4 - OS IRMÃOS E A MISSÃO

Autor: Pablo de Salamanca


José e Djair eram irmãos gêmeos. Contavam pouco menos de 40 anos de idade. Na infância, viviam adoentados e a falecida mãe sempre os levava ao “seu Martinho”, um rezador e curandeiro, que sempre “dava um jeito” nos meninos. Ora os beneficiava com suas rezas e benzeduras, ora trazia o restabelecimento com seus chás e banhos de ervas.

Quando os garotos eram quase adolescentes, na última ida ao “seu Martinho”, o homem fez uma revelação:
- Dona Ermelinda, seus filhos têm uma missão! Vieram na Terra para prestar a caridade! Um dia eles vão fundar um centro e trabalhar no Espiritismo! Vão ajudar muita gente...

Os anos passaram e os irmãos aprumaram a saúde. A família se mudou para um bairro distante e perderam o contato com o “seu Martinho”.

José e Djair se casaram, mas moravam na mesma rua. Sempre foram unidos e preferiram manter-se próximos. Tinham muita afinidade e até os problemas eram semelhantes. Pouco tempo depois de casados, descobriram que não poderiam se tornar pais, pois ambos traziam uma limitação fisiológica. Não tendo filhos, viviam para o trabalho e para as esposas. Faltava algo na vida deles, embora fossem relativamente felizes. Assim, cogitavam a adoção para completarem suas famílias. E num determinado dia, vinha novamente à baila o assunto, entre eles:
- José, voltei a falar com minha mulher sobre adotar uma criança. Ela parece aceitar bem. E você, mano?
- Djair, penso a mesma coisa, mas sempre lembro do “seu Martinho”. Ele disse que a gente ia formar um centro. A mediunidade está sempre presente nas nossas vidas. Você vê os espíritos com facilidade e eu estou sempre os ouvindo...
- Ô mano, isso é muita responsabilidade! Será que a gente está pronto? Prefiro continuar assistindo às palestras lá no centro da Dona Cotinha... (retrucou Djair).
José permaneceu calado por um tempo, até que confessou:
- Djair, venho ouvindo entidades e, ultimamente, têm me dito que a nossa hora está chegando. Acho que não dá pra protelar mais...
O irmão, após pensar um pouco, se manifestou:
- Zé, na realidade, não temos grandes recursos. Se pelo menos tivéssemos uma herança, como a Dona Cotinha, que construiu o seu centro, a partir de um terreno deixado pelo pai, facilitaria as coisas!
José, que era o irmão gêmeo mais velho, por cerca de 15 minutos apenas, assinalou:
- Então, vamos esperar o sinal.
- Que sinal? (indagou Djair)
José logo respondeu:
- Um espírito amigo me disse, há poucos dias, que haveria um sinal em breve. Não sei qual é, mas isso vai permitir a gente fundar um centro.

Em seguida, ambos se despediram, pois já era tarde. No dia seguinte, uma sexta-feira, os dois precisavam ir trabalhar cedo.

No sábado, Djair foi procurar seu irmão logo pela manhã. José, surpreso, acelerou o passo até o portão, onde seu mano o chamava ansioso. Ele abriu o portão e indagou:
- O que foi Djair? Aconteceu alguma coisa?
- Aconteceu o sinal, Zé! Aconteceu o sinal!
- Como assim? O que houve? Vamos entrar, Djair!

Os dois foram apressados até a mesa da varanda, onde José intimou o irmão a falar:
- O que aconteceu, Djair?
- Você tinha falado de um sinal, Zé! Tenho certeza que aconteceu!
Como José ficou quieto, em expectativa, seu irmão continuou:
- Quando voltei do trabalho, à tardinha, tomei um banho e jantei. Fui até o quintal molhar as plantas, quando passou na rua um senhor de idade. Ele parou no portão, enquanto eu ainda irrigava as flores. Ele me chamou e fui até lá. Então, reconheci o “seu Martinho”. Ele está velhinho, mas bem lúcido. Fiquei muito emocionado. Eu pensava que ele era um espírito, né? Afinal de contas, perdemos ele de vista há muito tempo. Mas, no final da conversa, ele me tocou. Aí percebi que era de carne e osso.
- E o que ele te disse, Djair? Como te encontrou? (indagou José, muito curioso)
Logo veio a resposta:
- Bem, mano, ele disse que veio morar numa rua no alto de nosso bairro e soube que estávamos aqui. Ele me convidou a conhecer a casa dele e disse para eu te levar também. Ele vai fazer uma sessão mediúnica de mesa. É amanhã, domingo, às 18:00 h. É uma reunião fechada, mas nós fomos convidados. Eu achava que ele era um espírito, mas naquele instante me tocou, deixando este papel na minha mão, com o endereço. Eu fiquei paralisado, enquanto ele falava. Eu quase não acreditava! Era o sinal que você havia dito!
José estava atônito, ouvindo o irmão, mas, saindo deste estado, assinalou:
- Djair, este acontecimento é fantástico! Não esperava reencontrar “seu Martinho” com vida. Mas, porque isto é um sinal de que vamos fundar um centro?
O irmão gêmeo mais novo explicou:
- Ora mano, isso tudo não é somente coincidência! Para mim, é um sinal, porque foi o “seu Martinho” que nos falou de nossa missão, quando éramos garotos.
José coçou a cabeça, sentindo-se meio confuso, mas voltou a se comunicar:
- E o que ele falou mais?
 Djair, já se despedindo, de pé, respondeu:
- Mano, ele disse pra gente chegar neste endereço, que é uma casinha velha, empurrar um portãozinho de madeira, que está só encostado, e dar a volta na casa. Lá atrás, tem uma área coberta por um telhado, onde está uma mesa grande com alguns lugares. Falou que vai ter duas cadeiras vazias, onde a gente deve se sentar em silêncio, porque assim que a gente chegar, vai começar a sessão. Ele falou para a gente ser pontual, porque às 18:00 h ele e os outros participantes já vão estar nos esperando e sentados à mesa.
José ouviu tudo com atenção e colocou:
- Certo, Djair! Vou avisar Maria que tenho esse compromisso amanhã. Vou dizer a ela que só volto para a janta.
Djair, concordando, disse:
- Certo irmão, já avisei a minha patroa. Passo aqui às 17:30 h e vamos juntos. Não é longe! Dá para ir a pé.

O domingo não demorou a chegar e as horas passaram, céleres, até que o momento combinado pelos irmãos se concretizou. Os dois juntos subiram as ladeiras que os faria atingir o endereço no alto do bairro. Pareciam garotos novamente. Era grande a expectativa.

Quando chegaram no local, depararam-se com uma casinha humilde. Viram o portão de madeira mencionado e o empurraram. Havia uma placa de “vende-se”, com um número de telefone. Ela não ficou despercebida pelos dois, que a estranharam, mas nada comentaram um com o outro. Atravessaram o quintal estreito, indo para os fundos do terreno. Uma vez lá atrás, notaram que o local era amplo e logo divisaram a localidade antes de escrita por “seu Martinho”. Era um telheiro que cobria uma longa mesa de madeira maciça, ladeada por algumas cadeiras, quase todas ocupadas.

O velho Martinho acenou para os gêmeos e apontou duas cadeiras vazias. Quando José e Dair chegaram até os lugares reservados, sentiram uma eletricidade no ar. Pareciam estar numa outra dimensão, algo muito bom e até perfumado. Sentaram-se e “seu Martinho” disse que faltavam cinco minutos para as 18:00 h. Então, passou a apresentar os demais participantes aos recém-chegados. E disse:
- Meus queridos José e Djair, na outra cabeceira da mesa está Malaquias, profundo conhecedor da alma humana.
O senhor Malaquias, um homem tão idoso quanto Martinho, agora sorria com dentes muito brancos, que contrastavam com sua pele negra. Vestia um terninho claro, antigo e meio amarrotado.

A seguir, “seu Martinho” prosseguiu:
- Aqui a minha direita, está Doutor Frederick. Este nosso irmão é médico e sabe curar o corpo e o espírito.
Logo o corpulento senhor, de aparência germânica, também sorria aos novatos.

“Seu Martinho”, então, apresentou o outro componente do grupo, que estava ao lado de Frederick:
- Aquele é Onofre, um doutor advogado, que entende muito bem as leis humanas, mas prefere se dedicar às coisas do espírito.
O homem balançou a cabeça, em concordância, e deu boas-vindas ao gêmeos, num sotaque português.

Então, Martinho passou a fazer uma oração de abertura da sessão mediúnica, que foi muito bela. Ao seu final, desejou que ali, naquele dia, os irmãos gêmeos fossem muito abençoados pela tarefa espiritual que se iniciava. Djair e José, que estavam lado a lado, se entreolharam rapidamente, surpresos. Intimamente, se indagavam o que aconteceria ali.

Na sequência, foi lido um trecho de um capítulo do livro “O Evangelho Segundo o Espiritismo”. Ao final, Martinho pediu que o velho Malaquias fizesse comentários. Este fez breve, mas profunda reflexão sobre o tema, demonstrando grande sabedoria. Djair, cuja vidência era frequente, notou bonito halo de luz dourada sobre a cabeça do ancião, enquanto ele falava. O próprio José, cuja principal faculdade mediúnica era ouvir aos espíritos, também enxergou a luz dourada sobre a cabeça de Malaquias. Ambos irmãos permaneciam calados, absorvendo cada momento da reunião, que, agora, passaria a fazer uma irradiação para os enfermos de um hospital próximo.

Assim, a palavra foi passada ao médico Frederick. Este passou a evocar forças espirituais de planos mais elevados. Enquanto falava, surgiu uma torrente de energias que descia sobre a mesa maciça. Parecia uma cascata de luzes, que, ao bater sobre a madeira, dirigia-se para um rumo, que era o principal hospital da cidade. Agora, os irmãos estavam de fato muito impressionados. Eles viam o que estava acontecendo, parecendo que participavam de um sonho. Os dois suavam. Não percebiam, mas deles partiam bioenergias que se juntavam à corrente energética de cura. Atuavam como médiuns involuntariamente.

Após a tarefa, “seu Martinho” orientou que todos deviam respirar profundamente, aproveitando a energia do Alto, que ainda descia. Então, pediu ao advogado que fizesse uma prece aos presos e marginalizados de todo tipo. Onofre falou sobre regeneração, que é uma força que está no íntimo de cada criatura. Assim, fez uma oração muito intensa, que movimentou energias de tom predominantemente violáceo. Aquela cúpula energética, que recobriu a mesa, se irradiava vibrantemente em todas as direções. José e Djair estavam sem palavras. Não esperavam ver a manifestação espiritual, em cores tão vívidas.

Depois de alguns minutos, aquele conjunto de forças se desfez. Martinho, naquele momento, se dirigiu ao gêmeos:
- Meus queridos, vocês já entenderam porque estão aqui?
Após instantes de silêncio, José assinalou:
- Olha, “seu Martinho”, não sei exatamente o porquê, mas nunca tinha visto tanta beleza em minha vida. Este local é abençoado por Deus!
O velho benzedor, que muitas vezes tinha acudido os irmãos na infância, disse:
- Acho que vocês ainda não entenderam tudo. Por favor, Malaquias, diga algo a mais a seu respeito.
O idoso negro, então, levantou-se de sua cadeira e manifestou-se:
- Meus filhos, numa vida passada tive esta aparência que podem observar em detalhes. Estou à disposição de vocês, para a missão que planejaram cumprir antes de reencarnar. Na Umbanda, sou Pai Malaquias, mas se desejarem trabalhar de outra forma, também sou chamado Ravi.
Ao pronunciar o nome “Ravi”, o preto-velho transmutou sua aparência, mostrando-se como um hindu de idade mediana, com um turbante na cabeça. A seguir, flutuou e sumiu diante dos atônitos José e Djair.

Em seguida, após uma troca de olhares entre Martinho e Doutor Frederick, o médico levantou-se e, dirigindo-se ao gêmeos, comunicou:
- Aguardo a decisão de vocês! Na minha última encarnação, fui médico e posso ajudar desta forma, em trabalhos dentro do Espiritismo. Mas, aprendi muito numa vida indígena anterior e se precisarem de mim, deste jeito, sou Caboclo Ubiratan.
Logo após emitir o nome usado na corrente umbandista, o médico tornou-se um índio de aparência forte e esguia. Flutuou brevemente e desapareceu.

José e Djair mantinham-se paralisados à mesa. Não sabiam como proceder ou o que dizer. Martinho interveio, em meio ao silêncio que se fez, e estendeu a mão em direção a Onofre. Este se ergueu e pronunciou, com seu forte sotaque de Portugal:
- Caros amigos, não se detenham! Estamos cá, para ajudá-los! Se não se acostumarem com este advogado lusitano, posso trabalhar com a inocência que tive um dia, quando era chamado Joaquinzinho. Ao dizer “Joaquinzinho”, a entidade tomou uma aparência de vida pretérita, tornando-se um garotinho de faces rosadas e sorriso largo. Ele passou a correr no ambiente, em volta da mesa, rindo muito. Conforme ria, tornava-se mais leve, subindo em espiral, até sumir do local.

Naquele momento, José e Djair choravam discretamente. A emoção se apossara deles. Martinho aguardou a recomposição dos irmãos, para voltar a dialogar:
- Meus queridos, este dia é muito especial para vocês. Nos esforçamos para realizar isso, porque são merecedores e porque têm uma missão importante aqui na Terra. Alguma pergunta?
Djair adiantou-se e indagou:
- O senhor vai nos ajudar a fundar um centro espírita? Não sabemos onde construir a casa!
“Seu Martinho” sorriu e respondeu:
- Mas eu já ajudei! Não viram na entrada desta casa um anúncio de venda, com um número de telefone? Liguem para o meu filho, o Genésio. Eu o orientei a não passar a casa adiante, enquanto irmãos gêmeos não os procurassem. Falem que estiveram comigo e ele entenderá.
- Como assim, “seu Martinho”? Não compreendi! (disse José)
- Ora, meu jovem, o meu filho está avisado que deverá passar esta casa para o nome de vocês, porque aqui farão um trabalho mediúnico gratuito. Estas foram minhas últimas palavras ao Genésio, antes do meu desencarne, há sete anos. Liguem para ele!

Logo em seguida, Martinho levantou-se e sorriu. Sua figura foi esvaindo-se, lentamente, até que no ambiente só ficassem dois homens chorando como crianças.

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