1 - O ALMOÇO DE JONAS

Autor: Pablo de Salamanca


Jonas perambulava pelas ruas do Centro da Cidade do Rio de Janeiro. Tinha fome e pensava que já estava na hora de fazer uma nova refeição. Sentiu um aroma de boa comida e se permitiu ser guiado pela mistura de cheiros de tempero.

Logo estava em frente a uma larga porta de vidro, aberta ao público passante. Estacou na entrada do estabelecimento comercial, um restaurante a quilo, entendendo que era dali que vinham os aromas atrativos. Ele, então, entrou e apanhou um prato. Percorreu uma sequência de recipientes com diversos tipos de alimento, desde saladas, até carnes variadas. E o feijão? Ah o feijão! Como ele queria comer uma feijoada! Ali não havia uma típica feijoada, mas tinha feijão preto e o mulatinho. Estava decidido! Era naquele local, que ele comeria.

Assim, Jonas passou a se servir um pouco de cada opção. Um pouco de quase tudo! Logo estava sentado, sorvendo cada garfada, com um profundo prazer. Mas, esta satisfação não durou muito! Vindo da cozinha do estabelecimento, um senhor quase calvo, mas com um farto bigode grisalho, abordou Jonas:
- O senhor não pesou a comida! Faça o favor de pesá-la!
Jonas, surpreso com a sua falta de atenção, colocou:
- Desculpe-me a distração! Não foi por mal!
O dono do restaurante retrucou, em tom azedo:
- Já estou cansado de espertinhos! A balança está logo ali, à vista de todo mundo! Quase todo dia é a mesma coisa! Sempre aparece um que não quer pagar!
Jonas, envergonhado, repetiu que não havia agido de má-fé e, para provar, disse:
- Vou mostrar ao senhor que tenho dinheiro para pagar! Aliás, qual o seu nome?
E o velho respondeu, sem paciência:
- Manoel! Meu nome é Manoel! Mas, cadê o dinheiro?
Agora, Jonas vasculhava o seu bolso direito. Depois, o esquerdo. Nada encontrando, mexeu nos bolsos de trás da calça, constatando estar totalmente desprovido. Então, falou:
- Eu fui roubado! Só pode ser isso! Nem meus documentos estão comigo!
- Passa fora! Passa fora! (disse, rispidamente, o dono do estabelecimento)

Entretanto, quando o velho Manoel já avançava contra Jonas, foi subitamente parado por uma voz firme:
- “Manel”, eu já não te avisei que aqui não é mais o seu lugar!
A voz vinha da entrada do restaurante. Ali estava um homem de elevada estatura, bem arrumado, com uma calça preta, camisa encarnada e, sobre ela, uma espécie de casaco negro semiaberto. Depois de uns instantes de silêncio, Manoel falou em tom manso, quase de súplica:
- É verdade, mas eu só sei fazer isso! Se, ao menos, pudesse ter a Maria do meu lado de novo...
A seguir, o homem tornou a se comunicar:
- “Manel” não é possível trazer Maria aqui, mas tem alguém que quer ver você há muito tempo.
Então, de trás do homem, surgiu pequena figura feminina. Era uma velha senhora, que se adiantou suavemente, vestida como uma camponesa portuguesa. Manoel arregalou os olhos e disse:
- Minha mãe! Minha mãe querida!
O velho, em seguida, caiu de joelhos. Chorava como uma criança. A senhora se moveu e o abraçou longamente.

Jonas estava paralisado vendo aquela cena surreal. Estava confuso. Em sua mente, surgiram perguntas. Como aquela senhora, que aparentava ter a mesma idade do dono do restaurante, poderia ser sua mãe? Porque as pessoas que comiam, em suas mesas, ignoravam tudo o que estava acontecendo ali?

Mas, agora, novo fato transcorria. A idosa senhora parecia brilhar. Sim! Realmente brilhava! E a luz ia aumentando e envolvendo Manoel. Então, sem que houvesse qualquer aviso, ambos sumiram num facho luminoso.

No ambiente, restavam Jonas, quatro pessoas que almoçavam tranquilamente, dois funcionários do estabelecimento comercial e o homem quase todo vestido de preto, na entrada do restaurante. O local só não estava totalmente silencioso, porque se ouvia o tilintar de talheres dos fregueses e alguns sons provenientes da cozinha. Entretanto, o alto homem que antes abordara o senhor Manoel apontou Jonas e indagou:
- E você, moço, já entendeu a situação?
Jonas, embora com a cabeça fervilhando, chegava à conclusão de que não pertencia mais ao chamado “mundo dos vivos”. Apesar de sentir-se vivo, como sempre, agora recordava dos momentos que precederam a sua súbita morte física. Não queria crer, mas estava desencarnado. 

Ele tentou pegar no garfo, que era uma plasmagem frágil, oriunda de sua mente. O talher se esvaiu como fumaça. O prato de comida ainda estava lá, pois Jonas havia de fato retirado parte da essência dos alimentos, que estavam à disposição do público. Na sequência, Jonas sentiu o seu entorno girar. Ia desfalecendo, mas não caiu. Agora o amparava, o homem de preto.

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