7- O ENTERRO

Autor: Pablo de Salamanca


Osório estava presente, mais uma vez, a um funeral. Acompanhava, com atenção minuciosa, as reações das pessoas, fossem amigas ou parentes do recém-desencarnado. Este era um hábito que aquele homem de meia-idade adquirira nos últimos tempos. A morte e todo o contexto associado ao fato haviam se tornado uma espécie de material de estudo, para aquele psicólogo. 

Naquele dia, em especial, Osório estava muito interessado no que acontecia, pois era o enterro de um médico famoso, envolvendo muita gente ali no cemitério. 

O médico, Doutor Junqueira, havia sido um ótimo profissional, mas, além disso, foi um ser humano de grande valor, tendo realizado muitas consultas e tratamentos de maneira inteiramente gratuita, aos mais pobres e até indigentes. 

Osório o havia conhecido pessoalmente e o admirava. Por isso, naquele dia, embora mantivesse seu olhar analítico sobre os fatos, estava um pouco emocionado. Ao seu lado, agora, surgia uma pessoa que, no passado, fora beneficiada pelo médico. O homem desconhecido, dirigindo-se a uma senhora, colocou:
- Doutor Junqueira foi quase um santo para mim! Se não fosse por ele, eu teria perdido esta perna aqui! Não estaria de pé!
A mulher próxima, sua interlocutora, reagiu:
- Pois é, devo muito a ele também. Por isso, estou aqui para lhe prestar esta última homenagem. Tenho certeza que ele será recebido, no céu, pelos anjos do Senhor! 

Osório, após ouvir o breve diálogo, pôs-se a pensar no que seria o céu e como seriam seus habitantes. A sua formação, que ele mesmo direcionou ao campo materialista, o fazia duvidar de muitas crenças e religiões. Talvez, pensou, isso fosse um motivo para ele próprio, ultimamente, estar se sentindo tão atraído por eventos em cemitérios e capelas, onde se "velavam os mortos". O que haveria depois? A princípio, um “nada”, matutava o psicólogo... Mas, e se ele estivesse errado? E se tivesse alimentado sua mente com ideias distorcidas? Afinal de contas, havia outras correntes de pensamento que apontavam diferentes caminhos... E essas filosofias, das quais se lembrava naquele instante, nem todas eram de fundo religioso. 

No entanto, as elucubrações de Osório foram repentinamente interrompidas, pois alguém agora bradava:
- Uma salva de palmas para o Doutor Junqueira, o médico dos pobres!
Logo surgiram as palmas, intensas e longas. Naquele momento, Osório percebia como o lugar estava cheio. Antes, perdido em seus pensamentos, não notara que havia se formado uma verdadeira multidão no cemitério. Admirou-se, em quanto era querido, o Doutor Junqueira. 

Não demorou muito e o caixão começou a ser conduzido, embora muito lentamente, entre as pessoas que se aglomeravam. Osório se sentiu compelido a acompanhar o féretro até o final. Havia uma estranha emoção no ar, uma espécie de eletricidade ou magnetismo que unia as pessoas, durante aquele evento, que se transformara em algo de grandes proporções. 

Nesse contexto, Osório não se espantou quando surgiram muitos homens trajados em vestes negras, fazendo um tipo de cerco ao núcleo central do cortejo, que era o caixão com os restos mortais do médico. Osório entendeu que aqueles homens deveriam ser algo como seguranças, ou até mesmo algum batalhão especial da polícia, pois todos tinham grafados no peito a imagem de uma caveira. 

A lenta caminhada prosseguia, em linha reta. Ao final daquela longa via, dentro do campo-santo, estava o destino do corpo do Doutor Junqueira, um túmulo aberto na base de um pequeno morro. O curioso é que, naquela pequena elevação, já havia também uma aglomeração de pessoas. Aguardavam o término do cerimonial fúnebre e, em volta delas, estavam indivíduos com roupas negras, à semelhança daqueles que pareciam proteger o caixão, durante o seu translado. 

Naquela jornada, Osório voltava a pensar na vida e na morte. Raciocinava que, de certa forma, seria um desperdício da natureza surgirem e se desenvolverem homens tão inteligentes e prestativos como o Doutor Junqueira, para, depois da destruição de seu corpo, nada permanecer de sua inteligência e personalidade. Aquilo não fazia muito sentido para ele, naquele momento, quando diversas pessoas passaram a entoar um cântico religioso, distraindo-o de suas reflexões. 

Depois de alguns minutos, o caixão chegou à beira do túmulo. Osório se esforçava para se aproximar, mas não era possível. A concentração de indivíduos era muito grande. De onde Osório estava, no entanto, era fácil observar o suave morro um pouco além da sepultura, onde permaneciam pessoas aguardando o final do evento. Para grande surpresa de Osório, pôde enxergar lá o Doutor Junqueira de pé. Estava amparado por dois homens de branco. No entanto, havia outras pessoas, em vestes claras de vários matizes e, mais externamente, permaneciam alguns homens de preto, praticamente fechando um círculo de proteção. 

O psicólogo duvidava do que estava vendo. Esfregou os olhos seguidamente e já acreditava que tinha alucinações. Mas, foi interrompido por uma voz a sua direita:
- Sobrinho, quem está lá é o Junqueira mesmo!
Osório, deslocando sua atenção para quem lhe falava, notou a presença de um velho familiar e disse:
- Tio João!? É o senhor mesmo?
O idoso respondeu:
- Sim, meu querido, sempre estive por perto... 

Osório estava estupefato, pois seu tio havia morrido há muitos anos. O “tio João”, que havia sido médico na Terra, fora a pessoa da família que mais estimulara Osório a seguir uma carreira na área da saúde. 

Como Osório permanecesse emocionado, espantado e um tanto confuso, o velho tio tornou a se comunicar:
- Olhe para o morro, Osório! A vida sempre continua. Lá está o Junqueira, meu irmão de profissão, retornando à Pátria Espiritual, com grande mérito. 

O psicólogo, como um autômato, obedeceu ao tio que, agora, apoiava uma mão em um de seus ombros. Ao avistar o morro, Osório notou que o Dr. Junqueira agora flutuava, amparado por diversos espíritos afins. Uns deles eram parentes desencarnados, outros eram como orientadores e alguns eram desencarnados que, num passado um pouco mais distante, haviam sido beneficiados pelo próprio médico. Estes últimos estavam ali em agradecimento, ajudando a formar um elo de proteção que, mais externamente, era fechado pelos homens de preto. 

Quando o caixão baixou ao túmulo, o conjunto de espíritos do morro subiu e desapareceu do Plano Terreno. Só ficaram no morro, os seres que tinham a caveira no peito. Estes passaram a arrebanhar algumas pessoas que já não tinham o corpo material, mas estavam presentes ao enterro. 

Em seguida, o “tio João” voltou a falar:
- Osório, meu querido, já fazem três anos que você não pertence mais ao Mundo Físico. Venha comigo, meu filho!

O psicólogo estava entregue às evidências que não conseguia enxergar antes, nos outros enterros que vinha acompanhando. Abaixou a cabeça e chorou nos ombros do tio, que, aproveitando o momento, fez um sinal. Logo se aproximaram dois homens trajados de preto, que ajudaram o “tio João” a retirar seu precioso sobrinho do campo-santo.

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