11 - O ADVOGADO

Autor: Pablo de Salamanca


Rômulo acabava de erguer a cabeça, que descansava sobre seus braços, apoiados sobre aquela mesa de bar. Estava sonolento e confuso, procurando entender o que fazia ali. Não recordava como chegou naquele local, onde predominava o cheiro de álcool e cigarro. O barulho ambiente não lhe ajudava a concatenar as ideias, embora, agora, já se encontrasse mais lúcido, pois o sono se dispersava com o vozerio do entorno.

Então, subitamente, o advogado teve a sua atenção voltada para a sua esquerda, porque na cadeira ao lado acabava de se sentar um sujeito esquisito e falastrão. Este homem, que conversava com outros passantes, a seguir se dirigiu a Rômulo:
- Seja bem-vindo, doutor!
O advogado, surpreendido com a companhia inesperada e um tanto invasiva, limitou-se a colocar:
- Desculpe, você me conhece de onde?
Logo veio a resposta:
- Ora, doutor, você é meu amigo de longa data e não se lembra de mim?!

Rômulo, desconfiado e sob certa perturbação, olhou bem a fisionomia de seu interlocutor, tentando lembrar alguém do passado. Talvez fosse um colega de faculdade ou alguém a quem tivesse defendido na justiça há alguns anos... Mas, o fato é que não se recordava daquele indivíduo, que voltou a se comunicar:
- Ô doutor, somos sócios de muita coisa! Eu, você e os amigos aqui em volta somos parceiros antigos!

Ao fazer esta observação, o intruso estendeu os braços, indicando várias pessoas naquele ambiente, que, naquele instante, prestavam atenção à mesa onde Rômulo estava. O advogado ficou mais atônito ainda, ao notar melhor a turma em volta, a maioria homens vestidos de forma estranha, meio sujos e com roupas surradas ou amarrotadas. Havia algumas mulheres, que francamente tinham similaridade com meretrizes, devido ao seu gestual e trajes reduzidos.

Rômulo permaneceu quieto. Não sabia o que dizer. Acabou pensando que talvez tivesse bebido, misturando o álcool com algum de seus remédios para dormir, já que sua consciência, ultimamente, lhe acusava de certas atitudes pessoais e profissionais, impedindo-o de ter boas noites de sono. Naquele momento, chegou a se indagar até mesmo se não estava tendo um pesadelo. Contudo, o homem ao seu lado pareceu ter lido o seu pensamento, pois falou:
- Você não está bêbado, nem sonhando. O doutor está aqui conosco, porque é nosso amigo e camarada. É até mais que isso! É nosso sócio e irmão de sangue!

Após esta fala, em tom jocoso, ouviram-se várias gargalhadas naquele bar ou taberna, em verdade um local de difícil classificação sobre o que realmente era, pois assemelhava-se a vários tipos de estabelecimento. Seria talvez um misto de prostíbulo, boteco e restaurante porque, além do mais, haviam pessoas próximas, que comiam alimentos gordurosos em pratos toscos e outras bebiam, fartamente, algo parecido com cerveja. 

Rômulo, agora, estava amedrontado. Não sabia o que fazer ou dizer. Sentia-se desnudado perante aquele grupo. Parecia, a ele, que aquelas pessoas podiam penetrar na sua mente. Com este sentimento, se perguntou se o que andava fazendo como advogado era do conhecimento deles. E a resposta não tardou, por parte do “companheiro” ao lado:
- Doutor, você é um dos nossos. Já ajudou até a soltar três irmãos com aquele dinheiro, não é mesmo?

Então, várias gargalhadas ecoaram, mais uma vez, naquele ambiente. Rômulo estremeceu, internamente, por perceber que sabiam de seus subornos. As quantias vultuosas que o crime organizado vinha lhe passando não eram para usos nobres...

Entretanto, em seguida formou-se um tumulto, após alguém avisar aos gritos:
- Sujou! Sujou! Os soldados estão na área!
Houve correria, com os frequentadores da taberna evadindo-se do local. Rômulo não sabia o que fazer e, tendo-se levantado, não pôde se movimentar, porque agora dois homens, usando longos sobretudos negros, o seguravam pelos braços. Estes conduziram o advogado numa direção, para a qual o mesmo não conseguiu vislumbrar, pois acabou perdendo a consciência. Enquanto o advogado era praticamente arrastado dali, notava-se que alguns frequentadores do bar também haviam sido capturados.

Mais tarde, Rômulo voltou à lucidez. Estava sentado numa cadeira baixa, de frente para uma larga mesa, atrás da qual permanecia um homem branco, de olhos claros, vestido de toga. Logo o advogado percebeu que estava numa espécie de tribunal. Tudo no novo ambiente se assemelhava a isto. O homem caucasiano dirigiu-se a Rômulo, sem delongas, apontando-lhe algumas falhas. Na sequência, indagou:
- Você deseja se defender?

O advogado sabia que tinha condições intelectuais para argumentar, mas sentia-se intimidado. Olhava no entorno e se perguntava se não estava sonhando. Percebeu, também, que naquele suposto tribunal estavam presentes outras pessoas, que poderiam ser testemunhas por exemplo, bem como homens que pareciam ser guardas, embora as suas roupas não fossem as tradicionais. Além disso, avaliou que algumas formalidades e ritos, aos quais estava acostumado, não ocorriam ali. O que estaria acontecendo? Esta era a pergunta mental que fazia. Mas, seus pensamentos foram interrompidos pelo homem que cumpria o papel aparente de juiz:
- Você vai defender a si próprio?

Rômulo, voltando à realidade, respondeu que sim, embora estivesse inseguro quanto ao que estava acontecendo. Entretanto, passou a acreditar que estivesse sob o efeito de algum remédio que tomara anteriormente, que distorcia um pouco suas percepções e raciocínio.

Em seguida, alguém narrou detalhadamente várias ações que Rômulo vinha realizando ultimamente, despindo-o perante todos. O advogado indignou-se, porque aquilo seria o fim de sua carreira. Ele logo protestou, dizendo:
- Calúnias! Quem me acusa e com quais provas?

Para a sua surpresa, desceu do teto uma grande tela, onde foram projetadas as imagens de alguns delitos do advogado. O silêncio tomou conta do ambiente. As imagens eram definitivas quanto à culpabilidade de Rômulo, que se calara, atônito. Ele pedia a Deus, interiormente, que aquilo fosse apenas um desagradável pesadelo. Então, a voz do juiz voltou a ser ouvida:
- Rômulo, você cometeu erros graves que atentam contra a ética de sua profissão e contra a sua real missão na Terra. Aliou-se ao crime organizado e até mesmo ajudou a ocultar um cadáver, para livrar um dos seus clientes. O que espera de sua vida, daqui para a frente?

O advogado ficou muito surpreso com a pergunta, pois esperava tão somente uma dura sentença, embora aquele julgamento não seguisse os passos aos quais estava acostumado. Após instantes de reflexão, sentiu uma luz no âmago do seu ser. Ajoelhou-se no piso do tribunal, de cabeça baixa, mas falou com vigor e sinceridade:
- Se eu pudesse escolher um rumo para a minha vida torta, eu abdicaria de todas as causas que venho defendendo. Devolveria ou doaria o dinheiro sujo que já recebi e me desvincularia daqueles que me contrataram. Eu recomeçaria tudo de forma diferente, porque já não durmo em paz. Minha consciência me acusa! Não consigo me olhar no espelho! Tenho repulsa por mim mesmo!

Após a fala do advogado, surgiu estranho som repetitivo no tribunal, como pancadas ou choques de rocha contra rocha. Rômulo, espantado, levantou a cabeça na direção do juiz, porque era de lá que vinham os estrondos. O advogado, então, notou uma névoa à frente dele. Rapidamente, ela se dispersou e o magistrado estava diferente. Agora, o juiz era um homem de pele morena e longa barba escura. Segurava dois machados de lâminas duplas, com os braços cruzados sobre o peito. Mas, a voz que se ouviu de sua boca era a mesma de antes, trazendo a sentença:
- Assim você agirá, a partir de agora, com os seus 42 anos de idade na Terra. Ainda tens tempo para a correção. Cumpra o que falastes e o final de sua vida não será tão amargo. Mas, se falhares, o peso da Lei virá sobre ti com todo o vigor. Assim determino! Assim é.

Ao dizer isto, o juiz ergueu os dois machados. Este foi o sinal para que os dois homens, que haviam trazido advogado, o levassem de volta ao seu corpo material, que jazia dormindo em sua confortável cama, no Plano Físico.

Rômulo, em seguida, despertou em seu leito. Notou que o seu corpo estava encharcado de suor. Depois daquela inesquecível experiência fora do corpo, o advogado transformou-se profundamente...


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