9 - OS QUATRO AMIGOS

Autor: Pablo de Salamanca


Roberto, Nélio, Biriba e Pimpão eram amigos de longa data. Desde a adolescência, se encontravam com frequência de pelo menos uma vez por semana. Tinham fortes laços de afinidade e, quase sempre, os encontros eram regados à cerveja ou outras bebidas alcoólicas. 

Eles tinham idades próximas. Roberto e Nélio haviam se formado em administração de empresas. Biriba e Pimpão estudaram menos, chegando ao chamado segundo grau. Biriba era técnico em eletrônica e Pimpão era técnico em contabilidade. No início da amizade, as conversas giravam principalmente em torno de futebol e namoradas. Com o tempo, os assuntos foram se diversificando... 

Quando todos estavam com cerca de 25 anos de idade, houve um afastamento de Biriba e Pimpão. O primeiro foi morar e trabalhar em outra cidade, enquanto que o segundo adoecera, tendo que se ausentar um tempo dos encontros em bares e restaurantes. Entretanto, alguns meses depois, os obstáculos desapareceram. Na primeira oportunidade, quando houve o reencontro, eles brindaram com cerveja, em grande estardalhaço:
- Amigos para sempre! 

Os quatro amigos tornaram a se encontrar regularmente, mas, quando atingiram algo em torno de 28 anos, aconteceu um novo afastamento, que durou alguns meses, porque a vida sempre traz surpresas ou imprevistos. Contudo, depois deste período, voltaram às reuniões de boteco. Numa delas, Roberto falou:
- Um brinde à amizade, que nada pode separar!
E todos brindaram, para, logo em seguida, Nélio dizer:
- Amigos valem até mais que irmãos de sangue!
- É verdade! (contribuiu Roberto)
Mas, Nélio retomou a palavra. Estava emocionado e queria expressar o que sentia:
- Eu tenho dois irmãos. Nunca me dei muito bem com eles. Nem parece que nascemos da mesma mãe! Quase não os vejo...
O silêncio tomou conta daquela mesa de bar. Nélio queria desabafar e todos respeitaram, dando espaço para o companheiro falar. Ele continuou:
-Eu não esqueço! Quando eu tinha 15 anos, lá naquela briga na escola, quem me socorreu foi o Biriba! Se não fosse ele, eu ia apanhar muito...
Os amigos mantiveram-se quietos, inclusive Biriba, que mantinha um olhar distante, provavelmente recordando aquela confusão na escola. Nélio prosseguiu:
-E naquele acidente com a furadeira em casa? Quem me levou no hospital?
O próprio Nélio respondeu:
- Foi você, Beto! Se não fosse você, podia perder esse dedo aqui, que está me ajudando a segurar o copo e a tomar a minha cervejinha...
Roberto retrucou:
- Pô, cara! Foi minha obrigação. Eu estava lá contigo...
Nélio ignorou o amigo e continuou:
- Não posso esquecer aquele dia em que o meu carro encrencou, lá na serra! Chovia para caramba, mas o Pimpão foi lá me socorrer. Se não fosse ele, não sei o que teria acontecido! Aliás, eu sei! Eu ia morrer, porque depois que o Pimpão me tirou de lá, meu carro quebrado ficou debaixo das pedras, naquele deslizamento...
Nélio, que estava já meio embriagado, começou a chorar. Pimpão também se emocionou, mas foi Roberto que fez uma intervenção:
- Então, vamos brindar! Aos amigos eternos!
Logo, todos ergueram os copos e continuaram a beber. Naquele dia, eles estavam ultrapassando todos os limites... Depois de um certo tempo, resolveram ir embora. Todos se aboletaram no carro de Roberto, que era o motorista da vez, embora também tivesse bebido além da conta. 

O carro ganhou a estrada e o falatório de Nélio continuava. Isso não era bom, porque o motorista a todo momento se distraía, em relação ao trânsito. Então, o acidente veio numa curva. O veículo derrapou e virou. Após o grande estrondo, restaram o silêncio e dois homens desmaiados. Por sorte, ou Providência Divina, alguém viu o fato e acionou rapidamente o resgate, que não demorou a chegar. 

Em um grande hospital, poucas horas depois, era possível ver Nélio e Roberto em camas relativamente próximas. Nélio estava mais machucado. Havia perdido mais sangue e tinha uma perna fraturada. Roberto tinha cortes no rosto e na cabeça, que estava enfaixada. Ambos estavam sedados. Nélio não estava sozinho, pois de um lado mantinha-se Pimpão, de pé, que chorava. No outro lado, muito trêmulo e agitado, estava Biriba. 

Em dado momento, Roberto adquiriu lucidez e pôs-se de pé. Passou a ver Nélio acamado e ladeado pelos dois amigos. Ficou sem entender bem o que ocorria, mas logo surgiu uma voz, a sua esquerda, que dizia:
- O carro virou e o resultado é isso aí que você está vendo!
Roberto, então, lembrou que dirigia após o encontro no bar. Entendeu que houve um acidente, mas ficou tomado, naquele instante, por um grande espanto e perguntou:
- Como isso é possível? Biriba e Pimpão estão ali! Eles morreram há seis meses atrás!
Mas, Roberto teve a sua atenção desviada por uma forte pressão sobre o seu braço esquerdo. Alguém o segurava com força. Roberto se virou e viu um homem alto, que falou:
- Eles morreram pela bebida, que você tanto gosta, mas o espírito não morre! Por isso, eles estão ali!
Roberto ficou sem reação diante daquele homem desconhecido, mas, de alguma forma, familiar. A seguir, indagou:
- E o Nélio? É ele mesmo que está naquela cama? Estou tendo um pesadelo?
Logo vieram as respostas:
- Sim, é o seu amigo, ainda vivo na matéria, mas em estado pior que o seu. Mas, veja ali!
Ao dizer isso, o homenzarrão apontou para o leito onde dormia o corpo de Roberto. Este ficou bastante tenso, acreditando que tivesse morrido, pois via seu próprio corpo naquela cama de hospital. Porém, foi tolhido por novo aperto em seu braço esquerdo e pelas palavras do desconhecido, que foram as seguintes:
- Presta atenção! Você não está morto! Seu corpo dorme depois do acidente. Estou aqui para te ajudar.
Roberto, ainda nervoso, perguntou:
- O senhor é médico?
O homem não tardou na resposta, após abrir um largo sorriso, onde se via um dente de ouro:
- Olha bem para mim, moço! Veja se minhas roupas são de médico.
Roberto, meio hipnotizado, olhou o seu interlocutor de cima a baixo. Ele tinha um chapéu preto, camisa de mangas longas num tom vinho-escuro e usava calças negras. Sobre a camisa, era possível ver um estranho colete negro, semiaberto. O homem, que calçava botas escuras com detalhes metálicos prateados, tinha pele morena e uma barba preta muito bem modelada. 

Logo o homem voltou a falar com Roberto:
- Seu espírito está fora do corpo, mas vai voltar daqui há pouco. Você vai se recuperar bem do acidente. Só preciso falar contigo algumas coisas.
O acidentado, então, aguardou mais sossegado. Queria ouvir o que o desconhecido iria dizer. Havia algo nele que lhe inspirava confiança. O homem voltou a se comunicar:
- Veja bem, a bebida não é bom caminho. Ali tem dois amigos teus que morreram. Agora, são almas perdidas. Eles vivem seguindo aquele que está na cama. Quando você vai pro boteco beber, com aquele ali, os outros dois vão beber também. Está na hora de você deixar isso, senão você vai estragar essa tua vida!
Roberto observava aos espíritos de Biriba e Pimpão, em volta de Nélio, desacordado. Agora, ele sentia uma mistura de tristeza e apreensão pelo futuro.
- Você está me entendendo? (perguntou, com firmeza redobrada, o barbado do dente de ouro)
- Sim! Sim! (manifestou-se Roberto, saindo de seu estado passivo)
O homem sorria novamente, mas voltou logo a falar:
- Eu vou te ajudar a largar a bebida! Você quer?
- Sim senhor! (rebateu Roberto)
- Vai querer ter mulher e filhos? (indagou o homem)
- Sim, não quero virar uma alma perdida! (afirmou Roberto, bem convicto) 

Na sequência, o homem de estatura elevada parecia estar satisfeito. Ainda segurando o braço esquerdo de Roberto, colocou:
- Então, você vai ter uma grande mudança na sua vida. Estarei sempre bem próximo de você, embora não estivesse longe antes. Acompanho teus passos há muito tempo...
Roberto, naquele instante, sentiu algo estranho. Não lembrava do homem do dente de ouro, mas, ao mesmo tempo, era como se já o conhecesse de algum lugar. Tinha algo de familiar nele! Com esta sensação, disparou duas perguntas:
- Quem é o senhor? Pode me dizer o seu nome?
O espírito-guardião, então, assinalou:
- Numa outra existência, na Terra, estivemos juntos. Mas, por ora, só posso lhe dizer que eu nasci na rua, me criei na rua e nela, um dia, morri. Eu conheço as encruzilhadas da vida e você chegou numa encruzilhada. E já que você aceitou o meu conselho, vou trancar o caminho da bebida que você estava trilhando, porque eu abro e fecho os caminhos! 

Tendo dito isso, a entidade deu uma longa gargalhada. Roberto, logo em seguida, abriu os olhos em seu leito de hospital, ciente de tudo o que ocorreu no Plano Astral.


Clique aqui e deixe um comentário!


LIVRO DE VISITAS



VOLTAR PARA A PÁGINA ANTERIOR