a minha mão e em seguida a segurava maciamente. O toque parecia o de uma mão perfeitamente normal. Perguntei quem estava ali e tive a impressão de ouvir um zumbido ou sussurro indistinguível. Concentrei-me mais um pouco para ouvir melhor e, de repente, pude ver uma mulher de uns 35 anos aparentes segurando minha mão. Era clara, cabelos castanho-escuros presos em rabo-de-cavalo, aparência geral bastante normal, roupa normal, com exceção do decote do vestido que parecia rasgado, deixando exposto um de seus seios. Curioso é que este último detalhe, que em outra circunstância provavelmente me excitaria ou mesmo constrangeria, naquele momento não me suscitou nenhum pensamento ligado a desejo sexual, apenas achei estranho. A partir daí estabeleceu-se entre nós uma comunicação que não me lembro bem se era telepática, verbalizada ou sei lá o que. Só me lembro que "fiquei sabendo" que ela era desencarnada, seu nome era Juventina, tinha uma irmã encarnada chamada Quitéria e, quando "viva," tinha morado num lugar chamado Leonardo Potenquim (!) (não me lembro se era nome de rua ou cidade). A irmã dela ainda morava lá. Ela disse mais algumas coisas de que não me recordo e, a uma certa altura, já convencido, não sei bem porque, que se tratava de um "espírito desorientado precisando de esclarecimento", comecei a deitar-lhe uma “falaçãozinha” básica sobre condições normais de recém desencarnados, necessidade de reforma íntima, desapego emocional, colônias espirituais, resgate etc, etc e etc. Falei, falei e falei, a fala me saindo fácil e, para minha própria surpresa, bem mais "espírita-doutrinária" do que é do meu feitio. A mulher parecia me ouvir com algum interesse. E lá pelas tantas achei que já era o suficiente e me despedi dizendo que ia voltar pro corpo físico, para garantir a rememoração daquela experiência. E assim fiz. Deixando a freguesa, não sei se mais ou menos desorientada do que antes, me concentrei em voltar pro corpo e, no segundo seguinte, lá estava eu deitado em minha cama. Procurei não mover ainda o corpo físico para não comprometer a rememoração e pus-me a pensar sobre a experiência ainda perfeitamente nítida em minha mente. Pouco a pouco fui repassando tudo mentalmente, de trás pra frente e de frente pra trás. Até que de repente percebi uma coisa: eu tinha falado, falado e falado e depois tinha largado a figura lá do mesmo jeito. Ocorreu-me que talvez eu deveria pelo menos tê-la convidado para fazermos juntos uma oração ou coisa parecida, já que, penso eu, conceito sozinho não muda padrão vibratório de ninguém, ou pelo menos não é o melhor facilitador de um resgate. Nessas horas o que manda mesmo é o sentimento, a consciência franca e verdadeiramente focada num sincero, profundo e absorvente desejo de Bem e de Amor, sem pieguismo mas com todo o coração. E então, ali mesmo, deitado, quietinho como estava, pus-me a fazer pelo bem daquela pessoa uma oração sincera, concentrada e espontânea. Enquanto eu orava pude perceber, mais sentindo do que vendo, que meu campo áurico começou a inflar e preencher intensamente todo o quarto. De repente o ambiente se transformou e eu estava agora num outro lugar. Estava ao lado de uma porta vendo um grupo de umas cinco ou seis pessoas se afastando de onde eu estava. Sem que ninguém, aparentemente, tivesse me dito nada, soube, instantaneamente, que aquelas pessoas estavam saindo em tarefa de socorro a espíritos necessitados do astral. Soube, também, da mesma estranha maneira, que eu já conhecia aqueles socorristas e que um deles, inclusive, se chama Rodrigo. Fiquei ali pensando como é que eu podia saber daquilo, quando, de repente, um outro grupo de socorristas (ou seria o mesmo?) começa a chegar rapidamente, trazendo com eles, não me lembro de que forma, algumas pessoas de aparência horrível e profundamente enfraquecidas. Instintivamente desloquei-me para dentro do prédio juntamente com o grupo socorrista. Todos eles agiam com segurança e dinamismo, como quem está mesmo acostumado a lidar com uma situação que exige cuidado, presteza e concentração. Lá dentro, numa espécie de pequeno galpão, foram sendo colocadas com muito cuidado aquelas pessoas. O ambiente estava iluminado pelo que parecia uma luz artificial amarelada. Todos agiam com muita rapidez e precisão, parecendo saber exatamente o que tinham que fazer. Eu é que, perplexo diante daquele clima de urgência e da aparência chocante daquelas pessoas, não fazia a menor ideia de como deveria agir. Enquanto novos resgatados não paravam de chegar, à minha frente, rente à parede, um dos socorristas tentava acomodar um dos socorridos para, aparentemente, tirar-lhe aquelas roupas imundas e em frangalhos. De repente ele interrompeu o que estava fazendo, como se tivesse sido subitamente chamado a alguma providência ainda mais urgente, virou-se para mim e disse para eu segurar as pontas por ali (não me lembro que expressão exatamente ele usou, mas a ideia era essa: ajude!), e retirou-se rapidamente. E eu fiquei ali, em pé, em completa e desconcertante lucidez diante daquela figura absolutamente deplorável. Deitado no chão aos meus pés, gemendo e contorcendo-se lentamente, aquele espírito parecia-me a imagem da mais profunda miséria a que um ser humano pode chegar. Vestia-se com uma espécie de túnica escura com capuz, em farrapos. Seu corpo inteiro, da cabeça aos pés, estava completamente empapado por uma espécie de lodo marrom escuro, que era uma mistura de lama, fezes e outras imundícies, como se ele tivesse acabado de ser tirado de um esgoto putrefato. Não quero gerar sintonias inconvenientes me alongando na descrição daquele quadro dantesco, apenas o suficiente para que o leitor compreenda realmente a situação em que me vi envolvido. Eu estava completamente lúcido fora do meu corpo físico, num provável posto de socorro do astral, e, diante de mim, um espírito de aparência asquerosa absolutamente necessitado de ajuda. E agora? Alguma coisa em mim, tomada de uma mistura de profunda pena e nojo, se negava a admitir a ideia de que, para ajudar, eu teria que tocar aquela... pessoa. Olhei em torno, como a pedir socorro também. À minha volta, outros espíritos socorridos vomitavam uma substância escura e se contorciam longamente. Todos os socorristas estavam ocupados, efetivamente socorrendo os que precisavam. Ninguém parecia reparar em minha perplexidade. Por um instante passou pela minha mente a lembrança do livro "Nosso Lar", quando André Luiz tem que vencer a impressão psicológica de repugnância, para poder dar vazão à sintonia de compaixão, que lhe permitiria efetivamente auxiliar os pobres espíritos recolhidos à câmara de retificação. Foi então que, de repente, não sei dizer como, nem de onde, me veio uma súbita e estranha força e serenidade que se apossou de mim e me fez simplesmente não pensar na repugnância. De repente eu estava ali olhando aquela figura e o que eu via era simplesmente um ser humano, como eu, precisando muito de ajuda. E eu podia auxiliá-lo, começando, por exemplo, por ajudá-lo a tirar aquilo que era simplesmente uma... roupa suja! E assim fiz, pensando menos e agindo mais. Ajudei o primeiro, o segundo, o terceiro... e fui amontoando aqueles farrapos de pano sujo num canto do aposento. De repente notei, sentado tranquilamente num banco encostado à parede atrás de mim, um garoto. Aparentava uns sete anos de idade e estava sorrindo pra mim. Tive a impressão de que ninguém mais o estava vendo, só eu. Ele parecia se destacar do ambiente de uma forma curiosa. Talvez fosse aquela luzinha clarinha que circundava, como uma aura, o contorno de seu corpo. Ainda sorrindo ele me disse, telepaticamente, alguma coisa, a título de incentivo, sobre o que eu estava fazendo e disse também algo sobre guardar alguma coisa em algum lugar, mas não me lembro nem o que nem onde. Também não me recordo o que aconteceu em seguida e nem por quanto tempo fiquei ali aprendendo a ajudar aqueles que ali ajudavam. E aprendendo o quanto ainda tenho que superar meus condicionamentos para poder ir além dos conceitos, do conhecimento intelectual e da retórica, para poder ir despertando pouco a pouco em mim a pura chama consciencial do sentimento chamado Compaixão, único capaz de me fazer ver, verdadeiramente, no outro, a mesma essência que há em mim. É assim que vou compreendendo que, por mais alta, bela e livre que seja a forma em que se manifeste a essência espiritual da vida, ainda há de haver uma altura mais alta, uma beleza mais bela e uma liberdade ainda mais livre para conquistar; e por mais profundo, escuro e denso que seja o abismo de ignorância e dor em que se debata uma alma, ali também estará a maravilha das maravilhas em movimento de autoaprimoramento, a essência da divindade potencial a caminho de sua infinita realização. Depois disso, só me lembro do momento em que, já saindo daquele posto de socorro juntamente com outras pessoas, percebi uma querida espiritualista amiga minha, encarnada, saindo conosco e compreendi que ela também estivera participando do trabalho. Ficamos felizes em nos reconhecer ali e sorrimos juntos, sabendo que estávamos voltando para o corpo com aquela sensação gostosa de missão cumprida. Um abraço a todos!


COMENTÁRIOS EXPLICATIVOS

Belíssimo relato projetivo de Júlio! E a sua rica experiência, que foi descrita com pormenores e com ótimas observações do autor, ainda nos permite comentar aspectos interessantes.

A princípio, destaco que há a possibilidade de a borboleta ter sido uma plasmagem realizada por algum amparador, de forma a chamar a atenção do projetor, e induzir a sua saída do corpo. Ou seja, além da hipótese da borboleta consistir num mero onirismo (sonho) de Júlio, ela também pode ter sido uma forma plasmada por um mentor, no ambiente astral imediato ao Plano Físico. Saliento que as chamadas “plasmagens” são comuns no Mundo Extrafísico, sendo elas feitas com a “matéria astral”, a partir da força mental de consciências desencarnadas ou encarnadas.

Assinalo também o trecho sobre a mulher desencarnada. A ideia do projetor de estender a mão, de modo que, se alguém estivesse ali, pudesse segurar nela, pode muito bem ter sido uma intuição de Júlio, a partir de comunicação telepática enviada por um amparador, para que houvesse a assistência à entidade feminina.

Quanto à fala de conteúdo assistencial, que fluía facilmente segundo o projetor, é outro indício de que sua saída para além da matéria estava sendo amparada por um mentor espiritual, invisível naquele momento.

Após o primeiro retorno ao corpo, o viajante astral resolveu orar em favor da entidade feminina com quem conversara anteriormente. Isto o fez elevar suas próprias vibrações, que, assim, promoveu a conexão com a outra atividade de auxílio no Mundo Extrafísico. No Astral, sintonia é tudo!

Muito interessante o dilema de Júlio sobre o que fazer com o desencarnado que estava imundo. Nas viagens astrais somos realmente confrontados quanto ao idealismo que temos, em relação à capacidade de colocar em prática os ideais que alimentamos. E o projetor venceu a si próprio (superou a repugnância que sentia), mesmo que tenha recebido uma ajuda extra por parte de algum guia espiritual, não visível naquele instante.

Outro fato destacável, foi a presença da entidade que se manifestava como um menino, com aparentemente cerca de sete anos de idade. Este tipo de apresentação de uma consciência, lembra a Corrente Astral de Umbanda, que é denominada de “Ibejis” ou “Ibejada”. Nesta linha vibratória, seres espirituais mostram-se como crianças, usando o simbolismo da pureza e da alegria. Teria sido esta entidade que estimulou o Júlio a superar a sua repugnância à sujeira, que caracterizava os desencarnados em desequilíbrio? Isto é algo difícil de responder...

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