ARTIGO 3 - O MITO DO DIABO

Autor: Pablo de Salamanca

Escrito originalmente em 19 de janeiro de 2006, e revisado em 02 de abril de 2011.

Caros amigos, inicialmente esclarecemos que este artigo é mais destinado àqueles que acreditam no chamado "diabo". É uma tentativa de trazer outros influxos de entendimento aos que estão, de certa forma, presos a conceitos que limitam às próprias vidas, devido ao medo e a outros sentimentos pouco saudáveis, vinculados à questão do "demônio", no sentido de uma personificação do que denomina-se "Mal". Não temos a intenção de ofender às pessoas e sacerdotes de grupos religiosos que têm, em seu arcabouço geral, a existência do diabo como fato, mas apenas oferecer uma outra via de compreensão da vida. Assinalamos também que não pretendemos ser extensivos neste texto, que poderia facilmente tornar-se um livro, caso nos estendêssemos sobre aspectos históricos, sócio-culturais e psicológicos ligados ao tema "diabo". Assim, seremos tão objetivos quanto possível.

Bem, o assunto é polêmico, lendário e milenar: o diabo. O diabo existe? Deus, com as suas chamadas Onisciência, Onipotência e Onipresença, teria cometido o “erro” de criar um ser que lhe faria frente ante o propósito de Amor, Justiça e Harmonia? O “Absoluto” ou “Força Divina” ou o “Criador” daria origem a uma entidade que lhe viesse a combater, pela eternidade, aos ideais?

As perguntas acima, sob a ótica espírita kardequiana ou de outras correntes espiritualistas, seriam respondidas de forma negativa. Ou seja, o diabo como personificação do “Mal Eterno” não existe, já que tudo evolui em direção à Harmonia. Além disso, é facilmente perceptível, em reuniões mediúnicas, que os casos de possessão “demoníaca” nada mais são do que processos obsessivos, onde uma pessoa sofre a ação de um espírito, que se diz demônio para amedrontar aos que estão a sua volta. Alguns livros psicografados, somados a relatos de médiuns com a capacidade de enxergarem o plano astral, informam da ocorrência de espíritos humanos deformados à semelhança do diabo da tradição cristã medieval. Isto é facilmente explicável pela literatura espiritualista, que assinala a plasticidade dos corpos sutis daqueles que desencarnaram. Sendo o corpo astral ou perispírito facilmente moldável ao pensamento humano, é razoável concluir que “naquilo que pensamos, nos tornamos”.  Em outras palavras, um espírito que possui equilíbrio e amor, apresentará luz. Um espírito que só semeou discórdia e ódios poderá, conforme o que tem dentro de sua mente, mostrar-se como um “monstro” ou um “diabo”. E este ser humano, em desequilíbrio, assim permanecerá durante o tempo que o seu raciocínio estiver embotado. O processo pode durar desde alguns poucos anos até séculos. Contudo, um dia, novos influxos evolutivos penetrarão a sua mente e seu coração, induzindo-o ao processo reencarnatório, de onde retirará novas experiências que o conduzirão à paz de espírito. Estas informações são perfeitamente coerentes com o ensinamento de Jesus, quando Ele diz que nenhuma ovelha seria perdida do Aprisco Divino, isto é, nenhum espírito ficará eternamente apartado do caminho da evolução.

Mas, e a visão bíblica do diabo e do inferno? A Bíblia não é tão taxativa, em alguns momentos, quando relata a questão do inferno ou do diabo como figuras milenares, beirando à eternidade ou sendo mesmo eternos? Neste momento, é importante recordar o apóstolo Paulo, pois teria dito que a letra mata, mas o espírito vivifica. Este ensinamento mostra, claramente, que o papel aceita qualquer coisa que pensemos ou falemos, mas que as palavras são limitadas em expressar uma ideia em sua totalidade. Daí ocorrerem tantas interpretações diferenciadas do que está escrito na Bíblia. Além disso, quantas alterações nos textos originais bíblicos foram realizadas ao longo do tempo? E os erros de tradução de idioma para idioma? Fora estas questões, podemos mesmo assim fazer uma análise geral do tema em tela, nos textos bíblicos atuais. Percebe-se, com facilidade, a forte dualidade (Bem X Mal) presente na Bíblia. Nele, pretende-se, em muitos momentos, levar as pessoas para Deus, através do amedrontamento. Para que o ser humano deixe de praticar atrocidades e iniquidades, é preciso intimidá-lo com penalidades eternas, num inferno também eterno, que é gerenciado por uma figura centralizadora de todo o horror e maldade: o “diabo”. É compreensível que, milênios atrás, o estágio evolutivo da humanidade em todos os sentidos fosse primário, e, portanto, extremamente necessitado de imagens fortes para causar o impacto necessário em mentes e corações embrutecidos, de forma a se evitarem agressões e abusos de toda a sorte. Assim, o inferno e o diabo seriam interessantes “aliados” de Deus, já que muitos indivíduos, por medo das punições eternas, seriam “impulsionados” para as virtudes. Até mesmo Jesus teria se utilizado do diabo e do inferno, em algumas ocasiões, para demonstrar a Justiça Divina, que beneficia aos que seguem as Leis de Deus e que deixa os pecadores sob os cuidados da dor (o "demônio"). Compreendemos que Jesus se utilizou dessas metáforas para aqueles que precisavam delas, mas deixou outros ensinamentos (mais profundos) para aqueles que já tinham “olhos de ver e ouvidos de ouvir”.

O nível de entendimento das coisas espirituais, neste planeta, em geral ainda é pequeno. Também é fácil constatar que há grande diferença, entre as pessoas, quanto ao grau de compreensão espiritual. Contudo, cremos firmemente que não podemos nos acomodar no patamar que estamos. É fundamental usarmos a mente que a Divindade nos deu, para alcançarmos vislumbres cada vez maiores do universo, pois, afinal de contas, o próprio Jesus nos deixou o aviso de que batêssemos na porta para que ela se abrisse. Portanto, estamos aqui tentando contribuir para esta questão do “culto ao diabo”, que ainda existe em meio às diversas doutrinas cristãs. Aliás, neste momento, é interessante fazer um pequeno parêntesis. É importante ressaltar que algumas outras religiões/filosofias de origem não-cristã, nem mesmo possuem uma personificação do "Mal" na figura do diabo, ou seja, para estes agrupamentos o diabo não existe. Isto é bastante relevante, pois eles não se utilizam da “muleta milenar” do demônio, que nós ocidentais em geral usamos, para tentarmos fugir de certos vícios associados às sensações materiais. Isto é demonstrativo de que, neste ponto, nós que fomos criados dentro da cultura judaico-cristã, estamos num patamar de entendimento mais limitado do que os nossos irmãos orientais. Em outras palavras, a busca do Divino ou da Harmonia Universal deveria ser realizada mais por ela em si, do que pelo temor ao diabo, ou a outras personificações do chamado "Mal".

Para finalizar, há a questão psicológica. Para nós, enquanto limitados seres humanos, o "Mal" está sempre fora das nossas pessoas. O culpado é, quase sem exceção, o “outro”. Raramente admitimos sentimentos e pensamentos negativos como sendo originados de nós mesmos, pelo próprio exercício do livre-arbítrio. E muita gente, quando não pode acusar ninguém pelos seus fracassos, revoltas e erros de todo o tipo, acham o grande vilão para dar o veredito de culpado: o diabo! Até mesmo alguns espíritas/espiritualistas, que entendem o aspecto do demônio como figura simbólica, caem com frequência nesta armadilha psicológica, pois assinalam, não raramente, alguém externo a si mesmos como causadores de seus próprios deslizes, apontando espíritos obsessores como a grande causa de suas falhas. Lembremos então, de Jesus, através do "orai e vigiai”. Se sintonizamos com forças desequilibradas (humanos desencarnados perturbados e não o diabo!) é porque nós assim o desejamos, e não por termos sido "forçados". Somos aquilo que pensamos! Somos aquilo que sentimos! Somos aquilo que sonhamos! A autocrítica deve ser nossa irmã muito próxima, para nos libertarmos da tendência milenar de apontar o semelhante e suas limitações. Por isso, recordemos: “quem estiver sem pecado, que atire a primeira pedra”. Saudações fraternas a todos.


Clique aqui e deixe um comentário!


LIVRO DE VISITAS



VOLTAR PARA A PÁGINA ANTERIOR