ARTIGO 11 - PRINCÍPIOS PARA UM ESPIRITUALISMO UNIVERSALISTA

Autor: Pablo de Salamanca

Escrito em 28 de abril de 2011.


INTRODUÇÃO

Inicialmente, procuraremos definir o que é “Espiritualismo Universalista”, ainda que de uma forma genérica. O significado de “espiritualismo”, segundo a Enciclopédia Britânica1, está associado à ideia de aceitação da noção de infinito, da imortalidade da alma, da imaterialidade do intelecto e da vontade, dentre outras nuanças, que transcendem os limites da interpretação materialista vulgar. Quanto à palavra “universalista”, provém de “universal”, podendo ser definida como aquilo que se aplica à totalidade, que é válido em qualquer tempo ou lugar2. Assim juntando-se os conceitos colocados, de uma forma simplista, poderíamos dizer que Espiritualismo Universalista é uma modalidade que busca incluir todos os espiritualismos construídos ao longo do tempo, neste planeta, agregando o que é ajustável das diversas culturas/sabedorias na busca do Divino ou do Todo.

No entanto, esta definição apresentada obviamente precisa ser mais desenvolvida e detalhada, de forma que o caminho espiritualista universalista para a autorrealização/harmonia seja melhor compreendido e exercitado. É o que pretendemos fazer por meio desse artigo. Antes de entrarmos nos princípios a que nos propomos no título deste texto, é relevante assinalar que cremos que, através de um espiritualismo mais universalista, se pode evitar/amenizar as contendas milenares em torno das religiões/filosofias, permitindo um caminhar mais fraternal e construtivo, até porque compreendemos que toda criação da mente humana encarnada, jamais será exatamente como o Todo. Um Espiritualismo Universalista bem desenvolvido e plural em sua concepção, embora seja também pálido reflexo do Todo, permitirá, ao menos, alguns reflexos mais brilhantes do que a nossa humanidade tem conseguido ao longo dos séculos. Aliás, desde muito tempo já se ensaia uma visão mais universal sobre Espiritualidade, por entre as ortodoxias terrenas vigentes. É o caso das várias correntes Sufis, que apresentam-se com traços mais ou menos intensos de universalismo, conforme os contextos de época e local. Segundo boa fonte3, a assinatura sufista característica encontra-se numa literatura amplamente dispersa desde, pelo menos, o segundo milênio antes de Cristo. Um representante expressivo do Sufismo, não tão distante no tempo, Ibn El-Arabi (1165-1240), um “árabe espanhol” de Múrcia, demonstra sua visão universalista ao dizer: sigo a religião do Amor. Ora, às vezes, me chamam Pastor de gazelas, ora monge cristão, ora sábio persa. Minha amada são três. Três, e no entanto, apenas uma; muitas coisas, que parecem três, não são mais que uma. Não lhe deem nome algum, como se tentassem limitar alguém a cuja vista toda limitação se confunde3. Nos dias atuais, há diversos agrupamentos favoráveis a um caminhar espiritualista universalista. Nós nos incluímos neste movimento, que tem ganhado força nos últimos anos, e, assim, aqui estamos para contribuir com o que consideramos princípios importantes para uma base forte de um Espiritualismo Universalista.


OS PRINCÍPIOS


1- A VERDADE POSSUI INFINITAS FACES

Este Princípio é fundamental para a compreensão de um Espiritualismo Universalista. Entendendo-se que Deus ou o Todo são uma realidade infinita, que a tudo inclui, como pode um ser humano ou religião instituída afirmar com certeza absoluta que detém toda a Sabedoria e a Verdade? Como pode aquilo que é temporal e finito, dizer que sabe e assimila o Infinito? Portanto, alguém que se considera espiritualista universalista não tem ou apresenta verdades absolutas. Um verdadeiro universalista sabe que muitas são as interrogações, provavelmente em número muito maior que a quantidade de alicerces de seu conhecimento.


2- HUMILDADE

O Princípio da Humildade provém naturalmente do anterior. Aquele que assimilou de fato que “A Verdade possui infinitas faces”, torna-se, consequentemente, mais humilde. Portanto, aqueles que se dizem espiritualistas universalistas, mas que no dia a dia usam largamente a ironia, o desprezo e a arrogância, ainda não compreenderam o que é Espiritualismo Universalista.


3- FAZER AO PRÓXIMO O QUE GOSTARIA DE RECEBER

Este Princípio correlaciona-se estreitamente com os dois anteriores, e é igualmente fundamental numa caminhada espiritualista universalista. Aliás, é uma questão basilar para o bom convívio humano, em qualquer circunstância. Assim, se alguém se intitula ou crê ser um universalista, mas fere esta “regra de ouro” com frequência, seja na sua vida privada ou pública, apenas presta um desserviço à propagação de um Espiritualismo Universalista.


4- AUTORREALIZAÇÃO/HARMONIA

Realizar-se enquanto ser humano/consciência espiritual é algo inerente a qualquer pessoa, quer ela perceba ou não. E conforme alguém vai se autorrealizando na vida, naturalmente também vai adquirindo harmonia neste processo. O Princípio de Autorrealização/Harmonia é particularmente importante no contexto do Espiritualismo Universalista, onde ganha aspectos mais amplos do que em caminhos de vida mais específicos. E quanto mais consciente for o universalista, de seus propósitos de vida, maiores são as chances de se desenvolver bem e de encontrar plenitude.


5- O CONTEÚDO É MAIS IMPORTANTE QUE A FORMA

O verdadeiro universalista consegue notar, com alguma facilidade, o que está por trás dos cultos exteriores das diversas religiões, percebendo o “cerne”, ou seja, quais os valores/significados principais que ficam encobertos pelos rituais. E é este “cerne” ou “essência” que o universalista considera realmente relevante. Em outras palavras, ele compreende que “o conteúdo é mais importante que a forma”.


6- TOLERÂNCIA

Este Princípio vem em consequência do anterior. Por enxergar que cada agrupamento religioso traz uma essência, que é parcela do Todo, o universalista se torna tolerante. E quanto mais se aprofunda e exercita, tenderá a adquirir mais Tolerância. Portanto, alguém que se julgue espiritualista universalista, mas que frequentemente aponta a “ignorância alheia” ou vive crendo na sua própria “maior sabedoria”, precisa se reavaliar com urgência, pois age semelhantemente àqueles que são abertamente dogmáticos/ortodoxos.


7- FLEXIBILIDADE

O Princípio da Flexibilidade é desenvolvido a partir da Tolerância e concomitantemente com ela. Assim, o universalista sente e pensa de forma mais flexível sobre tudo o que o cerca, passando a agir com maleabilidade diante das circunstâncias adversas e desafios da vida. O novo não o assusta, sendo encarado como oportunidade de algum aprendizado. Agindo desta forma, o crescimento não cessa...


8- PREDOMINÂNCIA DO MONISMO

Genericamente, chama-se de monismo às teorias filosóficas que defendem a unidade da realidade como um todo (em metafísica)4. O espiritualista universalista privilegia uma visão mais “monista”, embora não negue e compreenda que o dualismo seja fundamental para o desenvolvimento do espírito, sobretudo enquanto encarnado. Portanto, apesar de entender que as idéias dualistas de bem X mal, erro X acerto, luz X trevas etc. são relevantes no início da caminhada espiritual, conforme vai obtendo uma expansão consciencial, acaba por notar que o monismo prevalece: bem e mal são relativos; todos temos uma Essência Divina; todos temos impulsos de autorrealização; todos precisamos amar e ser amados; todos manifestamos aspectos da Inteligência Universal;...


9- ESPIRITUALIDADE É VIVÊNCIA

Para se ter uma percepção mais realista de um Espiritualismo Universalista, é preciso vivenciar algumas correntes religiosas/filosofias de vida. Ou seja, não basta o conhecimento teórico, mas sim, ter se engajado e participado de diferentes agrupamentos, pelo tempo necessário para assimilar conceitos e experiências práticas.


10- AUTOCONHECIMENTO

O “Conhece-te a ti mesmo” é um Princípio fundamental para o espiritualista universalista. Somente através de um bom grau de entendimento, quanto aos próprios sentimentos e principais mecanismos psicológicos, é que o universalista terá condições de colocar em prática diversos dos Princípios anteriormente assinalados.


CONCLUSÃO


Bem, este artigo não esgota o assunto. Obviamente, não me considero “detentor da Verdade”, e, sendo assim, evidencia-se que estes Princípios podem ser melhorados/complementados e, até mesmo, serem acrescidos de outros Princípios. Entendo que o Espiritualismo Universalista é uma construção coletiva e passará por constantes aperfeiçoamentos, conforme se expandem as consciências. Além disso, é importante salientar que será inevitável que os perfis dos espiritualistas universalistas serão variáveis, conforme a experiência/vivência de cada um, o que é natural, saudável e condizente com os próprios Princípios para um Espiritualismo Universalista. Em outras palavras, a partir da síntese particular que cada um poderá fazer, sobre as religiões/filosofias de vida existentes, ali se constituirá um universalista praticamente “único”. O que poderá promover uma espécie de identidade entre os universalistas é a própria vivência dos Princípios aqui propostos/desenvolvidos, ou quiçá, dos Princípios que futuramente caracterizarão um efetivo e consciente “Movimento Espiritualista Universalista”. Eu, de minha parte, estou exercitando os Princípios propostos, confessando-me um mero aprendiz. Espero que outros se juntem a esta caminhada, tornando-nos mais distantes da ortodoxias religiosas e filosóficas, contribuindo para um mundo mais livre e solidário. Em tempo, finalizo salientando que esta proposta em favor de um Espiritualismo Universalista não prevê, nem tenciona, a um fim das religiões instituídas, mas sim, aspira a uma convivência mais pacífica e produtiva, pois, afinal de contas, todos temos uma Essência Divina.


Fontes bibliográficas consultadas:

(1) Encyclopaedia Britannica. Disponível em: http://www.britannica.com/. Acesso em 19/04/2011.

(2) Dicionário Básico de Filosofia. Hilton Japiassú e Danilo Marcondes. Rio de Janeiro: Zahar, 2008, 5a edição.

(3) Os Sufis. Idries Shah. São Paulo: Cultrix, 1993, 9a edição.

(4) Monismo. Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Monismo. Acesso em 27/04/2011.


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