ARTIGO 18 - ENTREVISTA COM NÉLSON VILHENNA EM 2013 - TEMA: DIALOGANDO COM MENTORES


Perguntas elaboradas por Pablo de Salamanca, em 19 de setembro de 2013.

 

Caros amigos, nosso entrevistado é o dirigente de centro espiritualista (C.E.F.J.) e escritor Nélson Vilhenna, autor do livro “Jornada Espiritual”, gratuito no www.harmonianet.org.

 

Nélson Vilhenna nasceu no Rio de Janeiro em 1938, tendo formação de nível superior em engenharia agronômica, profissão escolhida pela sua ligação com a terra. Graduou-se em 1966 e concluiu mestrado em 1994. Doutorou-se em 2004. Foi professor universitário entre 1976 e 2008. Quanto ao campo espiritualista, começou suas atividades mediúnicas em 1971, tendo atuado em grupos de diversas orientações, o que lhe propiciou uma vivência bastante universalista. Na maioria das instituições em que atuou, e ainda atua, exerce com freqüência a atividade de diálogo com espíritos em desequilíbrio, procurando ajudá-los a encontrar novos rumos de harmonia. Também é constante o seu contato e troca de ideias com espíritos incorporados em médiuns, que atuam como mentores ou guias.

 

1) Quais os pré-requisitos naturais de um espiritualista, que tenha que dialogar com freqüência com entidades que atuam como mentores ou guias em centros espíritas/espiritualistas?

Ser respeitoso e ter consciência de que, mesmo conversando com um ser humano igual a nós, o mentor tem compromissos e responsabilidades que muitas vezes escapam da nossa compreensão.

 

2) Quais as preparações e características desejáveis a desenvolver em espiritualistas, que irão trabalhar dialogando e obtendo informações e instruções de mentores espirituais incorporados?

Desenvolver a discrição, porque nem tudo que o mentor fala para nós pode ser dito ao consulente ou ao seu próprio médium, por não estarem preparados. Ser fiel às instruções, não acrescentando ou retirando temas segundo sua interpretação, a não ser em casos que fujam ao bom senso e que podem até ser influências do médium. Neste caso, deve ser comentado com o mentor o assunto para melhores esclarecimentos.

 

3) Como deve ser abordado, inicialmente, um guia espiritual que acabou de manifestar-se em um médium?

Cumprimentando-o e colocando-se a seu dispor, para o que precisar para o seu trabalho.

 

4) Quando uma conversa com um espírito-mentor deve ser curta, e quando este diálogo pode ser mais longo?

Deve ser curta no atendimento aos consulentes e mais longa nos esclarecimentos e nas mensagens explicativas (quanto à Espiritualidade), de modo que não fiquem dúvidas no diálogo.

 

5) Em caso no qual o animismo do médium é evidente, como conversar com o mentor espiritual que tenta se manifestar?

O animismo faz parte do processo natural de desenvolvimento mediúnico. O que deve ser evitado é quando o médium tenta passar-se pelo mentor. Percebe-se, pelo estilo do diálogo, quando é um e quando é outro. Neste caso estimula-se o médium ao relaxamento mental, para que o mentor assuma o comando do aparelho mediúnico. Há casos em que se torna necessário um apoio energético nosso, acrescido de convocação ao mentor, para que a manifestação se processe adequadamente.

 

6) Como agir quando uma entidade se manifesta, mesmo sabendo-se que é um guia, num momento inesperado ou não programado de uma reunião mediúnica?

Houve ocasião em que eu obedecia às “regras” cega e plenamente, mas a experiência mostrou-me que estas manifestações só acontecem em condições especiais de socorro a algum irmão encarnado ou desencarnado e que, muitas vezes, quando não se permite a dita manifestação, a oportunidade é perdida. Certa vez, insisti para que o médium e a entidade, que eu não sabia quem era, aguardassem o momento correto para o contato. Em seguida, o médium começou a contorcer-se a ponto de cair do banco em que se encontrava, e sua perna, virada, entrou por debaixo do pé do banco. Durante aquela manifestação tão descontrolada, seu pé torceu e quase quebrou. Hoje, quando o médium sente a presença de um mentor, sugiro a ele que tente passar uma orientação mental, porém se a pressão é muito forte sobre o médium, permito um contato mais direto.

 

7) Como dialogar com guias espirituais que apresentam características fortemente disciplinadoras?

Quando um guia se apresenta e exige disciplina e concentração para trabalhar, é porque existe uma corrente extremamente negativa que deve ser controlada, com a colaboração de todos, de modo que ninguém absorva parte desta corrente e depois fique dando trabalho aos guias. Uso da seriedade que o momento exige e conclamo a todos que façam o mesmo. O diálogo normalmente é formal, mas fraterno.

 

8) Como dialogar com mentores ainda muito vinculados a uma visão religiosa mais ortodoxa, que trazem traços evidentes de sua última vivência terrena?

Ninguém muda radicalmente sua maneira de ser, simplesmente porque desencarnou. Se é permitido a um espírito com esta característica atuar como mentor de alguém, isto se deve a necessidade de aprendizado de ambos. Deve ser respeitada a sua forma de pensar, porém orientando para que siga a egrégora de onde se manifesta. Num diálogo com um mentor dirigente de um Centro de Umbanda, tive oportunidade de discordar, após ouvi-lo atentamente, sobre a sua interpretação da atividade dos Exús e mostrar-lhe que na Seara Divina todos os trabalhadores são importantes, pois se assim não fosse o Mestre Jesus não permitiria a atuação dos mesmos. Lembremo-nos de que Jesus escolheu seus discípulos entre homens de diferentes níveis de cultura e entendimento espiritual, tendo entre eles um covarde, um com pouca fé e outro traidor, mas estavam todos em aprendizado.

 

9) O que fazer ou como se comunicar com um mentor que utiliza um médium ainda não completamente desenvolvido, o que dificulta a própria fala do espírito?

É uma fase em que mentor e médium estão se adaptando. Suas energias perispirituais ainda se encontram bastante diferentes, dificultando a manifestação correta. Neste caso deve ser dado todo apoio ao médium, para que ele não fique constrangido com a falta de sintonia, ajudando-o a adquirir mais confiança em si mesmo e no amparo de seu guia. Mesmo havendo dificuldade no falar ou escrever, estimula-se o contato, pois é praticando que o desenvolvimento se dá. O estudo do médium sobre os fenômenos da mediunidade contribui profundamente no processo.

 

10) Como agir ou comunicar-se com guias que acoplam-se aos médiuns, desejando  fundamentalmente fazer um trabalho mais energético?

Desde que o trabalho esteja de acordo com a Lei Divina, prepara-se o ambiente conforme orientação do guia e presta-se todo apoio ao mesmo. A confiança que adquirimos pelo trabalho do guia e do médium, favorece bastante a tomada de decisão numa ocasião desta.

 

11) Há diferenças entre diálogos com guias de Umbanda e diálogos com mentores típicos do Espiritismo (o chamado “Kardecismo”)?

O diálogo, neste caso, vai depender muito da compreensão espiritual e do respeito de quem conversa com o guia. Muitas vezes o mesmo guia, ao se manifestar na Umbanda, utiliza o vocabulário próprio da linha em que se manifesta, enquanto no Kardecismo usa o vocabulário comum do médium. O diálogo na Umbanda exige treinamento de quem lida com os guias, que é um instrumento para que os homens de pouca fé aceitem a mensagem recebida. Quando o ambiente no Centro de Umbanda atingiu um alto grau de entendimento, tenho verificado que os guias se expressam como nós mesmos, pois ninguém duvida de quem são. Na verdade, o que importa é o conteúdo da mensagem (como já dizia Kardec) e não quem está e nem como está transmitindo.

 

12) Como conversar com mentores que usam formas de manifestação não muito comuns ao Espiritismo (“Kardecismo”), como no caso de apresentarem-se como crianças, através de médiuns (na Umbanda)?

Os mentores que se manifestam como crianças, o fazem para quebrar os bloqueios emocionais das pessoas, e no contato alegre vão tratando o campo energético e a saúde delas. A conversa com eles é bem descontraída, mas respeitosa, de forma que não cause constrangimentos nos médiuns porventura semiconscientes, observando sempre se não está ocorrendo alguma mistificação. É mais comum os mentores enviarem sua mensagem através de uma entidade que normalmente se manifesta como criança em sua missão de trabalho, do que se apresentarem como tal.

 

13) É possível conversar com guias incorporados fora de um centro, ou seja, fora de uma sessão mediúnica? Quais os prós e contras?

Normalmente não se recomenda a manifestação mediúnica fora de um ambiente próprio, com uma egrégora que protege o processo. Entretanto, há casos em que a necessidade urgente, decidida pelo guia, exige essa manifestação que, dependendo do ambiente, é tão discreta que outras pessoas não percebem. Já presenciei um caboclo, que normalmente se apresenta com um forte e longo brado, manifestar-se em um hospital, para ajudar um interno, de forma tão sutil, que somente eu notei e recebi sua orientação. Um médium que, por vaidade, recebe um guia para dar consulta a alguém fora de uma sessão mediúnica, está se expondo ao ataque de energias deletérias que circulam nos ambientes comuns. Quando a decisão é do guia, ele já providenciou a proteção necessária para o trabalho e nada temos a temer.

 

14) Você já comunicou-se com guias que utilizam o bom humor para passar ensinamentos? Pode citar um ou mais exemplos?

Eu adquiri um relacionamento tão íntimo e fraterno com os guias, que costumo usar o humor em nossos diálogos, sempre que o assunto e o momento o permitirem. Entretanto, aqueles que com mais freqüência usam o humor em suas comunicações são as “crianças”. Havia uma delas que usava uma taça grande de pé curto, com guaraná, e mexia com um pirulito, dizendo que era seu “caldeirão de feitiço”. Ali colocava nomes de pessoas para ajudar e, à medida que mexia, falava o que era necessário para cada um. Às vezes comentava alegremente: “Olha tio, a coisa tá feia! Olha como o guaraná está ficando escuro!” Em várias ocasiões, enquanto mexia seu “caldeirão”, passava orientações que, infelizmente, não me recordo neste momento.

 

15) Quais orientações e recomendações você daria a médiuns, que têm programação espiritual para serem incorporantes de mentores, que trabalham dando consultas a pessoas aflitas, em reuniões mediúnicas?

O médium é um espírito que reencarnou com o compromisso, assumido, de colocar a sua mediunidade a serviço do amor, levando a caridade aos aflitos. Em função disso deve se preparar adequadamente, não só estudando, mas também desenvolvendo a humildade e a fraternidade, recebendo em seu ambiente de trabalho mediúnico qualquer necessitado de amparo, como fazia Jesus em sua jornada junto de nós. O respeito diante da dor e da angústia do consulente é uma postura indispensável para o êxito do atendimento. Nunca comentar com terceiros esses encontros, pois eles são sempre uma oportunidade de nos libertarmos dos males que também nos afetam.

 

16) Gostaria de relatar algum caso especial em que você dialogou com um espírito-guia, numa sessão espiritualista?

Caro Pablo, durante o meu convívio com os guias espirituais, tive várias oportunidades de dialogar com os mesmos em questões de trabalho, orientações e ensinamentos, mas, por incrível que pareça, não consigo lembrar-me delas. Entretanto, Mariana (minha esposa e médium do C.E.F.J.) lembrou-me que, certa vez, conversando com um caboclo, ele afirmou que o Fernando Collor iria ganhar as eleições, mas não ficaria até o fim do mandato. Recebi a informação com cuidado e não passei adiante. No futuro a previsão dele se concretizou e ele me fez lembrar da nossa conversa. Há dois anos, este mesmo caboclo fez um alerta para que não gastássemos dinheiro desnecessariamente, pois estava próximo um período de escassez de alimentos e poderíamos passar dificuldades, já que os preços iriam subir muito. Realmente vieram as chuvas e houve toda aquela desgraça na Região Serrana do Rio de Janeiro, o que causou a falta de oferta de vários alimentos. Em outros estados também ocorreram problemas com o clima e a produção foi afetada, causando o aumento nos preços. Recentemente, uma médium que passou a frequentar o nosso grupo, vinha sendo assediada por um dirigente desequilibrado de outro centro, para fazer suas “obrigações” (rituais de preparação mediúnica) com ele, pois, segundo jogo de búzios feito pelo mesmo, era urgente essa necessidade, para evitar que a vida dela desse uma reviravolta negativa em todos os sentidos. Entretanto, ela não se interessou. Como uma grande amiga que frequentava a Casa dele a convidou para uma festa que haveria lá, estava com muita dúvida se deveria ir. Numa de nossas reuniões, ela incorporou uma Vovó (Linha das Almas) e eu, como sempre, perguntei se queria deixar alguma mensagem. A entidade voltou-se para mim e simplesmente disse: “Diga para esta moça que eu não quero que ela vá àquela Casa, pois está sendo preparada uma armadilha, para que ela seja induzida a fazer as “obrigações”. Este não é o momento e ela nem sabe se é para fazê-lo lá. Ela deve esperar com paciência, pois quando for a hora ela ficará sabendo por nós. Fiquem com Deus.” Apenas agradeci a orientação, já que não tinha nada a ser elucidado e, por questão de ética, não perguntei qual era o tipo de armadilha.

 

17) Existe alguma bibliografia que você possa compartilhar com os interessados no assunto “Dialogando com mentores”?

De todos os livros que já li, o único autor, se não me falha a memória, que conversou diretamente com espíritos mentores “incorporados”, foi Kardec. Da lavra de Chico Xavier, temos, principalmente, André Luiz conversando no plano espiritual com os orientadores e, recentemente, Wanderley Oliveira e Carlos Baccelli, médiuns dialogando mentalmente com os guias.

 

18) Fique à vontade para tecer seus comentários finais sobre o tema “Dialogando com mentores”.

Os mentores espirituais são espíritos amigos que se comprometem em contribuir com o aprendizado e crescimento espiritual de seus pupilos. Com frequência ficam mais na coordenação dos trabalhos que vão ser realizados pelos demais guias, através do médium. Comumente observamos, especialmente um guia “criança”, trazendo uma mensagem e dizendo: “Foi papai Ogum ou papai Xangô ou papai Oxossi que mandou eu falar”. Ou ainda um Exú, dizendo: “Meu patrão mandou dizer que...” Demonstra-se assim, que existe alguém, num nível hierárquico superior, que comanda as orientações. Quando o mentor principal incorpora, normalmente pouco fala.

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