RELATO 28 - PROJEÇÃO EM CENTRO ESPÍRITA E ASSISTÊNCIA EM HOSPITAL

Autor: Júlio Cesar de Oliveira

18 de fevereiro de 2013

Eu tinha ido visitar minha família em Curvelo-MG, minha cidade natal. Como sempre faço quando vou àquela cidade com tempo suficiente, resolvi aproveitar a oportunidade para rever os bons amigos que tenho em um centro kardecista, próximo à residência de minha família. A casa espírita instalara-se há pouco naquela nova sede, mas o ambiente já respirava a confortante atmosfera que caracteriza os trabalhos simples e harmoniosos no campo da espiritualidade. Após o agradável reencontro na reunião doutrinária daquela noite, retirei-me para casa. Por volta das 23 horas, já estava na cama. Adormeci serenamente, ainda subjetivamente envolvido na atmosfera psíquica da reunião de que participara. Não saberia precisar quanto tempo depois, recobrei a consciência, já em corpo astral, ao entrar na antiga sede da casa espírita em que estivera há poucas horas. Somente depois de retornar ao corpo, encerradas as atividades que se seguiriam, foi que me pus a refletir porque motivo eu tinha ido parar na antiga sede e não na atual. O salão estava lotado. Um grande número de pessoas sentadas na audiência e um pequeno grupo de pé à frente do salão, ladeando à direita, e à esquerda o discreto púlpito onde um homem, que parecia estar na direção dos trabalhos, pôs-se a fazer uma palestra cujo conteúdo já não consigo me lembrar. Lembro-me apenas que sabia – da forma curiosamente espontânea com que se sabe certas coisas nesse estado – sabia que aquelas pessoas reunidas na audiência eram, pelo menos em sua maioria, recém-desencarnados egressos de certa facção religiosa, cuja doutrina, em vida, não lhes possibilitara o esclarecimento que lhes facultaria uma melhor desenvoltura nas fases iniciais de seu “pós-morte”. E agora, depois de um ou outro percalço ou atropelo individual do lado de lá (ou de cá, no caso, rs.), ali estavam, reunidos, por “ironia do destino”, justamente numa casa espírita para a oportunidade do esclarecimento que lhes faltava. De uma maneira geral, davam a impressão, se não de adequado equilíbrio, pelo menos de alguma boa vontade e receptividade às proposições e ideias que lhes eram descortinadas naquele momento. Não sei se tinham consciência de estarem numa casa espírita – se bem que também não sei, quanto às atividades naquela antiga sede, se ainda cabia considerá-las dentro do rótulo “espírita” ou outro qualquer, já que as atividades de assistência no extrafísico independem, em essência, dessas distinções. Mas isso pouco importa. O que importa é que a partir dali aquelas pessoas seriam inspiradas a darem um novo rumo a sua caminhada existencial. De minha parte, à medida que tomava consciência da situação e intensificava-se a minha lucidez, confesso que fiquei sem saber o que exatamente eu deveria fazer ali. Pois lá estava eu, de pé, agora já “lucidinho da silva”, sabendo que estava fora do corpo, participando dos trabalhos extrafísicos de um centro espírita, enquanto o cara à minha direita fazia sua palestra tentando ampliar um pouco mais os horizontes daquela turma. Então resolvi que, já que ninguém me dizia o que eu deveria fazer, eu ia ficar ali mesmo, de pé, quietinho, me concentrando numa sintonia bem legal para pelo menos colaborar vibratoriamente com os trabalhos da noite. Não me recordo se perdi a consciência a partir desse momento, deixando-me envolver em onirismos, ou o que foi que aconteceu. Sei que houve um lapso de tempo e em seguida recuperei a consciência ao erguer-me em revoada (rs.) para fora do centro espírita, junto a umas três ou quatro pessoas. Voávamos pouco acima das árvores, casas e postes, deslocando-nos à velocidade aproximada de um automóvel. A sensação de leveza e liberdade era, como sempre, deliciosa, mas uma estranha disposição de responsabilidade em mim me dizia para me concentrar em nosso objetivo. Objetivo aliás que, curiosamente, eu (ou alguma coisa em mim) parecia saber qual era. Rumávamos em linha reta para o Hospital Imaculada Conceição, no bairro Timbiras. E, de fato, pouco tempo depois, pousávamos suavemente à entrada principal daquela instituição hospitalar. Eu preservava uma curiosa sensação de ambiguidade de consciência, pois, se por um lado uma parte de mim seguia encantada com cada pequeno detalhe da experiência, desde a chegada à reunião extrafísica até à deliciosa sensação de voar sobre a cidade e pousar como um super homem à porta do hospital, uma outra parte de minha consciência conservava um certo distanciamento e senso de objetividade, como se aquilo tudo fosse a coisa mais natural do mundo – e até de pouca importância. Tanto que, ao chegarmos diante da entrada principal, um rapaz ao meu lado, que viera conosco do centro espírita e que também me pareceu encarnado em projeção, esse rapaz pareceu hesitar diante da grande porta fechada, como se receasse não conseguir atravessá-la. Eu então disse pra ele que, mais que pensar que você pode atravessá-la, o truque é SABER que você pode – e... atravessá-la. Ato contínuo, dei um passo para dentro da porta fechada e a atravessei como qualquer fantasma que se preze. E ele e os outros do grupo vieram logo atrás, sem maiores dificuldades também. Atravessada a porta principal, estávamos agora num corredor onde identifiquei um grande movimento de pessoas vestidas como médicos ou enfermeiros, caminhando para lá e para cá, aparentemente apressadas e concentradas. Haviam também muitas outras pessoas de aparência doentia deitadas em macas, sentadas em bancos, encostadas nas paredes ou mesmo caminhando com dificuldade apoiadas em enfermeiros. Todos os doentes pareciam muito debilitados e angustiados. A maioria apresentava em seu corpo astral aleijões e deformidades tão chocantes que, pensando aqui agora, não sei como não retrocedi de espanto. Mas uma estranha e tranquila objetividade me acompanhava e continuamos nosso caminho pelo corredor, como se soubéssemos exatamente para onde íamos. Enquanto seguíamos pelo corredor em meio aos gemidos e às cenas dolorosas, uma imagem autônoma assomou à minha tela mental, sobrepondo-se à percepção do ambiente. Desta maneira agora eu via, ao mesmo tempo, o corredor – por onde objetivamente passávamos – e também, em minha mente – de forma nítida e independente – a imagem de uma figura cadavérica grotescamente reduzida a uma cabeça em forma escaveirada encimando um arremedo de corpo, mais semelhante a uma espécie de estreito farrapo fluídico esfumando-se na vertical e que nem de longe lembrava a estrutura antropomórfica do tronco e membros de um corpo humano. Instantaneamente eu soube quem era aquela pessoa – que eu conhecera no plano físico, anos antes de seu trágico suicídio. Não sei se pela perturbação emocional de reconhecer aquela pessoa naquelas condições extremas de sofrimento ou pelo quê, o fato é que perdi mais uma vez a consciência e só a recuperei novamente mais adiante, por alguns instantes, o suficiente para perceber-me numa sala pequena, sentado diante de alguma espécie de aparelho, uma ou duas pessoas ao meu lado e um detalhe muito estranho: de minha boca entreaberta saía uma espécie de tubo branco com a espessura aproximada de um dedo. O tubo lembrava a aparência de um cano que fosse feito de cola branca semiendurecida, se estendendo na horizontal, saindo da minha boca na direção daquele “aparelho”. Minha lucidez durou apenas alguns instantes, o suficiente para me dar conta mais ou menos da situação e cair de novo na inconsciência. Quando recuperei a lucidez, estávamos saindo daquela mesma sala, eu e mais algumas poucas pessoas, as quais eu não prestava atenção, pois, novamente, parecia estar concentrado no próximo objetivo – como se, mais uma vez, soubesse exatamente o que tínhamos a fazer. Caminhamos poucos metros pelo corredor e tomamos uma escada para o segundo andar (que, aliás, não existe no plano físico). Chegamos a uma sala onde estavam algumas pessoas sentadas no chão, formando um círculo. Todos pareciam bastante jovens e relativamente tranquilos. Alguma coisa ali me deu a impressão de serem, pelo menos alguns, convalescentes em bom estado de recuperação. Havia um lugar vago no círculo e eu sabia que deveria sentar-me ali. Assim que sentei-me, alguém trouxe um violão e eu sabia que devia tocar e cantar uma certa música* – que de repente me lembrei que conhecia há muito tempo, embora, curiosamente, apenas no plano extrafísico. Toquei e cantei aquela canção com sincero e transbordante sentimento, surpreso de como podia ter me esquecido de uma música tão bonita e tocante. Quando terminei, enquanto olhava o rosto comovido e sorridente daqueles jovens ali em volta, eu também já completamente emocionado, tive a clara sensação de que voltaria ao corpo a qualquer momento. No instante seguinte, lá estava eu, despertando no físico, com a nítida lembrança de praticamente todos os momentos lúcidos daquela experiência – menos a tal música, que sumira completamente de minha consciência. Foi quando, repassando a experiência toda, começou a cair realmente a ficha e me aconteceu ficar verdadeiramente chocado com certas cenas fortes que testemunhara e que ainda me lembrava em detalhes surpreendentes. Fiz uma oração pelo bem estar do suicida que eu reconhecera e que eu tinha a sensação que, de alguma forma, tinha sido assistido naquela noite. Agradeci aos amparadores a oportunidade daquele trabalho e voltei a adormecer, enquanto pensava na valiosa oportunidade e na responsabilidade implicada em participar de uma assistência como aquela. Experiências como essa ainda me fazem pensar que, se tanto sofrimento e oportunidade de serviço altruísta há no plano físico, que nos convida a todos à consciência e à solidariedade em relação ao nosso semelhante, ainda mais largas oportunidades e mais dramáticas necessidades de assistência encontramos no mundo extrafísico, à espera de quantos se voluntariem e se tornem, ainda que minimamente, aptos ao trabalho – pelo qual eles próprios serão, aliás, os mais profundamente beneficiados.


* Coincidência ou não, naquela mesma semana acabei por participar de algumas reuniões no plano físico, que levaram à criação de um coral na mocidade do centro espírita próximo à casa de minha família. Abraço a todos!


COMENTÁRIOS EXPLICATIVOS

Aqui temos uma experiência muito bela de Júlio e seria possível comentar vários aspectos dela. No entanto, como o projetor fez um relato claro e autoexplicativo, passo a assinalar apenas alguns pontos em que é possível complementar algo.

Inicialmente, saliento a questão da palestra que ele assistiu no Astral, mas não pôde rememorar. É comum que conteúdos mais longos, como o de uma palestra, não fiquem registrados na memória de nós projetores, devido ao atual estágio de desenvolvimento consciencial em que nos encontramos. Além disso, os nossos cérebros físicos têm suas limitações.

É relevante quando o Júlio diz “Lembro-me apenas que sabia – da forma curiosamente espontânea com que se sabe certas coisas nesse estado – sabia que aquelas pessoas reunidas na audiência eram, pelo menos em sua maioria, recém-desencarnados”. Este “saber” pode ter causas diferentes: alguma memória de uma programação de assistência previamente combinada (num dia anterior) no Astral; ou uma percepção superior que se tem durante o estado de maior liberdade, que é estar fora do corpo denso; ou ainda através de comunicação telepática enviada por um mentor.

Quanto à observação do projetor, que aponta que as atividades de assistência no Mundo Extrafísico independem de distinções religiosas, é possível concordar com ele amplamente, já que o assistencialismo fora da matéria transcende rótulos religiosos tipicamente terrenos, sobretudo da parte de seres com vibração mais sutilizada.

O chamado “lapso de tempo”, conforme o Júlio colocou, pode sim ser devido à perda momentânea de consciência/lucidez, mas também destacamos que pode ter se dado por uma falha de rememoração. Ou seja, uma parte da vivência pode não ter sido registrada pela mente consciente do projetor.

Quando o Júlio assinala que tinha uma “estranha disposição de responsabilidade”, esta sensação é indicativa da presença de um amparador, ou, por outro lado, do próprio senso de responsabilidade do projetor, ampliado pela sua liberação em relação aos laços materiais naqueles momentos.

Mais à frente, quando o Júlio narra sobre o tubo que saía de sua boca em direção a um aparelho, entendemos que esse trecho trata da doação de ectoplasma (“substância que é exalada por sensitivos para promoverem efeitos curativos ou para provocar a chamada “materialização”). O projetor provavelmente estava fornecendo ectoplasma para reparo e reequilíbrio de desencarnados em sofrimento. Geralmente a doação de ectoplasma, tanto no Astral como no Plano Físico, está associada à redução ou perda de consciência, por parte do médium.

Por fim, destacamos o esquecimento da música que o próprio projetor cantara no Mundo Extrafísico. Isto é algo comum quando temos acesso a conteúdos vibratórios sutis, que não têm bom paralelo com a nossa realidade terrena. Em outras palavras, nossa consciência física tem dificuldade de rememorar as sutilezas do espírito. Além disso, esta experiência de Júlio foi bastante longa, o que não facilitou a sua recordação por inteiro.

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