2 - VÔ JOÃO

Autor: Pablo de Salamanca


Raul estava no ponto de ônibus, às 18 horas. Seu turno de trabalho era à noite e, por isso, sempre pegava condução praticamente vazia, quando o fluxo maior de trabalhadores era contrário ao seu trajeto.

Estava um pouco impaciente, quando o coletivo dobrou a esquina e se aproximou de onde se localizava. Ele subiu no ônibus, pagou a sua passagem e se admirou pelo veículo estar com quase todos os lugares ocupados. Só havia a opção de sentar ao lado de um senhor negro idoso, próximo ao motorista. Raul não titubeou e logo se acomodou ao lado daquela pessoa.

A viagem duraria, como sempre, entre 50 minutos e uma hora. Assim, tentaria tirar um cochilo, como normalmente fazia. No entanto, depois de alguns poucos minutos, desistiu. Raul estava estranhamente desperto e, por isso, passou a analisar o homem ao seu lado. O velho usava roupas humildes, calçando sandálias de couro. Tinha mãos calejadas, como o pessoal da roça, e estava perfumado. Parecia ser cheiro de alfazema. 

Num dado instante, aquele senhor negro puxou assunto, perguntando:
- O moço está indo trabalhar não é mesmo?
Raul, simpatizando com o idoso de cabelos quase todos brancos, respondeu:
- Sim senhor! Mas, como adivinhou?
O velho, em seguida, colocou:
- É fácil perceber que o moço é bom trabalhador...
Raul sorriu e assinalou:
- Eu tenho que trabalhar direito, porque eu lido com vidas. Não posso falhar! Sou enfermeiro.
O idoso, então, esticou a conversa:
- Muito importante o seu trabalho, viu!? Deus abençoe sua tarefa. Eu já trabalhei bastante, mas foi na roça. Plantei e colhi muito na minha vida, mas não desisti ainda não. Continuo jogando umas sementes na terra...

Após um intervalo no diálogo, percebia-se que o coletivo estava silencioso. Embora todos os lugares estivessem ocupados, ninguém conversava. Só havia o ruído do motor e a troca de palavras intermitente entre Raul e o homem desconhecido. O enfermeiro, então, se apresentou e perguntou:
- Qual o nome do senhor?
E teve como resposta:
- Meu nome é João, mas como eu tenho muitos filhos e netos, me chamam “vô João”.
Raul resolveu brincar com velho e disse:
- Ah! Então o “vô João” não foi bobo não, hein?! Quantos filhos o senhor fez?
O idoso sorriu e não tardou na resposta:
- Ah, moço! Eu já perdi a conta. Mas uma coisa é certa! Nunca faltei com a responsabilidade. Labutei de sol a sol para não faltar com o sustento deles.
- Então, o senhor teve uma vida difícil...
Isto concluía o Enfermeiro, quando o velho voltou a falar:
- Não posso me queixar não, moço, porque eu colhi o que plantei. Alguns filhos até reclamavam da pobreza, mas eu não dei só comida! Dei bons conselhos e ensinei que a honestidade não tem preço!
Raul, em seguida, assinalou:
- É “vô João”, o senhor fez o certo! Nem só de pão vive o homem!
O idoso logo comunicou:
- Muito bem, meu filho, você tem boa visão da vida. Você está no caminho certo!

Um novo silêncio se fez no ônibus. Parecia que todos prestavam atenção no diálogo entre o enfermeiro e o homem de idade. Percebendo que o “vô João” ficou quieto e de olhos fechados, Raul não o interpelou por um tempo, mas ficou analisando a sua postura e imagem. Sentiu que ele emanava paz.

Quando o idoso abriu os olhos, Raul indagou:
- O senhor ainda trabalha?
“Vô João”, em breve, respondeu:
- Sim, moço! Como eu falei antes, ainda jogo algumas sementes na terra...
Raul ia retrucar alguma coisa, quando o velho colocou:
- Meu filho, vai perder o seu ponto. Está na hora de você saltar. Deus te abençoe e também ao seu trabalho.
Então, Raul percebeu, surpreso, que o homem tinha razão. Estava completamente distraído e logo fez sinal ao motorista. Quando o ônibus parou em frente ao hospital, o enfermeiro acenou e se despediu:
- Fique com Deus “vô João”!

Logo após Raul saltar do coletivo, o motorista comentou com um passageiro próximo:
-Tá vendo aí?! É cada maluco que aparece! Falou sozinho a viagem toda!
O passageiro respondeu, de bate-pronto:
- Pois é, estou só com minha mulher aqui. O ônibus está praticamente vazio e o homem conversou como se tivesse alguém do lado dele, na janela. Deve ser um drogado!

No entanto, ao contrário do que o motorista e o casal de passageiros pensava, o coletivo estava cheio. Num banco próximo, estava “vô João”, agora de olhos fechados novamente. Parecia bem concentrado em algo.

No ponto final do ônibus, o idoso negro saltou calmamente e, atrás dele, os demais passageiros desencarnados o seguiram. Formaram uma espécie de fila e caminhavam na direção de uma igreja. Contudo, antes de adentrarem no templo, sumiram através de um portal de luz. O trabalho do “vô João” era o de encaminhar almas perdidas...

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