ARTIGO 14 - ORIGENS DE UM ESPIRITUALISMO UNIVERSALISTA

Autor: Pablo de Salamanca

Escrito em 30 de agosto de 2011.


INTRODUÇÃO


Embora creiamos que os dias de hoje sejam o período em que o Espiritualismo Universalista está ganhando alguma força e corpo, neste nosso pequeno planeta, o pensamento/sentimento universalista já se manifestou entre nós no passado. É claro que foram reflexões e práticas que surgiram de forma mais isolada, considerando o espaço geográfico, o fator tempo e o contexto humano. Portanto, há que se considerar que essas manifestações universalistas tiveram uma maior ou menor intensidade, conforme a cultura de cada época e lugar, deixando de ser plenamente universal. Isto é normal se avaliarmos a atualidade, ainda bastante ortodoxa em vários aspectos. Mas, por quê traços religiosos/culturais universalistas surgiram em alguns momentos distantes da história da humanidade? Esta pergunta poderia ser respondida longamente, com o auxílio de vários saberes acadêmicos, como a psicologia, a antropologia, a filosofia etc., porém nos atrevemos a dar uma resposta mais rápida, embora subjetiva: o Universalismo jaz como uma semente no espírito humano! Em uns germina precocemente. Em outros a germinação demora um pouco mais. Em alguns, talvez a grande maioria, a semente universalista germina após longo tempo. Mas, enfim, entendemos que uma compreensão mais integral e universalista da vida seja um caminho que todos encontrarão. É questão de tempo...

Bem, mas este artigo fala justamente sobre exemplos de uma germinação precoce universalista, nesta nossa Terra, num passado histórico conhecido de nossa civilização. Em especial nos ateremos à questão do Espiritualismo Universalista, em seus primórdios, apontando traços de seres/grupos que nos precederam, e que possivelmente estão reencarnados entre nós, agora, ou que nos inspiram da dimensão onde vivem. Faremos as citações de caráter universalista, respeitando a ordem cronológica, desde o que é mais antigo para o mais recente.


DESENVOLVIMENTO DO ASSUNTO


Iniciamos com o Hinduísmo, cujas raízes estão fincadas na obra chamada Vedas (são quatro coletâneas), onde algumas partes remontam há cerca de 1500 a.C.(1). Especificamente usamos o Bhagavad Gita(2), que é um dos livros sagrados da sabedoria védica. No Canto IX do referido livro, fala Krishna: “Eu sou o mesmo para todos os seres, ninguém me é querido ou odioso”. Neste trecho fica evidente uma “imparcialidade universalista” de um ser considerado uma encarnação divina. No Canto X, Krishna reafirma a universalidade de sua essência em todos os seres, sem distinção alguma: “Eu sou, ó Gudasheza, o espírito entronizado no coração de todas as criaturas”. No Canto XIII, Krishna dá uma orientação clara quanto à unidade da vida (monismo), que é um traço marcante do Espiritualismo Universalista: “vou mostrar-te agora o que se deve conhecer; aquele, através de cujo conhecimentos se alcança a imortalidade: o eterno e supremo Brahma, que não é qualificado nem como ser, nem como não-ser. Suas mãos e seus pés estão por toda parte a nossa volta, suas cabeças, seus olhos e suas bocas são esses rostos inúmeros que vemos por toda a parte, seus ouvidos estão em toda parte; incomensurável Ele preenche e envolve todo o Universo. Ele é o ser universal e nele vivemos”. E mais à frente, no mesmo Canto XIII, Krishna arremata com uma concepção típica do Espiritualismo Universalista, que é o fato de que todos temos uma Essência Divina: “vê a verdade aquele que percebe o Senhor excelso presente da mesma forma em todas as criaturas, imperecível no seio do perecível”.

Passemos agora ao Budismo, que teve como fundador Sidharta Gautama, que viveu entre 560 e 480 a.C. Mesmo considerando suas diversas correntes, de uma forma geral o Budismo permite espaço para outros cultos e sentimentos religiosos, sendo isto um forte motivo pelo qual o movimento budista teve ampla aceitação na Ásia(1). Este aspecto de tolerância é caro ao Espiritualismo Universalista. Segundo estudiosos(1)a diversidade religiosa não é considerada uma fraqueza. Muitos budistas diriam até que o oposto é que é verdade”.

Quanto ao Taoísmo, se baseia no livro chamado Tao Te King, cuja tradição aponta como autor Lao-Tse, que viveu por volta do século VI a.C.(1). Considerando uma versão(3) do Tao Te King, pode-se destacar a seguinte passagem: “... o imanifesto e o manifesto consurgem, o fácil e o difícil confluem, o longo e o curto condizem, o alto e o baixo convergem, o som e a voz concordam, o anverso e o reverso coincidem”. Este trecho mostra claramente uma faceta monista da obra, que é um atributo do Espiritualismo Universalista. Na passagem a seguir, se percebe a questão do autoconhecimento, um princípio fundamental para o espiritualista universalista: “quem conhece o outro é sábio, quem conhece a si mesmo é iluminado”. Na sequência, destaca-se mais um trecho com aspecto monista do Tao Te King: “o grande Tao é transbordante, ele pode à esquerda e à direita; as dez mil coisas dele dependem para viver, nunca são rejeitadas; completa a obra e não se apropria; veste e nutre as dez mil coisas e não se faz senhor”.

Então, chegamos ao Cristianismo. O Novo Testamento(4) apresenta alguns conteúdos com traços universalistas. Na primeira epístola de Paulo aos Tessalonicenses (capítulo 5, versículos 19 a 21) se pode ler: “não extingais o Espírito; não desprezei as profecias, mas ponde tudo à prova. Retende o que é bom”. Neste trecho, percebe-se o princípio espiritualista universalista da flexibilidade, onde não se despreza nada, avaliando-se tudo que chega até a si, e discernindo-se o que é positivo, de forma a obter expansão consciencial. Já na segunda epístola de Paulo aos Coríntios (capítulo 3, versículo 6) se nota: “... porque a letra mata, mas o espírito vivifica”. Esta passagem demonstra mais um princípio espiritualista universalista, que é o de que “o conteúdo é mais importante que a forma”. Além disso, esta citação de Paulo deixa evidente que “espiritualidade é vivência”, outro aspecto universalista primordial. Em Lucas, no capítulo 10, versículos 30 a 37, também há uma passagem relevante. Se trata de Jesus contando uma parábola, em que um samaritano (as pessoas da região de Samaria eram desprezadas pelos judeus) teve a melhor atitude perante um homem que fora roubado e espancado. Desta forma, Jesus mostrou a importância de princípios que são espiritualistas universalistas, como a questão da tolerância, e de que “espiritualidade é vivência”.

Por fim, apresentamos aspectos universalistas entre os Sufis, por muitos descritos como os místicos do Islã. Idries Shah, através de ótima obra(5), cita Jalaludin Rumi (1207-1273): “examinei a cruz e os cristãos, do princípio ao fim. Ele não estava na cruz. Fui ao templo hindu, ao antigo pagode. Em nenhum havia qualquer sinal dele. Subi aos cumes de Herat e de Kandahar. Olhei. Ele não estava no cume nem no planalto. Resoluto, ascendi ao topo da montanha de Kaf. Lá só havia o lugar do pássaro Anqa. Fui à Caaba. Não o vi lá. Indaguei do seu estado a Ibn Sina; ele estava além dos limites do filósofo Avicena... Contemplei meu próprio coração. E nesse lugar o vi. Não estava em nenhum outro...”. Segundo Idries Shah, “ele” (que, no original, pode ser tanto ele quanto ela) é a verdadeira realidade. Bem, este texto de Rumi é visivelmente universalista, já que demonstra que “espiritualidade é vivência”, ou seja, espiritualidade é mais do que pertencer a uma determinada religião ou cultura. Também é destacável uma citação sufi que consta no livro “A fala dos sábios” (de Ishan Kaiser), apontada por Idries Shah(5): “Estou no pagão; adoro perante o altar do judeu; sou o ídolo do iemenita, o verdadeiro templo do adorador do fogo; o sacerdote do mágico; a realidade espiritual do brâmane que medita de pernas cruzadas; o pincel e a cor do artista; a personalidade poderosa, suprimida, do escarnecedor de religiões. Não tomamos o lugar dos outros: quando uma chama é atirada na outra, ambas se juntam a ponto de não andarem sós. Arremesse uma tocha numa vela e exclame depois: vejam! Aniquilei a chama da vela!” Esta bela citação, mesmo numa análise rápida, permite distinguir pelo menos três princípios espiritualistas universalistas inclusos. Um deles é que “o conteúdo é mais importante que a forma”. Um outro facilmente assinalável é que “a Verdade possui infinitas faces”. E, por fim, nota-se que o princípio do monismo é evidente.


PALAVRAS FINAIS


Bem, esperamos que este artigo tenha lançado um pouco de luz sobre os primórdios do Espiritualismo Universalista. E voltando a considerar que o Universalismo é como uma semente que dorme na alma de cada ser, desejamos que este texto possa ser como a água necessária para tornar menos árido o solo espiritual, permitindo boa germinação. Mais cedo ou mais tarde, a humanidade que se desenvolve neste nosso planeta há de compreender e praticar o que consideramos princípios fundamentais para um Espiritualismo Universalista: 1- A Verdade possui infinitas faces; 2- Humildade; 3- Fazer ao próximo o que gostaria de receber; 4- Autorrealização/Harmonia; 5- O conteúdo é mais importante que a forma; 6- Tolerância; 7- Flexibilidade; 8- Predominância do monismo; 9- Espiritualidade é vivência; e 10- Autoconhecimento.


Fontes bibliográficas consultadas:

(1) O Livro das Religiões. Victor Hellern, Henry Notaker & Jostein Gaarder. São Paulo: Cia. das Letras, 2000.

(2) A História do Bhagavad Gita. Versão disponível no site http://www.escoladefilosofia.org.br. Acesso em 17 de agosto de 2011.

(3) Tao Te King. Versão disponível no site http://imotiro.org/. Acesso em 17 de agosto de 2011.

(4) Bíblia Sagrada. Versão disponível no site http://www.dominiopublico.gov.br. Acesso em 18 de agosto de 2011.

(5) Os Sufis. Idries Shah. São Paulo: Editora Cultrix, 1993, 9a edição.

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