ARTIGO 16 - ESPIRITISMO E ESPIRITUALISMO UNIVERSALISTA

Autor: Pablo de Salamanca

Escrito em 20 de outubro de 2011.


INTRODUÇÃO


O Espiritismo, codificado por Allan Kardec, apresenta traços expressivos de universalismo nas suas origens, embora o contexto de sua Codificação tenha se ambientado na França do século XIX, onde predominava o Catolicismo. Desde esta época, até os dias de hoje, o Espiritismo floresceu com maior intensidade no Brasil. Avaliando-se, ainda que de uma forma um tanto genérica, o comportamento dos espíritas brasileiros, pode-se afirmar que uma parcela significativa desta população não possui a visão universalista que Kardec e os espíritos comunicantes imprimiram na Codificação. Em outras palavras, há muitos espíritas com sentimentos e ações preconceituosas/sectaristas com relação a outras religiões ou abordagens espiritualistas. Desta forma, este artigo foi elaborado com a intenção de demonstrar, embora brevemente, que o universalismo está nos fundamentos do Espiritismo.


DESENVOLVIMENTO DO ASSUNTO


Principalmente, utilizaremos algumas obras da Codificação Espírita, citando e comentando trechos que apresentem traços nítidos de universalismo. Para isso, destacamos que respeitaremos a ordem cronológica de surgimento dos livros, desde o mais antigo para o mais recente.

Em O Livro dos Espíritos1, que veio a lume em 1857, há várias passagens relevantes. Numa delas, no capítulo “Da pluralidade das existências”, pode-se ler o seguinte comentário de Kardec: “Todos os Espíritos tendem para a perfeição e Deus lhes faculta os meios de alcançá-la, .... Neste trecho, portanto, há um caráter universalista explícito, ou seja, não há privilégios da Divindade para com qualquer grupo cultural/religioso em específico. Na segunda parte da obra, capítulo IV, Kardec comenta que “assim é que a lei é uma só para todos e que todos são atingidos pela justiça de Deus”. Este trecho afirma o aspecto universal da Justiça Divina, e a ausência de qualquer imunidade especial. Na terceira parte do livro, capítulo I, uma das respostas dos espíritos contém a frase “a lei de Deus é a mesma para todos...”, confirmando o aspecto de universalidade já colocado. No capítulo “Da perfeição moral”, há a pergunta 919 (Qual o meio prático mais eficaz que tem o homem de se melhorar nesta vida e de resistir à atração do mal?), que é respondida da seguinte forma: “Um sábio da antiguidade vo-lo disse: conhece-te a ti mesmo”. Esta resposta consiste num dos princípios fundamentais do Espiritualismo Universalista, que é a questão do autoconhecimento.

Em O Livro dos Médiuns2, que data de 1861, no capítulo intitulado “Do método”, é destacável que “...o Espiritismo repousa sobre as bases fundamentais da religião e respeita todas as crenças...”. Este trecho está em perfeita consonância com mais um princípio essencial do Espiritualismo Universalista, que é o da tolerância.

Em outra obra kardequiana, O Espiritismo em sua expressão mais simples3, consta que “a própria doutrina que os espíritos ensinam hoje não tem nada de novo; é encontrada em fragmentos na maior parte dos filósofos da Índia, do Egito e da Grécia...”. Ou seja, aqui há mais uma conexão entre o Espiritismo e o Espiritualismo Universalista, pois este último tem como princípio que a verdade possui infinitas faces, isto é, ela está em todas religiões/culturas, ainda que parcialmente.

Já em O Evangelho segundo o Espiritismo4, que surgiu em 1864, no capítulo “Não vim destruir a lei”, é possível ler: “... a Ciência e a Religião são as duas alavancas da inteligência humana: uma revela as leis do mundo material e a outra do mundo moral. Tendo, no entanto, essas leis o mesmo princípio, que é Deus, não podem contradizer-se. Se fossem a negação uma da outra, uma necessariamente estaria em erro e a outra com a verdade, porquanto Deus não pode pretender a destruição de sua própria obra. A incompatibilidade que se julgou existir entre essas duas ordens de ideias provém apenas de uma observação defeituosa e de excesso de exclusivismo, de um lado e de outro. Daí um conflito que deu origem à incredulidade e à intolerância”. Este parágrafo demonstra os princípios universalistas da flexibilidade e da tolerância, em direção a um certo nível de monismo, que é outro fundamento do Espiritualismo Universalista. Na mesma obra, no capítulo “A fé transporta montanhas”, está escrito: “Diz-se vulgarmente que a fé não se prescreve, donde resulta alegar muita gente que não lhe cabe a culpa de não ter fé. Sem dúvida, a fé não se prescreve, nem, o que ainda é mais certo, se impõe. Neste trecho, é possível notar o princípio da tolerância, muito caro ao Espiritualismo Universalista, e que também está expresso no texto seguinte, do capítulo “Buscai e achareis”: “... não violenteis nenhuma consciência; a ninguém forceis para que deixe a sua crença, a fim de adotar a vossa; não anatematizeis os que não pensem como vós; acolhei os que venham ter convosco e deixai tranquilos os que vos repelem. Lembrai-vos das palavras do Cristo. Outrora, o céu era tomado com violência; hoje o é pela brandura”.

No livro A Gênese5, apresentado ao público em 1868, capítulo I, está registrado: “Caminhando de par com o progresso, o Espiritismo jamais será ultrapassado, porque, se novas descobertas lhe demonstrassem estar em erro acerca de um ponto qualquer, ele se modificaria nesse ponto. Se uma verdade nova se revelar, ele a aceitará.” Esta afirmativa representa muito bem o princípio universalista da flexibilidade. No mesmo capítulo, há outro trecho bastante relevante: Todas as religiões tiveram seus reveladores e estes, embora longe estivessem de conhecer toda a verdade, tinham uma razão de ser providencial, porque eram apropriados ao tempo e ao meio em que viviam, ao caráter particular dos povos a quem falavam e aos quais eram relativamente superiores. Apesar dos erros das suas doutrinas, não deixaram de agitar os espíritos e, por isso mesmo, de semear os germens do progresso... É, pois, injusto se lhes lance anátema em nome da ortodoxia, porque dia virá em que todas as crenças tão diversas na forma, mas que repousam realmente sobre um mesmo princípio fundamental – Deus e a imortalidade da alma, se fundirão numa grande e vasta unidade, logo que a razão triunfe dos preconceitos.” Este texto aponta mais um princípio do Espiritualismo Universalista, que assinala que o conteúdo é mais importante que a forma. Um outro facilmente perceptível é o princípio do monismo.


PALAVRAS FINAIS


Finalizando este artigo, deixamos em destaque parte do discurso “O Espiritismo é uma religião?6, de Allan Kardec, publicado originalmente na Revista Espírita de dezembro de 1868: ... submeter todas as crenças ao controle do livre exame e da razão e nada aceitar pela fé cega; respeitar todas as crenças, por mais irracionais que nos pareçam e não violentar a consciência de ninguém; ver enfim nas descobertas da ciência a revelação das leis da natureza, que são as leis de Deus: eis o credo, a religião do Espiritismo, religião que pode conciliar com todos os cultos, isto é, com todas as maneiras de adorar a Deus.” Assinalamos o trecho acima, no intuito de demonstrar que Kardec detinha fortes traços de universalismo em sua personalidade, e que ele, juntamente com a egrégora espiritual que lhe deu sustentação, imprimiram aspectos claramente universalistas ao Espiritismo. Assim, embora ainda existam muitos espíritas que pensam e agem de forma um tanto sectarista, é inegável que o Espiritismo, na forma como foi concebido originalmente, tem muitos pontos em comum com o Espiritualismo Universalista.


Fontes bibliográficas consultadas:

1- O Livro dos Espíritos. Allan Kardec. Federação Espírita Brasileira, 76a edição. Disponível em http://www.dominiopublico.gov.br. Acesso em 1/10/2011.

2- O Livro dos Médiuns. Allan Kardec. Federação Espírita Brasileira, 62a edição. Disponível em http://www.dominiopublico.gov.br. Acesso em 1/10/2011.

3- O Espiritismo em sua expressão mais simples. Allan Kardec. Edições Feesp, 2a edição. Disponível em http://www.espirito.org.br. Acesso em 1/10/2011.

4- O Evangelho segundo o Espiritismo. Allan Kardec. Federação Espírita Brasileira, 112a edição. Disponível em http://www.dominiopublico.gov.br. Acesso em 1/10/2011.

5- A Gênese, os milagres e as predições segundo o Espiritismo. Allan Kardec. Federação Espírita Brasileira, 36a edição. Disponível em http://www.dominiopublico.gov.br. Acesso em 1/10/2011.

6- A Religião do Espiritismo. Editorial da Revista O Consolador, número 41, ano 1. Disponível em http://www.oconsolador.com.br/41/editorial.html. Acesso em 1/10/2011.

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