ARTIGO 12 - CONSIDERAÇÕES SOBRE A ENCARNAÇÃO, À LUZ DAS EFCs

Autor: Marco Antonio Coutinho

Divulgação autorizada, respeitando-se as condições acordadas por e-mail, em 28 de setembro de 2010.


Considerações sobre a encarnação, à luz das EFCs

Estar fora do corpo - consciente e lucidamente - pode ser muito parecido à vigília intrafísica, sob alguns aspectos. Sob alguns aspectos. E não igual, apenas parecido. Por isto, quando alguém sai do corpo e fica consciente de seu estado, a consciência em si mesma pode apresentar algumas diferenças importantes. Há várias: formas de percepção, noção de tempo-espaço, e até as consequências que a grande plasticidade do chamado corpo astral pode trazer. Mas há uma diferença bastante marcante - eu diria mesmo fundamental - entre a consciência exteriorizada e a consciência em coincidência com o corpo físico: o estado emocional.

Quando estamos conscientemente fora do corpo físico, não há como negar, nosso estado emocional muda significativamente. Mais do que isso, somos, de início, quase que inteiramente emoções. Não é por acaso que algumas escolas e tradições chamam o corpo astral de corpo das emoções ou corpo emocional. A partir daí, todo um trabalho sobre nós mesmos deve ser realizado. Apenas a repetição, a continuidade das experiências é que vai dar ao experimentador as condições de ir "domando" pouco a pouco essas emoções exacerbadas, de maneira a trabalhar ao menos com um pouco de iniciativa e autonomia, quando em estado extracorpóreo. Muitas EFCs ficam limitadas exatamente pelo papel exacerbado que as emoções exercem no processo. Em várias experiências laboratoriais que envolveram as EFCs, os resultados foram frustrados, porque a emoção interferiu ao ponto de o experimentador não conseguir colaborar com o pesquisador, embora tivesse resolvido exatamente cooperar.


As considerações de Hamilton Prado

A esse respeito, há um autor, já falecido, que escreveu um livro bastante peculiar sobre as EFCs. Trata-se de Hamilton Prado. Na verdade, ele escreveu dois livros, mas seu trabalho realmente importante é "No limiar do mistério da sobrevivência - experiências com o eu astral". Prado foi um pioneiro na pesquisa das EFCs em nosso país. Publicou seu primeiro livro em 1967, uma época em que quase não havia divulgação suficiente do assunto. Na minha opinião, ele é o nosso Sylvan Muldoon. Recomendo vivamente a leitura de No limiar..., embora seja um livro difícil de se encontrar hoje em dia. Aparentemente, após o seu falecimento, a família não permitiu novas edições. O livro conta as experiências de Prado fora do corpo, acontecidas sem que ele soubesse direito do que se tratava. O mais atraente do livro é o fato de que ele não estava muito condicionado por escolas, institutos ou sistemas de pensamento, de modo que suas primeiras conclusões trazem o sabor inigualável das novas descobertas. Daquelas que não se procura impor, mas tão somente partilhar. Há, no entanto, no texto, uma passagem em particular que é de um extremo interesse:

"(...) Esse e outros fatos me mostraram que o corpo material desempenha para o espírito o papel de um grande freio, de uma escola de autocontrole, de domínio das emoções. E nesse sentido está, também, o progresso espiritual (...)"

Nessas poucas palavras, Hamilton Prado pode estar oferecendo a seus leitores um ponto particularmente consistente de reflexão a respeito da natureza e da razão da encarnação. A esse respeito, normalmente nos colocamos em posições extremas. Por um lado, podemos considerar o corpo como um túmulo, o soma-sêma pitagoriciano. Pitágoras colocava essa questão em um contexto muito específico, de superação e aperfeiçoamento. Mas o pensamento que se seguiu a ele - expresso sobretudo nas religiões históricas - levou a ideia a um ponto em que o corpo passou a ser o inimigo primordial. Desenvolveu-se então toda uma cultura de negação da matéria, ou do corpo, o que desembocou finalmente em uma gama de traumas, doenças, desarmonia, e tudo o mais que pode vir da repressão pura e simples.

Do outro lado da moeda, está a glorificação do corpo. Um verdadeiro culto que ganhou em nossos dias uma dimensão exasperada. Nessa atitude, o caminho tornou-se mimar os próprios sentidos, trabalhar as linhas do físico de forma obsessiva, uma vida baseada principalmente nas aparências. Mas que, na verdade, é um saco sem fundo, uma impossibilidade efetiva de satisfação.

Como então ficam as emoções em cada um desses extremos? No corpo considerado como inimigo, elas são agredidas e reprimidas, de forma a acumular forças e cobrar mais tarde o seu tributo em formas variadas de sofrimento.

No corpo "mimado" de nossos dias, elas são também supervalorizadas, não no sentido de que se tenha uma maior atenção em relação às mesmas, mas no de serem deixadas soltas como crianças que tomam conta da casa, sem que sequer tenham ainda aprendido a comer sozinhas. A função do corpo físico em relação às emoções - uma função real, bem-entendido - pode então começar a ser pressentida. Mas vamos dar uma nova olhada nas palavras de Hamilton Prado:

"(...) Qualquer emoção, numa pessoa viva, para expandir-se, encontra logo, além das inaptidões do próprio corpo, a resistência do ambiente material, que é estranho à vibração emocional íntima das pessoas, e os restantes obstáculos naturais impedem estas de realizar o que a emoção as fez desejar. Para o espírito livre, porém, parece que, pela falta de um corpo, logo a emoção domina inteiramente a personalidade, e, pela maior identificação do espírito com o ambiente do plano em que se acha (falta de resistência ambiente), a sua emoção repercute neste, que reage, em efeito regressivo, sobre o espírito, provocando novamente a emoção, que se refletirá outra vez sobre o ambiente, prosseguindo a emoção, como num fenômeno de ressonância, até esgotar-se a sua força inicial (...)"


Um professor: as vezes "chato", às vezes cúmplice

Por espírito livre, o escritor quis dizer aqui não um espírito soberano, mas pura e simplesmente um espírito sem um corpo, ou que esteja momentaneamente fora do corpo. Quem quer que já tenha saído pelo menos algumas vezes de seu corpo físico - de forma consciente e lúcida - entenderá perfeitamente o que Hamilton Prado quis dizer aqui. Não é difícil considerar então a possibilidade de o corpo físico ser, acima de tudo, um aliado da consciência em evolução. Há, mesmo em meio a alguns estudiosos das EFCs, a ideia de que viver sem um corpo é necessariamente um estado superior de existência. Pode não ser... Isso vai depender muito do que fazemos com as nossas emoções - ou do que pudemos conquistar em relação a elas - quando não temos um corpo como parceiro. Começa então a parecer o corpo mais um professor, alguém com funções bem definidas, que nos ajuda a compreender determinadas realidades pela experiência. Todo professor dessa natureza tem pelo menos dois caminhos a seguir. Um deles é ele se tornar muitas vezes um chato, por ser aquele que sabe o que é melhor para nós, mas a quem ainda não compreendemos, por sermos infantis do ponto de vista emocional. No entanto, se conseguirmos uma boa relação consciência-corpo - e isso inclui a nossa percepção do que ele nos apresenta de não tão chato assim - ambos sairão enriquecidos dessa amizade, porque ambos amadurecerão e se tornarão mais sadios. E serão, afinal, mais cúmplices do que qualquer outra coisa.

Mas existe também aquele professor que se deixa corromper pelos mimos que lhe dirigem seus pupilos. Nesse caso, ele perde a sua função e torna-se um mestre decadente, independentemente do quão possa ser rijo e belo, como a sociedade de consumo nos diz que ele deveria ser.

O corpo, então, torna-se, nesse sentido, tanto aquele que pode (e muitas vezes deve) dizer não - conduzindo-nos à atitude do então, o que fazer? (um dos motores básicos da consciência) - como aquele que nos aguça a curiosidade no reino da diversidade, para que possamos exercitar em algum grau a nossa própria faculdade de estarmos conscientes.

Assim, uma das razões principais para que encarnemos pode ser exatamente a necessidade de crescermos. De perdermos a inocência, transmutando-a aos poucos, de erro em sabedoria. Afinal, se o poeta Pedro Freire tinha razão, ao caracterizar a cada um de nós como Aishá, e contar a comovente estória do personagem que precisava cair no mundo denso para tornar-se ele próprio ainda mais verdadeiramente, talvez a nossa história, enquanto entes espirituais, comece a adquirir um sentido ainda mais luminoso, a partir do momento em que ingressamos na chamada Terra da Encarnação.


Copyright © 2002 Marco Antonio Coutinho - Não pode ser reproduzido sem autorização do autor.

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