8 - O INTRUSO

Autor: Pablo de Salamanca


Tereza era uma senhora que já passava dos 60 anos de idade. Era viúva e vivia sozinha em sua modesta casa, em bairro de um subúrbio carioca. Sempre havia sido espírita, pois preferira acompanhar a religião dos seus falecidos pais. Estava um tanto afastada das palestras do centro e acreditava estar precisando de alguns passes, pois seu sono à noite não vinha sendo bom. Além disso, com alguma frequência, sonhava que tinha alguém dormindo do lado dela, na própria cama. E não era o falecido marido! Quem aparecia, de vez em quando, era um homem mais novo, que roncava muito e a incomodava demais...

Naquela manhã, Tereza estava muito aborrecida, pois havia acontecido de novo. Resolveu ir desabafar com sua única amiga, uma vizinha bem mais idosa que ela:
- Ernestina, o intruso apareceu esta madrugada mais uma vez! Não sei o que faço!
A velha Ernestina, como em outras oportunidades, recomendou:
- Isso é caso de alma perdida, Tereza! Numa segunda-feira, vai no cruzeiro da Igreja de Nossa Senhora do Desterro, acende umas velas e pede pra encaminhar.
- Acho que vou ter que fazer isso! Mas, não estou acostumada. Você sabe. Sou espírita e não tenho o hábito de acender velas. E não gosto muito de igreja...
A vizinha, pacientemente, colocou:
- Ô Tereza, o que não dá é viver nessa aflição! Mas, você poderia voltar a frequentar seu centro. Pede ajuda lá! Eu já estou velha e não consigo andar direito. Se eu pudesse, ia contigo na igreja, ou te levava lá no meu antigo terreiro, para algum preto-velho de rezar. Mas, minhas pernas já não permitem andar muito...

Tereza, no fundo, era um pouco avessa à Umbanda. Tinha mais afinidade com a Doutrina de Kardec. Contudo, não retrucou Ernestina, que era a única pessoa com quem interagia ultimamente. Assim, agradeceu e disse que ia pensar no que fazer.

Na noite seguinte, Tereza resolveu orar bastante antes de ir dormir. Em meio às orações, pegou no sono. Seu repouso ia muito bem, mas, quase na alvorada, começou a ouvir os roncos já familiares. Ela gelou de medo! Havia despertado e ainda ouvia alguém roncando. Das outras vezes, apenas sonhava que via o homem dormindo em sua cama. Entretanto, naquela madrugada, ela despertara e o ronco continuava. Estava com muito medo de se virar no leito e ver, logo atrás de si, um fantasma. Tereza, então, começou a rezar em voz alta. Recitava todas as orações decoradas, que havia aprendido desde tenra infância, e até mesmo tradicionais rezas católicas. Então, ouviu uma voz masculina:
- Quem está aí?
A mulher, saindo do seu transe de medo, que já quase chegava ao terror, resolveu levantar-se do leito. Ela havia se irritado com o abuso do intruso e falou:
- Eu é que pergunto! O que é que o senhor está fazendo em minha casa? Quem te deu permissão de dormir na minha cama? Saia já daqui, seu encosto!

A cena era no mínimo curiosa! Tereza estava agora de pé e apontava para a porta do quarto, indicando um caminho de saída para o intruso atrevido, um homem aparentando cerca de 40 anos de idade, e que mantinha os olhos arregalados para aquela senhora tão aborrecida. Ele, então, balbuciou:
- Mas, esta casa é minha...
A mulher, ouvindo aquela impertinência, retrucou:
- Você é muito abusado! Um cara de pau que...
Contudo, ela não conseguiu completar a frase. Havia se alterado tanto que sentira mal e, por isso, desmaiou, ficando estirada no chão.

Um tempo depois, Tereza recuperou os seus sentidos. Levantou-se com alguma dificuldade e lembrou a breve discussão com o fantasma. Olhou no entorno e viu que o intruso não estava mais ali. Tomou um copo d'água e foi procurar Ernestina para desabafar, pois, afinal de contas, não havia sido um sonho, como outras tantas vezes. Ela precisava contar para a amiga, que tinha ficado face a face com o espírito zombeteiro, materializado em sua frente, deitado em sua cama.
- Ernestina! Ô Ernestina! Preciso te contar uma coisa!
A vizinha não demorou a aparecer numa janela de seu casebre, que ficava no fundo do quintal da casa de Tereza, logo após um muro baixo. E disse:
- O que aconteceu, amiga?
Logo veio a resposta:
- Eu vi o encosto nesta madrugada! Falei com ele e o expulsei! Ele sumiu, mas não sei se vai voltar. Eu até passei mal...
- Tenha calma! Conte-me tudo, devagar. (disse a velha vizinha)

Elas confabularam longamente e Tereza detalhou todos os pormenores. Ao final da conversa, Ernestina propôs:
- Minha amiga, eu tenho um livro de orações antigo. Nele tem uma reza forte, que só faço em situações de muita necessidade. Se quiser, eu vou aí na sua casa às 18:00 horas, para fazermos esta oração juntas e pedirmos aos espíritos de luz para levar esta alma.
- Pois eu quero! Já está na hora de acabar com essa situação e recuperar o meu precioso sossego. (respondeu Tereza)

Após algumas horas, dona Ernestina apareceu pontualmente na porta da vizinha, com um livro surrado em mãos. Sentaram-se junto a uma mesinha da sala de Tereza e a velha amiga explicou:
- Nesse livro, tem uma oração às Santas Almas Benditas. Vamos pedir a elas para levarem daqui o que está te perturbando.
- Vamos sim! (disse Tereza)

Em seguida, Ernestina que ia disse que ia ler cada frase da reza e daria uma pausa para amiga repetir as mesmas palavras, até que toda oração tivesse terminado. Tereza entendeu e concordou.

Assim fizeram, com forte concentração, o pedido às Santas Almas Benditas. Ao final da longa oração, sentiram-se bem. A atmosfera do ambiente parecia estar mais leve. Em seguida, ouviram alguém bater à porta da residência. Tereza, surpresa com o fato, colocou:
- Estranho, há muito tempo ninguém vem a minha casa! Vou ver quem bate... Quem é?
Logo surgiu uma voz familiar, por trás da porta:
- Sou eu, “Tezinha”, não vai abrir?
Tereza ficou estática, por um instante. Ela conhecia aquela voz e o seu antigo apelido. Logo a seguir, girou a maçaneta com ansiedade. E lá estava, de pé, a sua frente, o seu falecido marido.

A mulher não sabia mais como agir. Lágrimas desceram do seu rosto, silenciosamente. Teófilo deu dois passos para dentro do cômodo e se abraçaram longamente. Atrás do marido, havia outros espíritos, que adentraram respeitosamente a sala. Cinco desses trabalhadores espirituais fizeram um círculo em volta do casal, ainda em abraço forte. Emitiram uma luz em tom dourado, promovendo um transporte deles próprios e mais o casal, para um local do Plano Astral com vibração mais sutil.

A porta da casa de Tereza continuava aberta e, por ela, agora passava um senhor negro idoso, que caminhava com o apoio de uma bengala. Atrás dele, vinham dois homens corpulentos. Logo, o velho senhor indagou, dirigindo-se à Ernestina:
- Cadê a minha filha teimosa? Você vai querer ficar sozinha por aqui?
Ernestina, naquele momento, deixou cair seu livro de orações. Em seguida, perguntou:
- Pai Tomé, é o senhor mesmo?
A resposta não demorou:
- Sou eu mesmo, filha! Você estava acostumada, lá no terreiro, a conversar comigo através do Roberto, meu médium, que já fez a passagem, como você.

Ernestina pôs-se a chorar, porque sabia que conversava com o seu conselheiro de tantos anos, que sempre puxava-lhe a orelha, chamando-a de “filha teimosa”. Naquele instante, entendia que havia desencarnado e não percebera. Tanto ela, como sua vizinha e amiga Tereza, haviam perdido o corpo físico há algum tempo, mas estavam ainda apegadas ao ambiente terreno e a alguns velhos hábitos. Contudo, suas reflexões foram interrompidas pelo preto-velho:
- Filha, venha conosco, para poder repousar e renovar as forças. Hoje, você demonstrou que pode trabalhar na Linha das Almas. A força de sua oração ajudou a retirar sua amiga daqui. Você não vai teimar em ficar, não é?
Ernestina não conseguia falar. Apenas chorava. Então, Pai Tomé avançou devagarinho e disse:
- Se apoia aqui na minha bengala, filha.
A velha Ernestina colocou sua mão sobre a mão da entidade. Os dois guardiões que haviam adentrado o recinto ajudaram a fechar um campo de proteção. Em breves instantes, não havia mais espíritos no local. 

Mais tarde, chegava em sua casa o dono atual do imóvel. Ele não teve mais contato com Tereza, que, até então, acreditava ainda viver ali com o corpo material. A partir daquele dia, ele pôde dormir bem melhor...

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