ARTIGO 12 - ESPIRITUALIDADE E RELIGIÃO

Autor: Pablo de Salamanca

Escrito em 30 de maio de 2011.


INTRODUÇÃO


Há um tempo atrás, era comum encontrar-me com pessoas que diziam, orgulhosamente, que tinham uma religião. Essas pessoas assim agiam, geralmente, para contraporem-se àquelas de outras denominações, ou para confrontarem indivíduos céticos, ou ainda para criticar aos que não seguiam a nenhuma tradição religiosa em específico. Este tipo de confrontação, na minha percepção, embora tenha se reduzido um pouco, ainda persiste em larga escala. Esta atitude, que beira ao sectarismo, não tem muita razão de ser, se avaliarmos que mais vale ter espiritualidade do que ter uma religião. Desta maneira, propus-me a escrever o presente artigo, com o intuito de contribuir para diferenciar o “ter espiritualidade” daquilo que é exclusivamente “ter uma religião”.

Neste início, faz-se relevante trazer algumas definições que ajudam a delinear a questão. O termo “espiritualidade” significa “qualidade ou caráter de espiritual”(1). Já o termo “espiritual” (do latim spirituale) é definido como “relativo ou pertencente ao espírito (por oposição à matéria): vida espiritual”(1). Com relação à religião (do latim religione), apresentamos três definições: (a) “crença na existência de uma força ou forças sobrenaturais, considerada(s) como criadora(s) do universo, e que como tal deve(m) ser adorada(s) e obedecida(s)”(1); (b) “a manifestação de tal crença por meio de doutrina e ritual próprios, que envolvem, em geral, preceitos éticos”(1); e (c) “culto rendido à divindade”(2).


DESENVOLVIMENTO DO ASSUNTO


Após a colocação das definições, pode-se compreender que ter espiritualidade apresenta uma grande amplitude, enquanto que ter uma religião é um tanto restrito, pois obedece a rituais/cultos que, obviamente, estão intimamente ligados a contexto histórico/cultural. Mas, não paremos por aqui! Vamos desenvolver mais a questão, nos pontos a seguir.


1- A religião, se muito dogmatizada (o que é relativamente comum), induz à acomodação do indivíduo, ou até a sua paralisação como ser pensante. Por outro lado, quem busca ter espiritualidade elabora perguntas e busca respostas, o que induz ao crescimento como ser humano e à expansão de sua própria consciência.


2- Numa religião instituída, quase sempre há forte hierarquia e, com isso, os sacerdotes e similares. Estes, no intuito de defender conceitos e ritos específicos, frequentemente podam os adeptos participantes, que, não raras vezes, deixam de pensar e de ouvir à chamada “voz interior”. Já quem busca espiritualidade, além de usar corriqueiramente seu raciocínio, desenvolve sua intuição, e tem maiores chances de crescimento e autorrealização. Quem quer ter espiritualidade não tem exatamente um intermediário (sacerdote e similares) entre si e a Divindade (ou o Todo), mas sim vê os mais experientes do caminho espiritual como pontos de referência.


3- As religiões, principalmente as que possuem uma forte visão dualista (bem X mal; céu X inferno; etc.) priorizam mais um discurso de punição do que de educação. Aqueles que pretendem ter espiritualidade, desenvolvem melhor um sentido de “aprender com os erros” e de autoconhecimento. Assim, o religioso mais estrito lida muito com sentimentos de medo e culpa/remorso, enquanto quem se espiritualiza “olha para dentro e verifica o que precisa ser melhorado”.


4- Religiões (as mais dualistas) tendem a fornecer conceitos mais restritos e antropomorfizados de Deus, e de seus aspectos/atributos. Quem aspira a ter espiritualidade acaba por entender que não é possível limitar a Inteligência Cósmica.


5- Genericamente, as religiões são instituições humanas, que apontam caminhos espirituais. Já espiritualidade é algo que, naturalmente, ruma para transcender a condição humana. Assim, com frequência, a religião provoca divisões, enquanto aquele que procura ter espiritualidade estuda, entende e transcende às divisões, para fazer a sua síntese.


6- Grande parte das religiões, de forma mais ou menos intensa, almeja que seja buscada e adotada pelas pessoas/nações, de forma padronizada. Na contra-mão desta realidade, ter espiritualidade é um atributo particular que precisa ser buscado/desenvolvido por cada indivíduo, com as nuanças específicas da própria alma.


7- A maioria das religiões vê a Verdade em seus ensinamentos e livros, enquanto que os que aspiram a ter espiritualidade, paulatinamente, veem a Verdade por trás de todos os ensinamentos, de todos os livros religiosos e na própria natureza em manifestação.


8- A religião, frequentemente, precisa da fé para a sua manutenção e continuidade. Já para se ter espiritualidade, são necessárias capacidades de análise racional e de síntese intuitiva, e, a partir do que é plausível, surge a fé como consequência. A fé do religioso tem como pré-requisito comum ser fixa/imutável, enquanto a fé de quem tem espiritualidade é relativa ao contexto de conhecimentos, e, por isso, evolui com o tempo.


9- O religioso, num sentido mais restrito, tem a sua mente num passado de glórias e de revelações, projetando-se para um futuro de beatitudes e recompensas. Aquele que aspira a ter espiritualidade e a desenvolve, tem a sua mente no aqui e agora. Vive o presente e, com isso, evita a prisão ao passado e a ansiedade pelo futuro. Assim, tende à harmonia.


10- Quem segue estrita e profundamente uma religião, crê que ela possui a Verdade Absoluta. Quem almeja ter espiritualidade, compreende que a Verdade tem infinitas faces.


PALAVRAS FINAIS


Concluindo este artigo, é importante que alguns aspectos ainda sejam abordados. O texto colocado não tenciona, de forma alguma, combater quaisquer religião nos seus princípios fundamentais. A liberdade religiosa e de expressão são primordiais para a evolução humana. Compreendemos também, que a matriz para que se desenvolva a espiritualidade no ser humano, é composta pelas religiões tradicionais e suas variantes. Apenas enfatizamos que é relevante ir além dos ritos e dogmas, pois entendemos que o conteúdo é mais importante que a forma. Assim, assinalamos que alguém que segue os preceitos de uma religião instituída, também pode estar, em paralelo, desenvolvendo satisfatoriamente sua espiritualidade. Ou seja, não é preciso abandonar a própria religião, para que se tenha espiritualidade. O que é preciso, é desenvolver um olhar mais profundo e aprender a escutar à voz interior. O Divino se manifesta em todo lugar e através de todos os seres.


Fontes bibliográficas consultadas:

(1) Novo Dicionário da Língua Portuguesa. Aurélio Buarque de Holanda Ferreira. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1986, 2a edição.

(2) Pequeno Dicionário Enciclopédico Koogan Larousse. Rio de Janeiro: Editora Larousse do Brasil Ltda., 1980.

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