ARTIGO 10 - PROFECIAS CATASTRÓFICAS: BREVE HISTÓRICO E CAUSAS PRINCIPAIS

Autor: Pablo de Salamanca

Escrito em 6 de abril de 2011.

Para discorrer sobre esse tema, é importante inicialmente apresentar duas definições fundamentais. A primeira explica o que é profecia(1): do grego propheteía, pelo latim prophetia; predição do futuro feita por um profeta; oráculo, vaticínio, presságio. A segunda esclarece o que é premonição(1): do latim praemonitione; sensação ou advertência antecipada do que vai acontecer; pressentimento. Ambas palavras, profecia e premonição, estão relacionadas ao foco desse artigo, que não investigará sobre os mecanismos pelos quais o fenômeno se dá. Entendendo que profecias/premonições ocorrem, com maior ou menor grau de precisão, discutiremos principalmente sobre aspectos culturais e psicológicos vinculados ao tema, de forma a alertar quanto ao catastrofismo/pessimismo de certos vaticínios, que, não raras vezes, têm origem no próprio psiquismo do indivíduo que faz predições, ou naqueles que as interpretam. Não estamos duvidando do fenômeno, que existe e tem sido estudado por muitas pessoas com sólida formação, mas sim, nos ateremos às distorções que envolvem o assunto.

A questão de profetizar é antiga. Podemos facilmente lembrar o Velho Testamento da Bíblia, cheios de apontamentos sobre o futuro, dentro do Judaísmo. No entanto, se tem notícia do fenômeno entre povos mais antigos, podendo ocorrer, com boa probabilidade, desde culturas primitivas. Mas, voltando à tradição profética judaica, não é difícil perceber que ela flui até o Apocalipse de João, já no início do Cristianismo. Analisando-se o contexto cultural do Judaísmo, desde épocas mais remotas, constata-se que vivenciaram muito a luta pela sobrevivência, guerras por motivos diversos, perseguição e escravidão. Desta forma, o uso de suas capacidades psíquicas, para uma visão de futuro, é claro que está permeada por ansiedades e angústias. Assim, tanto os conteúdos premonitórios em si, quanto as interpretações dadas às predições, apresentam-se com fortes traços de dor e tragédia. E este cenário geral passou para o Cristianismo nascente, pois os cristãos também viveram por muito tempo em situação de opressão e contendas. Neste sentido o Apocalipse é um marco, que une o passado do Judaísmo com o mundo da cristandade. E hoje, podemos afirmar que a civilização ocidental, de uma forma geral, é “herdeira” do Apocalipse. Somos descendentes de pensamentos de “fim do mundo”, de crenças em mudanças bruscas tanto quanto violentas, e de desejos de “punição aos maus” e “recompensa aos virtuosos”. Assim, desde os primeiros tempos do Cristianismo, é possível ter acesso a profecias e interpretações com teor trágico. Vejamos, a seguir, alguns exemplos. Por volta do ano 90 d.C., São Clemente I previu que o fim do mundo era iminente(2). O bispo Hilary de Potiers declarou que em 365 d.C. o mundo acabaria(2). Um pouco antes do ano 1000 d.C., parte da cristandade preparou-se para o fim do mundo através de diversas penitências(3). Na mesma época, muitos deixaram de trabalhar; não se começava nenhuma obra; e os mais ricos tentavam gozar a vida ao máximo, pois em pouco tempo tudo deixaria de existir(4). Então, alguns disseram que tudo o que estava predito, deveria ocorrer a partir da morte de Jesus, e, portanto, que se esperasse até 1033 d.C., porém nada acontecendo nesta nova data(4). Pouco tempo depois, Joaquim de Fiore, abade e filósofo místico italiano, previu o fim do mundo para 1260 d.C.(5,6). No século XIV, a peste bubônica, também chamada “peste negra”, dizimou cerca de 1/3 da população europeia. Causou desordem tão intensa, que muitos acreditavam que era o fim do mundo, propalado por inúmeros pregadores daquele período difícil(7). Já Michel de Nostredame, o “Nostradamus”, ficou famoso por suas habilidades premonitórias registradas no século XVI. Ainda há pouco, no final do século XX, muitos estudiosos conceberam interpretações radicais para as suas Centúrias (obra poética de caráter profético), assinalando variadas desgraças sobre a atual civilização. Mais uma vez, as expectativas de mudanças radicais e abruptas, sobre a face do planeta, foram frustradas. E por quê?

Bem, a frustração de profecias trágicas tem várias motivações, que, em algumas oportunidades, estão correlacionadas entre si. Imaginemos, de início, como se sente alguém que tem visões em sequência, não raras vezes de uma época bem distante no futuro. Assim, imagens de máquinas com tecnologia avançada e incompreensível, já o deixarão atordoado. E muito mais ficará, se as cenas são de conflitos e guerras. Portanto, ao vislumbrar acontecimentos dolorosos do porvir, facilmente poderá interpretar que é o “fim do mundo”. No entanto, o paranormal pode estar vendo cenas com o espaçamento de muitos anos entre si, e ainda em países diferentes. Ou seja, não é o “final dos tempos”. Por outro lado, compreendemos que o futuro é uma espécie de rede de possibilidades. Nem tudo o que se vislumbra, de fato acontecerá! Além do que foi comentado neste parágrafo, relembramos o contexto cultural e psicológico onde está inserido o vidente. Se a cultura onde este se desenvolveu, favorecer o entendimento de que a solução para os problemas é sempre por meio da força, é bem provável que ele interprete o que viu ou pressentiu, com matizes mais fortes de violência. E no caso da civilização ocidental, “herdeira” do Apocalipse, já há uma expectativa inconsciente por um “fim do mundo”. Daí, não fica difícil entender porque pessoas com graus variados de paranormalidade, quase sempre acabam por produzir previsões um tanto trágicas. E mesmo aqueles que somente se prendem à interpretação de predições, também caem neste lugar-comum. Já a população no geral, considerando uma parte significativa, crê num futuro doloroso para a humanidade, pelas mesmas causas culturais e psicológicas. Aliás, dissequemos um pouco mais as razões psíquicas para esta postura. Uma delas é a inadaptação à realidade atual, com todos os estresses e frustrações, que acabam por facilitar uma atitude mental de fuga, desejando-se uma transformação abrupta em escala planetária, que obviamente não está isenta de sofrimento. Outro aspecto ocorre com indivíduos que vivem mais próximos da linha da miséria, vivendo em subjugação econômica e com muito pouco poder de decisão. Estes naturalmente preferirão uma mudança rápida no status quo, através de “eventos apocalípticos”, consistindo este sentimento que carregam, num mecanismo de compensação para as suas dores no cotidiano. E na esteira de todo este processo, não podemos esquecer dos “espertalhões” que escrevem e falam sobre previsões bombásticas, lucrando com a credulidade popular...

Neste ponto do artigo, não podemos deixar de mencionar as profecias após o ano de 2000. O grande destaque é o que se diz sobre o calendário maia e sobre o ano de 2012, que não será reproduzido aqui. Esta e outras predições/interpretações acabam por distorcer fatos científicos, amoldando-os (muitas vezes grosseiramente) para concluir que grandes catástrofes, em escala planetária, irão ocorrer em breve. Esta situação ganha força por meio dos atuais desarranjos climáticos, que são promotores de eventos com muitos mortos e desabrigados em várias partes do mundo. Mas se observarmos com atenção o histórico de desastres naturais, a seguir, não será difícil compreender que o planeta sempre teve suas convulsões climáticas e geológicas(8):


- Em 1556, houve um terremoto na China (Shensi), matando cerca de 800 mil pessoas.

- Em 1730, no Japão (Hokkaido), um terremoto provocou em torno de 140 mil mortes.

- Em 1737, na Índia (Calcutá), um terremoto extirpou perto de 300 mil vidas.

- Um tsunami, em 1775, promoveu o desencarne de mais ou menos 60 mil pessoas.

- Em 1780, dois eventos naturais foram catastróficos: no Irã, um terremoto ceifou em torno de 200 mil vidas, enquanto no Caribe um furacão levou 22 mil pessoas à morte.

- Em 1815, na Indonésia (Sunbawa), o vulcão Tambora provocou 90 mil mortes.

- Um ciclone em 1864, na Índia, tirou a vida de 70 mil pessoas.

- Em 1876, no Bangladesh, um ciclone matou 200 mil pessoas.

- As secas do triênio 1876-78, na China, promoveram o falecimento de cerca de nove milhões de seres humanos.

- Em 1881, um tufão matou perto de 300 mil indivíduos na China.

- Em 1887, enchentes do rio Yantzé (China) eliminaram cerca de um milhão de pessoas.


Portanto, as transformações na face do planeta eram comuns no passado, são quase corriqueiras hoje, e provavelmente continuarão a ser fato normal no futuro, seja em 2012 ou após este ano. A grande diferença entre hoje e outrora, é que no passado não havia um sistema de comunicações tão eficiente e complexo. Através da TV por satélite, Internet em banda larga, e telefonia celular, nos comunicamos instantaneamente com qualquer parte do mundo. Assim, uma sequência negativa de eventos climáticos, com mortos e feridos, além das guerras e atentados, rapidamente é conhecida por todos. Então, fica a impressão de que o planeta está mais perturbado do que nunca, e usam isso como “combustível apocalíptico”. No entanto, o breve histórico de desastres naturais apresentado, cuja lista original é bem mais longa(8) (omiti diversos fatos para evitar ser muito extensivo aqui, mas vale a pena conferir no endereço indicado ao final deste artigo), nos atesta que o planeta está em constante mutação.

Finalizando, entendemos que aguardar um mundo melhor através de transformações apenas exteriores, é algo ilusório. Compreendemos que a chamada “separação do joio do trigo”, através de desencarnes em massa, somadas a outras teorias/especulações não é o mais importante. Fundamental é desenvolver a própria espiritualidade, através do autoconhecimento e da vivência no dia-a-dia com os semelhantes. Somente após atingirmos, como uma coletividade que somos, um grau mínimo de “amar ao próximo como a si mesmo”, é que teremos um mundo melhor. Façamos a nossa parte agora e, então, um futuro harmônico chegará mais rapidamente.


Fontes bibliográficas consultadas

(1) Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, Editora Nova Fronteira, 2a edição (12a reimpressão), de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, 1986, 1838 p.

(2) Lançamento do livro “O fim dos tempos”, de Sylvia Browne, Ed. Prumo. Disponível em: http://www.communicabrasil.com.br/texto.php?cod=526. Acesso em 31/01/2011.

(3) Artigo “Eclipse, histeria e milenarismo”, de Fernando Fernandes. Disponível em: http://www.constelar.com.br/revista/edicao14/histeria.htm. Acesso em: 01/02/2011.

(4) Artigo “De mil passará, mas a 2000 não chegará...”, editorial da revista O Consolador. Disponível em: http://www.oconsolador.com.br/ano3/140/editorial.html. Acesso em 01/02/2011.

(5) “Breve Cronologia 1170-1274”. Disponível em: http://salterrae.org/breve-cronologia-1170-1274. Acesso em 02/02/2011.

(6) “Joaquim de Fiore”. Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Joaquim_de_Fiore. Acesso em 03/02/2011.

(7) “O que foi a chamada peste negra?”. Disponível em: http://www.klickeducacao.com.br/conteudo/pagina/0,6313,POR-1368-,00.htm. Acesso em 03/02/2011.

(8) “Desastres Naturais”, especial on line da Revista Veja. Disponível em: http://veja.abril.com.br/especiais_online/desastres_naturais/. Acesso em 04/02/2011.


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