10 - O MENDIGO

Autor: Pablo de Salamanca


O homem dormia no chão, como todos os outros dias, nos últimos anos. Às vezes, aproveitava uma marquise, mas, em outras oportunidades, ficava ao total relento. Ele não se considerava como mendigo, porque ganhava a vida coletando materiais e vendendo para a reciclagem. Pelas suas mãos passavam latas, papelão, plásticos e metais diversos que carregava num carrinho de madeira, construído por ele mesmo. No entanto, como era confundido como se fosse um mendigo comum, volta e meia alguém lhe dava uns trocados sem que pedisse, o que não era negado por ele, já que sua vida era difícil.

Agora, o homem acabava de despertar, devido a um incômodo das moscas sobre algumas feridas, que haviam surgido recentemente, principalmente em seus braços e pernas. Em seguida, levantou preocupado em comer algo. Examinou os bolsos, encontrando algumas moedas oriundas da venda de papelão, no dia anterior. Foi até a esquina, onde havia uma padaria. Comprou pão e um litro de leite. Aquela seria a sua refeição até a noite, quando tentaria obter algum alimento, após a venda de mais materiais recicláveis.

O seu dia transcorreu sem maiores novidades. Vasculhou lixeiras e percorreu ruas, tendo algum sucesso em encontrar o seu sustento. No entanto, no final da tarde, sentiu um mal-estar. Comeu apenas um pão doce, comprado na mesma padaria de costume, tomou outro leite e buscou um lugar para dormir, naquele bairro preferido para levar a sua vida. Deitou-se com uma forte dor de cabeça, mas não demorou a pegar no sono. 

Na nova manhã, a dor de cabeça não existia mais. Restava, entretanto, a coceira das feridas. Sentou-se sobre um cobertor, que era uma improvisação de uma cama e raciocinou que precisava de um banho, para lavar aqueles ferimentos, que surgiram espontaneamente. Para a sua surpresa, ouviu uma voz à esquerda, que dizia:
- Eu sei onde você pode lavar estas feridas e ficar curado.
O morador de rua se virou e viu quem lhe dava a dica. Era um homem alto, bem arrumado, que trajava um fino terno negro. Neste contexto, o doente indagou-se silenciosamente porque aquele homem se preocuparia com ele. Mas, seu interlocutor voltou a falar:
- Se você quiser, levo você lá. É uma fonte d’água que cura mazelas e feridas.
Então, o reciclador de materiais respondeu humildemente, mas um tanto incrédulo, quanto àquela ajuda inesperada:
- Se não for incômodo para o senhor, eu quero ir sim. Não tomo banho há muito tempo. É longe?
Logo veio a resposta:
- Não, apenas teremos uma boa caminhada a pé. A fonte fica próxima de onde eu trabalho.

Assim, o mendigo ocasional tratou de se levantar, tão rapidamente quanto o possível. Juntou seus parcos pertences e colocou no carrinho de madeira, seguindo o homem de terno preto.

Depois de alguns minutos caminhando, o guia daquela curta viagem dobrou uma esquina, atingindo uma grande encruzilhada. Ele parou, sendo imitado pelo coletor de papelão. Então, o homem de preto tomou o caminho da esquerda, o que deixou o catador um tanto cismado, mas preferindo ficar calado. Percorreram mais cerca de 500 metros e pararam novamente, o que deu a oportunidade para uma pergunta do morador de rua:
- É aqui que o senhor trabalha?
Após um breve intervalo, veio o esclarecimento:
- Sim, eu trabalho no cemitério.
O indigente tornou a indagar, em tom quase de brincadeira:
- Mas, o senhor não é coveiro, não é mesmo?
O homem respondeu:
- Não, eu trabalho na administração. Está com medo de entrar no cemitério?
- Não senhor! A morte, para mim, poderia até ser boa...

A seguir, se fez um silêncio entre ambos, que estavam parados diante do grande portão de ferro, do cemitério municipal. Depois de um tempo, o homem de terno preto colocou:
- Lá na parte de trás, perto do último cruzeiro, tem um pequeno morro. Se você quiser se curar de verdade, vai ter que subir um pouco até uma pedra redonda. Ali mina a água que cura. Quer vir mesmo comigo?
O reciclador não demorou a se comunicar:
- Quero sim senhor!

Após a resposta, vindo do interior do cemitério, surgiu um outro homem de terno escuro, que parou na entrada do local. O condutor do morador de rua fez um sinal, que foi correspondido pelo indivíduo que acabara de aparecer. Em seguida, os dois adentraram o campo santo. Depois de um minuto, já dentro do local, o reciclador arriscou uma pergunta:
- Este moço aí que apareceu é seu colega de trabalho?
O homem de terno preto, em seguida, comentou:
- Sim, ele também trabalha na administração.

Na sequência, o diálogo foi interrompido. Naquele momento, como não havia qualquer enterro em andamento, só se ouvia o barulho das rodas de rolimã, do carrinho puxado pelo indigente. As capelas estavam vazias e só havia algum movimento num pequeno prédio administrativo do cemitério. O mendigo ocasional, então, pensou que era ali que trabalhava o homem que o conduzia. Ficou feliz com a bondade em lhe levar para tomar um banho.

Depois de alguns minutos, chegaram a uma grande cruz no final do campo santo. De fato, atrás do cruzeiro havia um morro com uma pedra mais acima, como descrito pelo homem de preto. Este voltou a falar:
- Vá lá na pedra! Deixe seu carrinho aqui, que eu tomo conta. Não precisa ter pressa.

O morador de rua agradeceu e iniciou sua subida, de início bem fácil. Entretanto, conforme subia, sentia alguma dificuldade. O sol já estava alto no céu. Parecia ser quase meio-dia e o calor era intenso. O pobre homem, em poucos momentos, suava abundantemente. Olhou para trás, pensando até em desistir, mas viu o homem de preto sentado numa catacumba, mirando-o com um olhar fixo. Teve vergonha de voltar e se esforçou para chegar até a pedra, avançando mais alguns metros acima. Então, parou para um novo breve descanso, escorando-se num tronco de árvore. Faltava pouco e já podia ouvir o barulho de uma água que corria, entendendo que era a fonte.

Resolveu olhar para baixo, mais uma vez, e viu que o seu condutor agora tinha a companhia de uma bela mulher. Ela estava sentada do lado dele, sobre a catacumba. Sua pele, muito clara, reluzia ao sol, fazendo um contraste hipnotizante com o seu longo vestido de veludo negro. O adoentado ficou um tempo estático, observando as duas figuras lá embaixo, próximas ao seu carrinho de madeira. Mas, o seu estado de transe foi quebrado por um gesto do homem, que agora apontava a pedra logo acima. O reciclador voltou-se para o alto, fazendo novo esforço e atingindo a grande pedra. Ficou quase em êxtase, quando percebeu que uma água muito limpa escorria sobre a rocha, indo parar numa concavidade, que formava um pequeno lago. Este estava dourado, pelo reflexo da luz do sol. 

O indigente logo pôs-se a sorrir. Aquilo parecia um pedaço do paraíso, aqui na Terra. Acelerou sua marcha e caiu de joelhos na borda do lago. Passou a lavar seus braços, sentindo um grande alívio para a coceira impertinente. Tirou a camisa e mergulhou no local. Sentia-se bem, cada vez melhor, conforme se lavava com aquela água. O homem de preto tinha razão, pensava ele. A seguir, clamou em voz alta:
- Ele não mentiu! Ele não mentiu!
O mendigo, como se estivesse inebriado, começou a gargalhar. Atingia uma espécie de êxtase. Tinha uma alegria, que nunca havia experimentado antes.

No entanto, depois de um tempo neste estado, lembrou do seu condutor, lá embaixo. Raciocinou que precisava descer, agradecer ao homem de preto e ir embora com o seu carrinho de madeira. 

Acalmou-se e procurou a camisa que havia tirado. Logo a pegou, mas quando ia vesti-la, reparou que as feridas de seus braços não existiam mais. Ele estava curado! Aquilo era um milagre! O mendigo chorava, sentado na beira do lago. Aquele era o dia mais feliz de sua sofrida vida.

As águas, muito limpas, voltaram a ficar serenas após o seu agitado banho. O sol tornava a se refletir na superfície, mas o indigente, em meio às lágrimas, notou que algo diferente estava acontecendo. Agora, as águas refletiam uma outra figura. Alguém muito alto chegava por trás. O reciclador, virando-se, notou um grande homem. Não era possível ver o seu rosto, que estava coberto por palhas, que se estendiam até os seus pés descalços.

Em poucos instantes, este Senhor das Palhas envolveu aquele sofredor, retirando-o do Plano Terreno. O indigente, sem que percebesse, havia desencarnado na noite que fora dormir com a forte dor de cabeça. Ali, no campo santo, as únicas testemunhas do fato foram o homem de terno preto e a dama sentada ao seu lado.

Clique aqui e deixe um comentário!


LIVRO DE VISITAS



VOLTAR PARA A PÁGINA ANTERIOR