6- A ORIENTAÇÃO DE GUARACY

Autor: Pablo de Salamanca


Pedro era um jovem de 21 anos, com grande interesse pela Espiritualidade no geral. Lia sobre religiões e filosofias diversas, desde os 15 anos de idade. Agora que atingira a maioridade, estava frequentando uma irmandade espiritualista, de caráter universalista, que agregava diversas sabedorias e práticas, que estimulavam o seu idealismo e curiosidade.

O templo possuía atividades de estudo e palestras que abrangiam o Espiritismo, o Hinduísmo, o Budismo, dentre outras correntes. Além disso, aconteciam regularmente sessões mediúnicas desobsessivas, com participação intensiva das entidades da Umbanda, bem como sessões voltadas à cura, com a presença constante de médicos desencarnados e guias de origem oriental.

Mas, Pedro não se contentava com as reuniões formais. Queria saber mais e deu um jeito de ir até ao templo em dias fechados ao atendimento público. Guaracy, percebendo o grande interesse do jovem, o recebia sempre que possível. Guaracy estava ligado à irmandade há muito tempo, possuindo largo saber, que seria útil a Pedro, que se candidatava a tornar-se um integrante do templo.

Em um dos encontros de ambos, após a manifestação do interesse de Pedro em colaborar com a casa espiritualista, a conversa foi direcionada para o tema “divergência de opiniões”. O jovem indagou:

- Porque há tanta discórdia entre as pessoas?

Guaracy não demorou a responder:

- Meu caro, a discórdia está dentro de cada ser humano. Ela simplesmente se projeta através de palavras e ações. O resultado não poderia ser diferente no mundo externo.

Pedro, que estava um tanto angustiado, resolveu ser bem claro no que o afligia:

- Ultimamente meu pai e meu tio andam brigando muito. Eles sempre foram irmãos tão unidos...

Como Guaracy permaneceu calado, o rapaz sentiu que tinha espaço para falar mais:

- O dia a dia deles é discutindo política. Não gosto muito desse assunto, mas sei que um é “de direita” e o outro “de esquerda”. Parece que passaram a se odiar. Qual dos dois estaria certo?

O orientador, com a tranquilidade que o caracterizava, colocou:

- Meu jovem, olhe agora para o próprio corpo.

Pedro, surpreso com o pedido, olhou brevemente para seu tórax, barriga, pernas e braços. Em seguida, voltou a mirar o rosto de Guaracy, que tornou a se comunicar:

- Pedro, você com certeza viu que possui um braço direito e um esquerdo. Também tem uma perna direita e uma esquerda.

O rapaz, confuso, ficou boquiaberto. Guaracy voltou a manifestar-se:

- Você, portanto, tem um corpo completo. Ele funciona melhor assim. Seria bem mais difícil ter saúde e equilíbrio com um só pulmão ou apenas um rim, não é mesmo? Seu cérebro tem dois hemisférios...

Pedro, então, abriu um sorriso. Parecia entender aonde o sábio homem queria chegar. Sentiu-se animado e falou:

- Seu Guaracy, então é por isso que na Umbanda existem os trabalhos “de direita” e “de esquerda”.

- Muito bem, filho, vejo que tem estudado as apostilas do templo. O equilíbrio vem da harmonização do que aparentemente são ditos “opostos”. Você lembra da palestra sobre Taoísmo? Recorda o Yin e o Yang? O “Todo” tudo abrange e assimila. Mas, voltemos à Umbanda, que toca fundo ao seu coração. Lembra-se de um dos principais símbolos de Xangô?

O jovem logo disparou:

- O machado!

- Sim, meu querido, mas o oxê de Xangô não é um machado comum. Ele tem duas lâminas, que cortam em direções diferentes. (disse Guaracy)

Pedro, ansioso por demonstrar seu entendimento, assinalou:

- As duas lâminas são como o Yin e o Yang!

O orientador voltou a tecer explicações:

- Esta é uma forma de se interpretar, meu caro, mas não é bem isso que eu queria demonstrar. O que preciso lhe dizer é que o machado de Xangô é verdadeiramente imparcial. Não é como a justiça terrena, ainda bastante incompleta e, sobretudo, tão sujeita a decisões baseadas em influências e interesses pessoais.

O rapaz permaneceu em expectativa e Guaracy continuou:

- O machado de Xangô é manuseado pelos “Senhores do Carma”. Estes são seres muito evoluídos, que avaliam com perfeição toda a intenção por trás de cada ação. Não há falhas devido a sentimentos dúbios, nem a interesses particulares. Os “Senhores do Carma” estão acima disso e cortam à direita e à esquerda com precisão, permitindo que as criaturas humanas tenham seus aprendizados em busca do equilíbrio.

A cabeça do jovem fervilhava. Ele queria fazer mais perguntas, mas não conseguia concatenar tantos pensamentos. Guaracy, notando, colocou:

- Acalme sua mente, para absorver um pouco mais o que vou transmitir.

O homem parecia ver perfeitamente o mundo interno de Pedro e, na sequência, emitiu um mantra, cujo som acalmou o rapaz que, agora, percebia estar diante de uma força maior. Guaracy, em seguida, tornou a se comunicar:

- Filho, captei seus pensamentos e notei que quer saber algo a mais sobre as ideologias que movem o ser humano na Terra. Quer entender porque as ditas correntes “de direita” e “de esquerda” brigam entre si, ao invés de se complementarem, não é verdade?

Pedro balançou a cabeça positivamente, aguardando a explanação daquele homem, cujos traços faciais tinham fortes características indígenas. Guaracy prosseguiu:

- Meu jovem, ideologias humanas são como aqueles que as criaram. Trazem um misto de sombra e luz. São como Yin e Yang, que precisam trabalhar juntos para promover a harmonia. O excesso de qualquer um dos lados é desequilíbrio, traduzindo-se em sofrimento, dor e doença. O mundo está doente. A cada ciclo há descompensações, mas, neste período, ocorre desarmonia mais profunda. Não se deixe levar por este fluxo! Seja um elemento de pacificação! Mas, para isso, precisa compreender...

Pedro manteve-se concentrado, para não perder qualquer aspecto da explicação. Logo, Guaracy retomou o seu discurso:

- Filho, entenda que se as ideologias são falhas, como foram os seus criadores, mais desequilibrados ainda são aqueles que as tomam como verdade absoluta. Guarde isso em sua mente: a única verdade absoluta é o “Todo” que tudo abrange e assimila; é o que contém as dualidades, o Yin e o Yang, em perfeito funcionamento e harmonia.

O orientador fez um intervalo de silêncio, para Pedro digerir o assunto. Após alguns momentos, o candidato a tarefeiro espiritual, mesmo sentindo-se pequeno, arriscou uma fala:

- Acho que entendi o caminho a seguir...

Guaracy sorriu, satisfeito, e salientou:

- Meu querido, nós vamos lhe ajudar a não esquecer esta conversa.

Sua frase parecia enigmática, mas não era. Atrás de Pedro, surgiu um mentor espiritual que, na realidade, sempre esteve presente durante o diálogo. Agora, ele vibrava com maior intensidade sobre o campo mental do jovem, de modo que este rememorasse tudo. Então, Guaracy disse:

- Pedro, você falou que entendeu o caminho a seguir. Ouça minhas últimas palavras de hoje! Volte para o seu corpo, que dorme em seu quarto, no lar de seus pais, e guarde um ensinamento de Buda: o caminho mais correto é o “caminho do meio”.

Tendo dito isso, Guaracy foi ficando luminoso. Sua forma indígena se dissolveu e, agora, diante de Pedro, surgia um monge budista. Pedro, de olhos arregalados, guardou muito bem esta última imagem em sua memória. Logo despertava em seu leito, no Plano Terreno, com a emoção mais forte que havia sentido, até então, na sua vida.

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