3 - O DOENTE

Autor: Pablo de Salamanca


José era um homem doente. Padecia de um mal crônico. Assim, havia períodos em que se via forçado a ficar internado em um hospital, onde se tornou bem conhecido.

Doutor Raul, que sempre cuidava de José nas fases mais agudas da doença, era mais que um médico para o paciente.

Naquela tarde, mais uma vez se encontravam na enfermaria do hospital. Doutor Raul, ao ver José, logo falou:
- Ô José, estava com saudades de mim e veio me visitar!
O paciente, tentando ser simpático, em meio ao desconforto, retrucou:
- Doutor Raul está de brincadeira, não é? Se fosse para encontrar o senhor, seria melhor na beira da praia... tomando uma água de coco...
O médico sorriu e logo colocou:
- Ô Zé, vamos combinar então! Você vai fazer as medicações direitinho, vai fazer a dieta e, da próxima vez, combinamos a praia!
O doente se esforçou para rir e balançou a cabeça afirmativamente. Então, aceitou resignadamente a injeção que uma enfermeira trazia. Logo dormiu, para acordar novamente só no dia seguinte.

Pela manhã, perguntou a uma auxiliar de enfermagem a que horas o Doutor Raul iria vê-lo. E teve como resposta:
- Só às 18:00 horas. Por ora, o senhor precisa se alimentar.
Como ela lhe apresentava uma bandeja, com um conteúdo não desejado, José fez uma careta. Mas, teve que se conformar...

Mais tarde, após um novo sono profundo, José despertou. Não demorou e indagou a primeira pessoa que viu:
- O Doutor Raul já chegou?
Uma jovem, com roupa típica de hospital, o atendeu com muita atenção:
- Seu José, o médico daqui a pouco vai passar para fazer uma revisão no seu estado.
O paciente, um tanto atordoado, teve forças para dizer:
- Eu queria falar com o Raul. Não é ele que vai me avaliar?
A moça, a seguir, o esclareceu:
- Quem virá hoje é o Doutor Carlos.

José aquietou-se, mas pensou no porquê o seu médico conhecido não estava ali. Será que algum problema teria acontecido com ele?

Depois, de fato apareceu um médico diferente, que se apresentou cordialmente:
- Como vai José? Meu nome é Carlos e estou aqui para ajudá-lo.
O doente teve boa impressão quanto ao profissional, mas não deixou de indagar, após ter trocado umas palavras e queixar-se de seus sintomas:
- Doutor, o senhor tem alguma notícia do Raul? Não me leve a mal, mas ele sempre cuidou de mim. Ele está com algum problema?
Carlos não parecia muito disposto a falar sobre o Raul, nem muito menos sobre a vida particular dele. Assim, desconversou:
- Seu José, não se preocupe com Doutor Raul. É melhor, no momento, pensar na sua recuperação.

Depois de ouvir o homem de branco, José preferiu acomodar-se e esperar. Mais cedo ou mais tarde, chegaria o plantão do Doutor Raul, pensou o doente.

No entanto, após vários dias, apenas Doutor Carlos vinha vê-lo. Além disso, José andava muito sonolento. Por isso, numa das revisões do novo médico, o paciente questionou:
- Doutor Carlos, ando com muito sono. Não me recordo de ter visto o Raul. Ele passou por aqui, enquanto eu dormia? E nos dias de visita, meu filho veio me ver?
O médico permaneceu em silêncio e, por isso, José voltou a divagar:
- Doutor, o meu filho é vendedor e trabalha viajando muito. Deve estar longe no momento. Mas, o Raul, aconteceu alguma coisa com ele? Não estou com um bom pressentimento... Ele foi despedido do hospital ou aconteceu algo pior?
Doutor Carlos, então, manifestou-se:
- Seu José, o que posso dizer é que ele está muito bem, mas não poderá vir até aqui...
O paciente, a seguir, assinalou:
- Então está de férias, não é? Sendo assim, estou até aliviado, porque eu já pensava no pior. Um homem bom, como aquele, não poderia morrer tão jovem!
O médico, em seguida, salientou:
- Tudo na vida é passageiro, seu José. Esta doença que lhe aflige é passageira e a própria morte, que o senhor citou, também não é algo definitivo.
José não esperava ouvir aquela declaração e, desta forma, indagou:
- O Doutor acredita na vida após a morte?
E Carlos esclareceu:
- A vida permanece. Ela é sempre vitoriosa... Agora descanse, para recuperar-se mais rapidamente.

Após o diálogo, José adormeceu. No entanto, desta vez, teve sonhos muito vívidos. Quando despertou, estava ao pé da cama o Doutor Carlos. O paciente logo tratou de falar:
- O senhor precisa me ouvir. Tive um sonho muito estranho.
- Conte-me tudo, seu José (disse o médico).
- Bem, eu vi uma linda senhora de cabelos negros e compridos. Ela usava longo vestido azul, mas tinha um brilho prateado em volta. Ela se aproximou de mim e me pegou no colo, como se eu fosse um bebê. Eu tinha sono, mas pude ver tudo!
- Conte-me mais (estimulou o médico).
O doente continuou:
- Então, ela me levou para um passeio. Nós flutuávamos. Passamos por cima do mar e descemos numa praia. Dali, fomos até a minha casa. Vi minha cama vazia. Meu filho estava triste e até chorou.
- Mais alguma coisa (questionou Carlos)?
- Sim, Doutor. Vi rapidamente minha mulher, já falecida. Ela estava feliz. Mas, depois, vi uma lápide de cemitério e nela estava meu nome... Então, fiquei nervoso, confuso, e só lembro de estar nos braços da senhora de vestido azul. Ela era linda, sabe?
O médico permaneceu em silêncio, observando fixa e serenamente os olhos do paciente. Então, José perguntou timidamente:
- Doutor, eu morri?
Carlos logo esclareceu:
-Não José, eu e você estamos vivos. Apenas não temos mais o corpo físico.

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