ARTIGO 9 - DOGMATISMOS

Autor: Pablo de Salamanca

Escrito em 16 de fevereiro de 2011.

Para falar sobre dogmatismo, inicialmente é preciso compreender a palavra dogma. Segundo definição de dicionário(1), o termo vem do grego dógma, e significa: 1- “ponto fundamental e indiscutível de uma doutrina religiosa, e, por extensão, de qualquer doutrina ou sistema”; e 2- na Igreja Católica Apostólica Romana, é “ponto de doutrina definido como expressão legítima e necessária de sua fé”.

A partir das definições apresentadas, observemos o que há em dicionário(1) sobre dogmatismo: 1- “doutrina que afirma a existência de verdades certas e que se podem provar indiscutíveis”; 2- “adesão irrestrita a princípios aceitos como indiscutíveis”; e 3- “atitude sistemática de afirmação ou negação”.

Com o panorama fornecido pelas conceituações acima, pretendemos discutir vários aspectos de dogmatismo que permeiam a nossa sociedade, demonstrando que uma postura dogmática é mais prejudicial do que benéfica.

Bem, o título do presente artigo está no plural, porque há vários tipos de pensamento/ação dogmáticos. O primeiro tipo que vamos abordar é o dogmatismo religioso. Por exemplo, vamos citar dois dogmas do Catolicismo: a Santíssima Trindade (doutrina que professa a Deus único em três pessoas distintas – o Pai, o Filho e o Espírito Santo); e a Ressurreição de Jesus (após a sua morte, ressuscitou ao terceiro dia). No entanto, a postura dogmática não está fundamentalmente apenas no meio católico. Outros agrupamentos religiosos têm como forte característica o dogmatismo. E isto, ao longo de séculos, tem levado a disputas ideológicas, que, não raras vezes, culminaram em conflitos e até em guerras. Na época das Cruzadas, morreram em torno de nove milhões de pessoas, nas contendas entre cristãos e muçulmanos. Em 1572, na chamada “Noite de São Bartolomeu”, cerca de 70 mil protestantes, ou suspeitos de serem protestantes, foram mortos por católicos. Antes da ascensão dos nazistas ao poder havia 503 mil judeus na Alemanha, e, após a Segunda Guerra Mundial, em 1950, restaram apenas 15 mil(2). Portanto, se considerarmos esta pequena amostra de fatos históricos, é fácil compreender porque o dogmatismo no campo religioso é tão negativo, muito embora a religião, frequentemente, esteja fortemente relacionada a questões políticas/“de poder”, sendo comumente utilizada como pretexto para conflitos. Nos dias de hoje, posturas dogmáticas permanecem em grande parte dos agrupamentos da fé, de diversas origens, contudo nem sempre de forma ostensiva.

Agora, vejamos o que ocorre no teoricamente “campo oposto” ao da religião: o mundo dos denominados “céticos”. Recorrendo a um dicionário enciclopédico(3), cético é “aquele que não crê, que duvida de tudo; descrente; desconfiado; partidário do ceticismo; diz-se de certos filósofos cujo dogma era duvidar de tudo”. São muito interessantes estas definições, sobretudo a última, que reforça o nosso entendimento de que um cético típico, é uma pessoa dogmática. Ou seja, temos um dogmatismo ceticista. Isso mesmo! Um religioso ortodoxo, tanto quanto um verdadeiro cético, são, ambos, partidários do dogmatismo. O que os diferencia é a direção do dogmatismo praticado: um crê nos dogmas religiosos, e o outro crê no dogma de duvidar sistematicamente. Ambos estão distantes do legítimo espírito científico, que cria hipóteses e as testa através de experimentos controlados, plausíveis de repetição, de modo a obter conclusões úteis e isentas de paixão.

Então, chegamos à questão do meio científico. Mas, ele não está livre de dogmas e de posturas tendenciosas, que se traduzem num dogmatismo científico. E existem muitos exemplos disso que, inclusive, são históricos. Lembremos de Thomas Alva Edison que, no final do século XIX, inventou a lâmpada elétrica. Na sua época, muitos cientistas entendiam que a luz elétrica era uma idéia absurda. Edison também criou o fonógrafo. E este aparelho incomodou a certeza dogmática de um doutor da Academia de Ciências da França, que, ao assistir o físico Du Moncel apresentar o fonógrafo de Edison, bradou: “- miserável! Nós não seremos ludibriados por um ventríloquo!” O hoje reverenciado Louis Pasteur, no seu tempo, foi execrado por seus colegas da Academia Francesa de Medicina, quando defendeu a hipótese de que micróbios, invisíveis a olho nu, eram os verdadeiros promotores das infecções. O mesmo Pasteur, quando atribuiu a fermentação a micro-organismos, provocou a seguinte reação do renomado químico Justus von Liebig: “- isso é o mesmo que dizer que a torrente do Reno é causada pelas rodas dos moinhos.” Quando os primeiros trens a vapor estavam em desenvolvimento, havia uma forte preocupação dos homens de ciência da época, de que a velocidade de 50 km/h iria sufocar os passageiros. Quanto a Santos Dumont, muitos dos seus contemporâneos achavam ser impossível, que um veículo mais pesado que o ar voasse. Neste caso específico, é bem interessante que o dogmatismo impediu que alguns desses cientistas lembrassem que as aves são mais pesadas que o ar, mas simplesmente voam! E com o voo do 14 bis, o dogma científico de que o “mais-pesado-que-o-ar” não sairia do chão, caiu por terra! Nos dias de hoje, embora algumas pessoas creiam que o meio científico já está menos dogmático, temos casos flagrantes de um posicionamento ceticista-dogmático. Para citar um, sem entrar no mérito da pesquisa em tela, vejamos o que diz Joachim Krueger, da Universidade Brown, à revista britânica New Scientist, sobre o trabalho de oito anos de Daryl Bem (Universidade Cornell) acerca da capacidade humana de prever o futuro(4): “- minha opinião pessoal é que isto é ridículo e não pode ser verdade. Verificar a metodologia e o planejamento do experimento é a primeira linha de ataque. Mas, francamente, eu não consegui achar nenhum problema. Tudo parece estar na mais perfeita ordem.” O trabalho de Daryl Bem foi publicado pelo Journal of Personality and Social Psychology.

Como entendo que este artigo já está um pouco longo, pretendo dar-lhe um fechamento a partir deste ponto. Assim, assinalo que os dogmatismos são de muitos tipos. Embora eu tenha salientado mais detidamente o dogmatismo religioso, o ceticista e o científico, é evidente que a postura dogmática é uma característica profundamente humana. Uns a possuem em maior grau e outros em nível mais moderado. Na realidade, o dogmatismo é fruto do apego por ensinamentos, hábitos, culturas e outros aspectos preexistentes. Isto se reflete na política, na educação, na mídia, enfim, no dia a dia das pessoas. Raros indivíduos têm uma flexibilidade mental suficiente para aquilo que é diferente ou inovador. Nós, de uma forma geral, nos aferramos a ideias e formas de viver, pois o que já é conhecido é mais cômodo. Apenas ensaiamos os primeiros passos de aceitação por uma “vida de mudança”. E quando exercitamos um pouco o dinamismo na forma de ver as coisas, ou para enxergar outras faces das chamadas “realidade” ou “verdade”, logo voltamos ao velho dogmatismo. Não quero dizer que devamos mudar sistematicamente, pois isso seria sair de um extremo para o outro: da rigidez do dogma, para a volatilidade da mutação constante! Compreendendo que os extremos não são saudáveis, é fácil supor que é preciso expandir a consciência, assumindo uma mente mais flexível, num nível e ritmo autossustentáveis e harmônicos. Creio que, dessa forma, todos temos a ganhar, evitando os erros do passado. No entanto, como ser flexível num patamar saudável e equilibrado? Bem, este patamar é algo individual, mas quanto mais se adia um trabalho de autoconhecimento, fonte inequívoca de expansão consciencial, mais estagnado se fica, ou seja, o dogmatismo tende a continuar...


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

(1)   Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, Editora Nova Fronteira, 2a edição (12a reimpressão), de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, 1986, 1838 p.

(2) Judeus sentem ares de mudança na Alemanha”. Matéria de Jennifer Abramsohn, do Deutsche Welle, site www.dw-world.de. Disponível em: http://www.dw-world.de/popups/popup_printcontent/0,,1455986,00.html. Acesso em 02/02/2011.

(3)   Pequeno Dicionário Enciclopédico Koogan Larousse. Editora Larousse do Brasil, 1980, 635 p.

(4) Humanos são capazes de prever o futuro, diz pesquisa”. Matéria da Redação do Diário da Saúde, do site http://www.diariodasaude.com.br/. Disponível em: http://www.diariodasaude.com.br/news.php?article=humanos-capazes-prever-futuro. Acesso em 03/02/2011.

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