ARTIGO 8 - ANIMISMO E MEDIUNIDADE

Autor: Pablo de Salamanca

Escrito em 08 de dezembro de 2009.

1- CONSIDERAÇÕES GERAIS


Inicialmente, gostaria de comentar o próprio título deste artigo “Animismo e Mediunidade”. Pus, propositadamente, o termo “animismo” em primeiro lugar, porque sem o fator anímico não há mediunidade. Mas, para esclarecer melhor, é importante conceituar ambos termos. Quanto ao animismo, utilizando-me de uma definição clássica, é a “teoria filosófica que considera a alma como causa primária de todos os fatos intelectuais e vitais”(1), ou seja, é a alma do próprio indivíduo que origina os fenômenos que se materializam. “Alma” é um termo que deriva do latim anǐma, que, por sua vez, refere-se ao princípio que dá movimento ao que é vivo, o que é animado ou o que faz mover (http://pt.wikipedia.org/wiki/Alma). Sobre mediunidade, no Livro dos Médiuns(2) consta que a palavra “médium” vem do Latim (medium), significando “meio” ou “intermediário”, ou seja, médium é pessoa que pode servir de intermediária entre os dois planos da vida, isto é, entre os espíritos e os homens. Conforme Gerardo M. Ney(3), mediunidade é a faculdade dos médiuns ou sensitivos de serem “meio” aos fenômenos paranormais. De acordo com L. Palhano Júnior(4), mediunidade é a faculdade que têm as pessoas (médiuns), em maior ou menor grau, de receber comunicações ou perceber os espíritos ou o Mundo Espiritual.

Portanto, em linhas gerais, animismo é o conjunto de manifestações que vêm da alma do indivíduo. Em outras palavras, são os fenômenos provocados pelo próprio psiquismo da pessoa, sem a participação de qualquer outra entidade ou consciência externa. Assim, por exemplo, alguém que esteja emocionalmente alterado por forte estresse, pode, de repente, ter uma reação muito agressiva, devido a um afloramento de uma característica de sua personalidade. Ou seja, isto constituiu-se, pelo menos em tese, numa exclusiva ação anímica. Um outro exemplo de animismo, é o caso de alguém que escreve algo sem a participação de nenhum desencarnado ou qualquer consciência externa, usando somente os atributos de sua psique (“psiquê” é palavra grega que significa alma - http://pt.wikipedia.org/wiki/Psiqu%C3%AA). Assim, o que este indivíduo grafou, provêm de sua própria alma e, por isso, é um processo puramente anímico, ao menos em teoria.

Quanto à mediunidade, um exemplo típico de atividade mediúnica é a psicografia, que ocorre quando o médium é utilizado por outra consciência, que expressa suas idéias pelas mãos do sensitivo, através da escrita. Citando também o exemplo da psicofonia, chamada por alguns de “incorporação”, nela a entidade comunicante utiliza o encarnado como intermediário, para expressar seus pensamentos através da fala.

Bom, voltando ao que eu dizia no primeiro parágrafo, o termo “animismo” vem à frente do termo “mediunidade” no título do presente artigo, porque, na realidade, qualquer mecanismo mediúnico só ocorre através do aparato biopsíquico do médium. E neste aparato inclui-se certamente a psique do médium, ou seja, uma consciência comunicante externa só se manifesta através do sensitivo, ao sintonizar-se com a alma deste, isto é, por meio das potencialidades anímicas do médium. Portanto, não há mediunidade sem algum grau de animismo, mesmo nos chamados médiuns inconscientes (aqueles que perdem a lucidez durante o processo mediúnico).

Por outro lado, questiono também se há um “animismo puro”. Alguém que escreve algo, mesmo obras científicas, materializa os conhecimentos apenas através de sua mente? Quem garante que uma parte do que o cientista escreveu não teve, ao menos, uma influência de algum ser incorpóreo, pela via intuitiva? Quantos escritores, alguns cientistas e outros não, revelam que suas ideias surgiram através de inspirações súbitas, sonhos, ou fatores/acontecimentos aparentemente ao acaso? Para quem já tem um mínimo de sensibilidade desenvolvida, não é difícil concluir que há uma inter-relação bastante intensa, entre o Mundo Material e o chamado “Mundo Espiritual”. A comunicação entre diferentes dimensões é constante, embora muitas vezes sutil. Portanto afirmo que, assim como não há mediunidade sem animismo, não há animismo sem mediunidade.

Desta forma, passo a discorrer sobre como se mesclam o animismo e a mediunidade, detalhando alguns aspectos da inter-relação entre ambos. Não tenciono, aqui, fazer um estudo muito aprofundado, mas apenas trazer alguns esclarecimentos a quem não pôde investigar a questão, um pouco mais detidamente.


1.1- A influência do consciente do médium


Tudo o que o médium (ou sensitivo) leu, estudou, vivenciou dentro da sua estrutura familiar e, além disso, o ambiente cultural onde se desenvolveu como ser humano, influencia na sua atividade mediúnica. Ou seja, tudo o que está na sua mente consciente permeará a sua produção mediúnica. Não há como separar o que o médium é, do que ele produz, por mais profunda que seja a sua habilidade parapsíquica. É claro que, quanto maior a profundidade de um transe mediúnico, menor será a influência do consciente do sensitivo, por exemplo, no que é transmitido pela fala (psicofonia) ou no que ele expressa por meio da escrita (psicografia).

Passemos, agora, a exemplificações sobre como o consciente do médium interage com sua produção mediúnica. No caso de alguém que psicografa, se este for uma pessoa culta, haverá uma tendência a que os escritos que faça, sejam com uma linguagem também culta, ou, pelo menos, que seja algo claro e conciso, mesmo que a entidade comunicante não tenha boa “escolaridade” prévia. Numa outra situação, onde o médium tenha crescido num ambiente de forte cultura cristã, obviamente que as mensagens que surgirem através dele, tenderão a expressar conteúdos cristãos, até mesmo nas oportunidades em que estiver sob influência de consciência espiritual não ligada ao Cristianismo. Por outro lado, se o sensitivo tem afeição por alguma religião oriental, e tenha lido e/ou estudado sobre o tema por muitos anos, mesmo que venha a canalizar uma mensagem de entidade espiritual cristã, poderá dar um cunho ou “formatação” mais ou menos “oriental” à mensagem. Volto a lembrar, contudo, que a intensidade como o consciente do médium interfere na comunicação mediúnica, dependerá da profundidade de sua habilidade sensitiva. Porém, como compreende-se que sempre há alguma participação da psique do médium (animismo) no fenômeno, é claro que alguma influência dele, sobre a obra, ocorrerá.


1.2- A influência do inconsciente do médium


Outra fonte de influenciação pelo psiquismo do médium (animismo), em alguma tarefa mediúnica, é através do chamado “inconsciente” do indivíduo. Na mente inconsciente está tudo o que foi reprimido ou esquecido pela pessoa, com relação a fatos, sentimentos e pensamentos que teve na sua vida atual. Também estão em nível inconsciente as memórias de vidas passadas, as lembranças do denominado “período intermissivo” (intervalo de tempo vivido fora da matéria, entre encarnações diferentes), e tudo aquilo que o indivíduo experimentou fora do corpo, durante as viagens astrais, também conhecidas como “experiências extrafísicas”. Assim, o que está no inconsciente de um sensitivo, poderá, sem dúvida, mesclar-se aos conteúdos mediúnicos transmitidos. Um bom exemplo desta situação, é o que ocorre com um médium que recebe entidades em desequilíbrio. Este médium, supondo que numa vida anterior tenha morrido sufocado, ao dar passividade a diversos tipos de entidades perturbadas, pode, inúmeras vezes, ter a sensação de sufocamento ao “incorporar” seres sofredores, pois de seu inconsciente afloram as percepções desagradáveis por este tipo de morte. Ou seja, mesmo que os espíritos carentes de ajuda, que o médium recebe, não guardem sensação de sufocamento, o sensitivo apresenta este “sintoma” animicamente. Neste caso, seria importante o médium tratar esta questão traumática de seu passado, em benefício próprio, e também para evitar reproduzir um animismo totalmente desnecessário, na situação mediúnica colocada. Não vou me estender aqui, em exemplos de como o inconsciente do médium pode alterar uma mensagem mediúnica, pois as possibilidades são muitas, e não fazem parte do escopo deste artigo. No entanto, é relevante assinalar que o animismo pode ser útil no processo mediúnico, se o que provêm do inconsciente do sensitivo é algo construtivo. Neste caso, as forças anímicas do indivíduo se juntarão aos conteúdos emitidos pela entidade comunicante, de forma a se atingir um objetivo positivo.


1.3- A sintonia entre médium e entidade


Para haver um trabalho mediúnico de qualidade, é fundamental uma boa sintonia vibratória entre o sensitivo e a entidade comunicante. É claro que, ao longo da vida do médium, este passa por flutuações no seu estado emocional, o que interfere numa boa sintonia com os guias espirituais. Ou seja, os fatores anímicos afetam a conexão com entidades que desejam comunicar-se. Assim, a falta de uma certa constância do sensitivo, pode alterar um tanto o conteúdo das mensagens passadas por uma mesma entidade, ao longo do tempo. Nos períodos de conexão mais frágil com o mentor, o ideal é não trabalhar mediunicamente, buscando, antes, o reequilíbrio. Porém, este problema pode ser minimizado, caso o médium tenha conteúdos anímicos de qualidade, o que poderá permear o seu trabalho mediúnico, de uma forma construtiva.

Por outro lado, é comum o sensitivo ter ligações espirituais com mais de uma entidade, que possuem tarefas de transmissão mediúnica. Assim, as flutuações de estado psíquico-emocional do médium, de certa forma poderão ser úteis, já que este, apresentando períodos com padrões variados, propiciará oportunidade à comunicação de entidades com vibrações diferenciadas (conforme a maior afinidade do momento). Neste contexto, é importante ressaltar que cada instrutor espiritual tem a sua função e utilidade, na diversidade da vida.

É relevante salientar, também, que o desenvolvimento mediúnico de alguém, passa pela questão do seu crescimento como ser humano, em busca de um equilíbrio maior. Isto ocorre concomitantemente ao aumento de afinidade pelas entidades, com quem possui tarefas mediúnicas pré-programadas. Portanto, o desenvolvimento mediúnico deve ocorrer junto com a evolução anímica, sendo ambas questões, promotoras de uma boa sintonia com os espíritos comunicantes. Assim, um médium que estude bastante, que não tenha preconceitos e que busque constante autoconhecimento, provavelmente não será somente um “instrumento” útil para as entidades, mas também um bom cooperador nos trabalhos mediúnicos.


2- A OBRA MEDIÚNICO-LITERÁRIA


Aqui, chegamos num ponto de questionamento sobre como avaliar a obra mediúnica de um sensitivo. Em face das diversas variáveis que interferem nas habilidades anímico-mediúnicas de alguém, como compreender uma determinada obra mediúnica? A seguir, tentamos responder a esta questão, que não raras vezes é levantada por leitores mais críticos. Estes têm razão em manter um olhar aguçado sobre a literatura mediúnica, pois tendo atingido um grau de maturidade maior, ou por serem naturalmente mais “desconfiados”, exigem mais elementos que facilitem uma maior clareza sobre esta atividade humana, que não está livre de equívocos e embustes.


2.1- Como ler uma obra mediúnica


Basicamente, pode-se afirmar que a leitura de um livro, seja mediúnico ou não, sempre deve ser feita sob o crivo da razão. Não haveria lógica em se aceitar o que está escrito, simplesmente porque foi publicado. Portanto um processo de “filtragem” é fundamental, para que o leitor assimile criticamente o que pode lhe ser útil de alguma forma. É claro que o “filtro” que o leitor utilizará é algo totalmente pessoal, e o que considerará bom para si, para outro será uma nulidade. Usei o termo “filtragem”, porque fornece uma imagem bem apropriada para esta questão. Considero que, por mais que não reconheçamos a importância de uma obra específica, ao fazermos uma avaliação criteriosa, aproveita-se alguma coisa. Ou seja, não será fácil acessar o conteúdo de um livro e concluir simplesmente que ele seja desprezível, eliminando-o por inteiro. Assim, se fizermos uma “filtragem” conscienciosa, sempre obteremos algo de valor.


2.2- O valor de uma obra mediúnica


Algo primordial na avaliação de um livro mediúnico, é compreender que ele vale muito mais pelo seu conteúdo, do que por quem o assina. Há trabalhos mediúnicos em que o autor espiritual prefere o anonimato, mas o conteúdo fala por si, demonstrando evidentemente o seu valor. Por outro lado, sob a ótica de um Espiritualismo Universalista, que preferimos, algumas características de uma boa obra mediúnica são: um conteúdo que estimule as pessoas a expandirem horizontes e consciências; ideias que reduzam preconceitos; pensamentos que explicitem o lado contraprodutivo das ortodoxias; e argumentos que levem a novos aprendizados, evitando-se apegos e induzindo à harmonia. Nesse contexto, compreendemos que um trabalho mediúnico poderá ter um valor respeitável, tanto com uma dose pequena ou grande de animismo. Para que isso ocorra, basta que o animismo seja de boa qualidade, e, obviamente, que a entidade espiritual comunicante seja uma consciência harmônica.


2.3- A evolução da obra mediúnica de um médium


Caso observemos detidamente a evolução da obra mediúnica de um médium, notaremos que ao longo do tempo os conteúdos dos livros, mesmo que assinados por um mesmo autor espiritual, podem apresentar modificações de estilo e conteúdo, em maior ou menor grau. Em parte pode-se creditar a isso, flutuações de interferência anímica do sensitivo, no período de sua produção mediúnica. Outro fator relevante, inerente ao médium, é o enriquecimento por que passa após realizar estudos de diversos tipos. Isto pode influenciar a sua obra positivamente, conforme adquira novos conhecimentos, que o auxiliam num processo de expansão da consciência. No entanto, embora menos sujeito a alteração de estado vibratório, o autor espiritual, por si mesmo, pode ter sido o causador de alguma mudança de estilo e conteúdo das obras, talvez atendendo a necessidades/objetivos que escapam a nossa compreensão imediata (por exemplo, pode ter a intenção de atingir a um público diferenciado no Plano Terreno). É claro que, ao longo do tempo, evoluem tanto o médium como a própria entidade comunicante, o que se reflete na qualidade dos livros produzidos. Inclusive, é importante ressaltar que, de acordo com a passagem do tempo, há uma tendência a melhorar a conexão/sintonia entre o sensitivo e o seu companheiro sutil de trabalho.

Portanto, se olharmos para a produção mediúnica de alguém, principalmente se há mais de um autor espiritual envolvido, perceberemos com facilidade obras de conteúdo variado. E por quê isso ocorre? Basicamente, porque o público leitor também é bastante diverso. Muitas são as necessidades de esclarecimento e há inúmeros tipos de “fome espiritual”.


Fontes bibliográficas consultadas:

(1) Dicionário Escolar Silveira Bueno. Ediouro. São Paulo, 2001.

(2) O Livro dos Médiuns. Allan Kardec. Federação Espírita Brasileira. Rio de Janeiro, 1996.

(3) Parapsicologia: termos e mestres. Gerardo M. Ney. Livraria Freitas Bastos. Rio de Janeiro, 1991.

(4) Mirabelli: um médium extraordinário. Lamartine Palhano Júnior. Edições CELD. Rio de Janeiro, 1994.

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