5- ROSA

Autor: Pablo de Salamanca


Rosa não era a mesma pessoa, após o noivado desfeito, por iniciativa de Marcos. O rapaz alegara não estar pronto para assumir tal responsabilidade, pois queria fazer um novo curso universitário. Ele havia desistido da primeira profissão e queria uma nova. Mas, isso não era tudo. Marcos também desejara uma outra companheira e Rosa descobrira tudo.

A jovem mulher, de início, aborreceu-se muito. Ficou magoada pelo relacionamento de cinco anos ser desfeito, de uma hora para outra. Com o tempo, Rosa entregou-se a um desânimo constante. A vida parecia ter perdido as cores e sabores. Nada a estimulava com intensidade. Apenas se interessava por questões afetivas de colegas ou parentes. Sempre que possível, ela dava o seu palpite ou aconselhava as pessoas, no sentido de apaziguar os ânimos, de promover a conciliação. Ou seja, ela desejava aos outros a conciliação que não conseguiu concretizar com o seu antigo noivo.

Após esta fase de ação conselheira junto a parentes e amigos, Rosa passou a sair de casa, buscando pessoas problemáticas para ajudar. Como ela não havia resolvido o seu “problema”, sentia-se bem tentando ajudar o semelhante. De certa forma, ela fugia de si mesma, embora fosse pessoa bem-intencionada.

Assim, a jovem mulher passou a frequentar um determinado barzinho de seu bairro, quase todas as tardes até à noite, quando se recolhia após ter encontrado e interagido com alguém triste ou meio perdido na vida.

Naquele sábado, Rosa estava novamente no bar. Perambulava entre as mesinhas e cadeiras, observando as pessoas. Umas bebiam alegremente. Outras fumavam despreocupadamente. Então, viu uma moça com olhar muito tristonho, perdida em seus próprios pensamentos. Parecia um pouco bêbada. Rosa se aproximou e notou que ela murmurava, agora, palavras ao vento. Conversava sozinha ou se lamentava de algo. Rosa, agindo de uma forma um tanto impulsiva, sentou-se numa cadeira vazia, na mesma mesa onde estava a jovem. A seguir, Rosa perguntou:
- Você não ficaria chateada de me sentar aqui, não é?
A moça levantou sua cabeça brevemente em direção à Rosa e nada disse. Em seguida, baixou os olhos e começou a chorar.

Rosa, já acostumada com pessoas em crise, permaneceu em silêncio. Não queria ser muito invasiva e, além disso, havia aprendido a respeitar a dor alheia. Após os soluços cessarem, Rosa arriscou uma fala:
- Querida, eu não te conheço, mas vejo que está sofrendo.
A moça aquietou-se um pouco mais e parecia interessada em ouvir Rosa, que continuou:
- Eu já tive meus tropeços na vida e percebo que você teve uma desilusão amorosa.
A moça, ainda olhando para baixo, ficou numa postura receptiva, mas imóvel. Ela queria ouvir. Rosa tornou a se comunicar:
- Sabe o que aprendi com isso? Eu aprendi que não vale a pena alimentar a dor que passou!
A jovem, em seguida, soltou um lamento:
- Ah! Eu não merecia isso!
E logo voltou a chorar baixinho, o que ensejou à Rosa, voltar a falar:
- Minha querida, quando eu fui abandonada pelo meu noivo, depois de cinco anos de relacionamento, achei que minha vida tinha acabado. Primeiro, fiquei com raiva. Muita raiva! Depois, me entreguei ao desânimo...
Como a mocinha não reagia, Rosa prosseguiu:
- Olha, eu fiquei muito tempo assim, como você, chorando pelos cantos. Mas, um dia, minhas lágrimas secaram. Senti que estava num círculo vicioso. Esqueci o Marcos, meu noivo, e percebi que tinha outras pessoas que precisavam de mim.

A moça, agora, novamente havia parado de chorar. Dava sinais de que as palavras de sua interlocutora lhe faziam bem. Nesse contexto, Rosa tornou a se expressar:
- Muita gente não gosta de conselhos, mas vou te dar um. Pare de chorar e dê a volta por cima! Você tem valor e vai descobrir! Todo mundo tem um dom. Eu já descobri o meu. Você vai descobrir o seu. Não chore mais! Esqueça o que passou! Renove a sua vida...

A moça permaneceu calada, ainda olhando para baixo. Respirou profundamente,  parecendo ter tomado uma decisão. Rosa, então, se despediu:
- Olha, não vou te importunar mais. Você deve estar precisando ficar sozinha e pensar melhor. Fique com Deus.

Tendo dito isso, Rosa se afastou. A jovem finalmente ergueu a cabeça e, embora tivesse tristeza no olhar, manteve um semblante mais calmo. Pediu a conta ao garçom, pois já não desejava se embebedar mais, e foi para a sua casa.

Num outro dia, Rosa retornou ao seu barzinho preferido. Entrou e sentou numa cadeira, junto a uma mesinha desocupada. Mais ao fundo, no estabelecimento ainda quase vazio, estava um casal de namorados. Rosa observou que as coisas não andavam bem entre eles, que, naquele momento, debatiam em tom elevado.

Na sequência, a situação piorou e os dois levantaram-se. O rapaz parecia querer ir embora e a moça tentava retê-lo, cobrando um posicionamento sobre algo. Não se entenderam e a jovem lhe deu um tapa no rosto. O rapaz a xingou e saiu apressadamente do local. A moça, trêmula de raiva, foi até a entrada do bar e ficou olhando o seu namorado se afastar. Rosa, que estava próxima, colocou:
- Querida, não é assim que se resolvem os problemas!
A moça, muito irritada, ignorou completamente Rosa e se evadiu do bar.

Rosa permaneceu sentada, meditando sobre a vida e suas encruzilhadas. Ficou pensando sobre decisões erradas, sobre atitudes impensadas e não percebeu a aproximação de uma senhora, ainda relativamente jovem. Quando Rosa voltou de seus pensamentos, a bela mulher já estava junto de sua mesa, dizendo:
- Posso me sentar aqui, moça?
Rosa, um tanto surpresa, aceitou:
- Sim, senhora!
A bela criatura feminina, que trajava longo vestido em tom predominantemente vermelho, com detalhes negros, assinalou:
- Tenho observado você, há muito tempo por aqui!
Rosa, não escondendo um certo espanto, colocou:
- Mas como, se nunca vi a senhora no bairro?
- Não só ando pelas redondezas, como sempre venho a este bar. (disse a dama de vermelho)
Como Rosa permanecesse quieta, a mulher deu continuidade:
- Retirei muita gente, que já ia se perdendo, neste boteco. E você, moça, é bem intencionada, mas precisa aprender muita coisa para lidar com o povo que vem desafogar as mágoas, neste lugar.

Rosa ficou magnetizada, prestando atenção às palavras da mulher, até que perguntou:
- Qual é o nome da senhora?
A dama de vermelho deu uma risada e respondeu:
- Meu nome é Maria e isto basta no momento, Rosa.
Rosa ficou boquiaberta em descobrir que aquela senhora sabia o seu nome. Mas, a mulher tornou a se comunicar:
- Rosa, você já sabe que o seu corpo morreu, não é mesmo?
A moça, um pouco abatida agora, explicou:
- Sim, senhora, lembro de ter acompanhado o enterro.
- Estou aqui para te fazer um convite! (disse a dama)
Rosa estava atônita, mas curiosa. E a mulher falou:
- Você quer ouvir a proposta?
- Sim, senhora. (respondeu Rosa)
- Olha, moça, se quiser vir comigo e conhecer minha mãe, vai aprender muitas coisas. Vai saber como ajudar melhor o povo de “carne e osso” que vive batendo a cabeça, perdido aqui no Plano-Terra.
Devido ao silêncio de Rosa, a mulher se estendeu:
- Moça, seu corpo morreu num atropelamento, ali na esquina, já algum tempo. Você viu, depois, o enterro, mas estava apegada a este plano. Manteve seus pensamentos e sentimentos aqui e, assim, seu corpo espiritual ainda está denso. Por isso, você não me via, mesmo quando eu passava por ti. Agora, me tornei densa, para poder falar melhor contigo. Quer vir comigo, Rosa?

A jovem desencarnada sabia que a dama de vermelho tinha razão. Então, assinalou: - Dona Maria, eu até aceito ir com a senhora. Percebo que minha velha mãe chora, quando me aproximo dela. Não quero mais ir até ela, mas não sei como sair daqui! Existe um outro lugar, um que seja melhor?
A mulher, rapidamente, esclareceu:
- Claro que existe, Rosa! Mas, para vir comigo, você vai precisar de uma ajuda da minha mãe espiritual.
- E onde está ela? (indagou a jovem)
A bela mulher, então, pegou numa mão de rosa e passou a dizer:
- Preste atenção! Preste bem atenção a uma brisa que vai começar a roçar pelo seu rosto!

Rosa, em breve, sentiu a sensação de algo sutil passar pela sua face. Era agradável. Em seguida, o deslocamento de ar se fortaleceu, tornando-se bem perceptível. A dama de vermelho voltou a falar:
- Rosa, se entregue a esta energia e venha conosco!
A brisa logo tornou-se vento e, acima das duas mulheres sentadas no bar, surgiu uma luz forte. O vento tornou-se ventania, enquanto Maria segurava com força a mão de Rosa, que, naquele instante, desfalecia. Maria amparou-a num abraço e ambas sumiram num rodamoinho, emoldurado por uma luz que vinha de cima.

No bar quase vazio, ninguém percebeu o que se passara “do outro lado”. Mas, a ventania tinha acabado de espalhar guardanapos e toalhas de papel em várias direções.

Clique aqui e deixe um comentário!


LIVRO DE VISITAS



VOLTAR PARA A PÁGINA ANTERIOR